Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campos da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri dois link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Lenheiro e São José: nossas serras, nossas lendas...

(Ofereço com imensa gratidão e admiração 
ao amigo Luis Antônio Sacramento Miranda,
grande conhecedor de nossa história e tradições, 
lutador pela preservação das serras)


Nas Serra do Lenheiro e na de São José acharam farto ouro a três séculos. E nos ribeiros que delas brotam e escorrem para o Rio das Mortes também reluziu nas bateias o fulvo metal. Os descobertos suscitaram a cobiça de aventureiros que para esta região do centro-sul mineiro se deslocaram atraídos pelo sonho do enriquecimento. Daí surgiram as localidades primitivas desde São João del-Rei até Prados.

A faina do ouro imprimiu fortes marcas na cultura local, eivada de tradições a respeito, lendas, costumes. Nesta postagem, a título meramente ilustrativo, são brevemente expostas algumas destas narrativas populares, marcas antigas do saber popular. São impressões da alma mineira, fruto de sua relação com o ambiente, marcas do tempo... O ouro formou um ciclo cultural.

Não apenas do ouro, mas a própria vivência do homem mineiro com as montanhas contribuiu para construir uma complexa espiritualidade, uma relação quase mágica com as serras, respeitosa e mística, estendendo-se ao seu entorno. As estórias de antanho como que norteiam a conduta frente à natureza, evidenciam os limites do homem frente a força maior da natureza e dos encantados. A aparição de luzes misteriosas sobre os rochedos ainda mete temor em muitos. É a mãe do ouro passando...

Ambas as serras são áreas de proteção ambiental: a do Lenheiro por mecanismo de tombamento e pelo Parque Ecológico Municipal; a de São José pela APA e pela REVS Libélulas. São áreas de elevado interesse para a preservação.

Serra do Lenheiro e arredores: São João del-Rei

A febre do ouro fez uma avalanche de aventureiros convergir para as minas, afoitos em garimpar. Escravos sofreram terrivelmente sob o chicote do feitor, metidos nas grupiaras (= guapiaras), bêtas úmidas e perigosas. Ali muitos morreram. Acredita-se que as almas de muitos, assassinados ou que tiveram mortes trágicas, fruto de desabamentos, incêndios, etc., ainda estejam vagando nas serras onde trabalharam. Sobretudo as almas dos malvados senhores, sinhás, capatazes, feitores, capitães do mato, que assassinaram e cobiçaram as riquezas, viraram almas penadas e hoje assombram e trazem mal agouro às ruínas e grotões. Algumas são como guardiães de um dado lugar, donde se extraiu uma pequena fortuna, que a dita alma vigia ciumentamente como se ainda lhe fora servir para algo. Apegada ao material, não se deu ainda conta da sua inutilidade no mundo espiritual. Por vezes fazem aparições colocando viandantes em fuga espavorida. São comuns casos de ruídos misteriosos nos caminhos da serra, sensações de arrepios desagradáveis nas grotas ou de estar sendo seguido nas trilhas ou simplesmente vigiado. Impressões intangíveis. Visão fugaz de vultos. Vozes humanas indefinidas a conversar entre si, sem que ninguém esteja por perto. Gemidos e choros a gungunar na vastidão. Pelos lados das Três Praias, Cachoeirinha, Azulão, Arambinga, por toda parte enfim, correm estes causos. 

A Gruta do Caititu no complexo do Lenheiro é um lugar também referido como assombrado, porque aí se castigavam os escravos e ainda aí, eles faziam oferendas às entidades espirituais. 

A ciência não explica neste sentido, senão mesmo confunde ainda mais e inclusive, renega todos estes fatos. Pertencem sem dúvidas ou favores ao folclore. Cumpre notar que o espiritismo e a umbanda buscam explicar tais fatos. Mas não entraremos neste campo por fugir aos objetivos textuais. 

Muitos homens morreram soterrados na faina de escavar pedras atrás do ouro. Dizem-no irmão do quartzo [1]. Por isto os garimpeiros ao achar seus cristais, continuavam escavando deduzindo que o ouro estava próximo. Cegos pela cobiça se esqueciam da segurança e um desmoronamento os consumia. Sua alma ficava presa ali, sem alcançar descanso e passava a assombrar, como que espantando os intrusos que vem roubar-lhe a riqueza, de que ainda supõe ser dono. A avidez extrapola a morte e persiste além-túmulo. Fala-se assim de uma voz misteriosa que teria prevenido outrora um desabamento no Tanque, perto da Igreja do Carmo, mas a insistência fez descumprir o alerta divino e o desabamento teria matado trezentos escravos e muitos feitores. Aliás, dizem, sob a Igreja do Carmo corre, vindo da serra, um rio subterrâneo, repleto do melhor ouro. 

Nas Três Praias há no barranco um túnel surpreendente furado pelos escravos. Acreditam que era uma saída secreta para fugas, desembocando onde hoje se ergue a Igreja de São João Bosco. Contudo um exame do lugar indica que o túnel tem poucos metros de extensão, que está a merecer uma proteção específica.

Um dos contrafortes da Serra do Lenheiro recebe o nome específico de "Serra de Santo Antônio", uma montanha bastante íngreme e pedregosa. O nome tem origem lendária. Três trilhas passam nas imediações e delas alguns caminhantes dizem ter visto uma aparição da imagem do santo naquela elevação, daí o nome que lhe deram, sobretudo na sua parte mais inacessível, onde há uma loca de pedra, que dizem ser a gruta do santo. Tanto mais, outros não avistam a imagem, mas pegadas na areia, de uma sandália franciscana. Supõe ser do próprio santo. Outra lenda local, bem menos amena, narra que indivíduos abusados, atrevidos com a religião, desrespeitosos, já se viram perseguidos por um caixão roxo, que desce escorregando do alto da serra em direção ao incauto, que naturalmente se põe em debandada.

No Ribeirão São Francisco Xavier, na Serra do Lenheiro perto do Tanque dos Quilombolas, onde as lavadeiras tem ponto de lavar roupas, no caminho que segue para a Arambinga, surge por vezes uma bruaca [2] abarrotada de ouro, algo de encher as vistas. Quem caminha em sua direção, tem a surpresa de vê-la desaparecer de súbito. Se insistem em pegá-la na reaparição, toma-se a surra de um reio [3] invisível.

Contam os apanhadores de lenha, que quando iam buscá-la na Serra do Tronco (contraforte do Lenheiro), onde há uma grande mata, ouviam o ruído característico de um lenhador no seu interior, trabalhando com o machado. Mas ao aproximar-se do local de onde vinha o barulho das machadadas, qual era a surpresa ao verem a inexistência de árvores cortadas e muito menos do lenhador. A mata continuava serena, apenas com seus sons naturais. O lenhador é mais um assombro. 

Ao pé do Morro das Almas, também no Lenheiro, num mato ralo que tem um brejal dentro (nascente do Córrego do Areão), narram que três homens campeando uma vaca tresmalhada, viram quando ela se ocultou no dito mato. De qualquer ponto a avistavam mas qual não foi sua surpresa quando ela desapareceu simplesmente, do nada, sem ter fugido do mato. É como se ali houvesse um portal invisível que levou o animal para outra dimensão.

A Porteira Pesada ficou famosa por bater sozinha, três vezes à meia-noite, ao meio-dia e às três da tarde. Por vezes trava sem ter qualquer espécie de trinco, não abrindo de forma alguma. De repente abre de uma só vez, na maior facilidade. É temida pelos cavaleiros, por causa de seus mistérios.

Serra de Santo Antônio: contraforte da Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG, 06/03/2010.  

Serra de São José e arredores: São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Tiradentes, Prados e Coronel Xavier Chaves

A Lagoa do Canjica em Tiradentes, com histórias e estórias de riquezas incomensuráveis, palco de farta mineração, é hoje um terrível aterro e brejo residual com várias plantas de taboa. Infelizmente não foi preservada.

Os moradores locais contam uma lenda etiológica sobre ela, que diz que a princípio, era apenas um fio d’água. Dois portugueses, vindos de sua terra natal, onde estavam a penar, sonhando enriquecer com as preciosidades da colônia, prometeram a Santo Antônio que se achassem riquezas minerais no novo mundo, a primeira delas seria ofertada ao taumaturgo. Chegando à beira da água passaram a bateia e logo recolheram ouro que passava de quilo. Lembraram-se da promessa. Os gananciosos concluíram entre si que era ouro demais para um santo só, que enfim estava lá no céu e não precisava daquilo, porque não tinha onde gastar, etc., e que a próxima bateiada seria dele, sem dúvidas. Continuaram a faiscar. Mais meio quilo. Era muito ainda para o santo e mais uma vez adiaram a oferta. Já com os alforjes repletos do rico metal e protelando a parcela prometida a quantidades cada vez menores e inatingíveis, foram surpreendidos por um tremor repentino de terra. Um estrondo medonho tomou conta do lugar; a terra se fendeu e os engoliu num gigantesco buraco, donde brotou de súbito muita água formando uma lagoa, na qual desapareceram para sempre os gananciosos garimpeiros. Assim surgiu a Lagoa do Canjica . 

Seu curioso nome, atestam, é uma analogia ao milho de fazer canjica, pois o ouro que aí se achava era em numerosíssimas pepitas, tão grandes como aqueles grãos.

Outra lenda interessante é a de que o padroeiro de Tiradentes não aceitou a mudança da sua capela primitiva. Quando fizeram a atual matriz setecentista e transladaram processionalmente a sua imagem, o santo lisboeta, uma vez entronizado no novo altar, num mistério, desapareceu sozinho e reapareceu na capela velha. Trouxeram-no e mais uma vez Santo Antônio retornou ao altar original. Teimava em não aceitar a nova capela e foram esgotados os esforços para mantê-lo onde queriam. Até que um dos fiéis teve a ideia de trazer da velha ermida para a nova igreja, uma grande pedra escavada que ali ficava. A partir daí o santo aceitou e não desapareceu mais [4]. 

Essa pedra meio que sobrenatural é uma preciosidade que está na grama do adro da capela do Canjica ainda hoje. É como uma pia circular, escavada num grande bloco rochoso, terminando numa bica. Tal peça prestava-se no ciclo do ouro à lavagem das areias auríferas. Como ela podem também serem vistas outras duas: uma na Fazenda do Pombal (onde nasceu o alferes Tiradentes) e outra no porão do Museu Padre Toledo, nessa cidade. No contexto lendário o artefato é considerado sagrado ou misterioso. Pertence ao santo. 

Essa lenda não é exclusividade tiradentina. O sumiço de uma imagem de santo da capela nova para reaparecer na capela velha ou no lugar primitivo, onde sua imagem foi encontrada primeiro, até que este ou aquele fato se concretize para interromper a onda de teimosia, consagrando o novo lugar perante os olhos do santo (e não diante dos rituais oficiais do catolicismo) é a essência, o cerne de muitas lendas congêneres, espalhadas Minas Gerais afora e mesmo noutras partes do Brasil. Existem muitas versões envolvendo ora Santo Antônio ora a Virgem do Rosário e ainda outros santos. Em Portugal é conhecida e decerto de lá a trouxeram.

Na Estrada do Areal, indo de Santa Cruz de Minas para a Serra de São José, via Chuveirinho, vê-se logo uma propriedade bem próximo à serra, à esquerda de quem sobe, que pertenceu até meados do século XX aos religiosos salesianos, por isto mesmo alcunhada “Chácara dos Padres”. Dizem-na assombrada pela alma de "Padre Cristófaro", sacerdote que aí teria morado e falecido.

Toda a área defronte a ela de pastagens e valos remanescentes do período minerador, a grande depressão onde nasce o Córrego de Dona Antônia e imediatamente além, no Serrote é área narrada como mal assombrada. O povo sabe de estórias arrepiantes de aparições fantasmagóricas. 

Nesse interior pode ser visto também uma área mais recentemente terraplanada que serviria a instalação de um cemitério para Santa Cruz de Minas, chegando a se construir no que seria sua frente, duas colunas de cimento que seguravam o portão; este em si, e mais uns muros de placa de cimento, tudo hoje destruído exceto as colunas. Contam os moradores que o lugar também tem um misterioso assombro, pois que jamais conseguiram fazer daí um cemitério de fato, haja vista que sempre algo dava errado, as máquinas quebravam, algo emperrava, etc. Falam que era por causa da alma de antigo feitor, que teria sido muito mal com os escravos da Fazenda do Córrego, chegando a matá-los e a enterrá-los clandestinamente justo neste local do cemitério, como se fossem pagãos. Era conhecido por "Quincas". Sua alma teria assombrado a região por muito tempo, desde o Córrego de Dona Antônia ao sopé da serra, até que às custas de trabalhos espirituais foi retirada dali para a prisão no umbral. 

Na Serra de São José é bem conhecida a Cruz do Carteiro, feita de tosca e velha madeira sobre um monte de pedras, que cresce cada vez mais posto que os caminheiros tem o costume de por uma pedra nova, cada vez que por ela passam, contando mais uma oração em sufrágio daquela alma ali morta, ou das almas em geral, costume ancestral, vindo da antiguidade clássica, trazido na herança dos colonizadores. Flores são postas junto à cruz. O tal carteiro, dizem, foi um mensageiro da Inconfidência Mineira, que levando uma mensagem secreta dos inconfidentes de São José del-Rei (atual Tiradentes) aos do Arraial da Laje (atual Resende Costa), não teria chegado ao seu destino, pois foi aí assassinado. Desconhecemos documento comprobatório deste fato, que é contudo atestado pela tradição oral. Um velho folder da Secretaria de Cultura e Turismo de Tiradentes informava que “em 1823, esta cruz já lá existia há muito tempo e já não se sabia quem lá havia morrido.” 

Na Lagoa dos Cordões falam de uma noiva misteriosa, visagem, que a horas mortas caminha lentamente junto à margem, triste, cabisbaixa, o vestido nupcial meio estragado. De repente desaparece. É um fantasma. Fora uma moça feliz e distinta, cujos pais lhe obrigaram em tempos de antanho, a um casamento infeliz, arranjado. Desesperada, ainda na porta da igreja, fugiu correndo e na fuga atroz caiu na funda lagoa onde se afogou. Sua alma ainda ronda o lugar. 

Em tal coleção d’água, como no rio e noutras lagoas vizinhas e até mais além, no Jacarandá e do outro lado do rio, junto à Casa da Pedra, comentam acerca do pavoroso caboclo d’água, ser aquático monstruoso, que agarra banhistas incautos pela perna com suas mãos fortes, peludas, de garras afiadas, cascorentas, para o fundo das águas, donde nunca mais o cadáver submerge, posto que devorado. Vira canoas, pegando-as no bico da proa, sem grande esforço, pois sua força é descomunal. Um canoeiro se salvou por ter um facão no barco, com o qual decepou sua mão horrenda, que caiu na torrente. Outras vezes bota meio corpo para fora d’água, mostrando o busto moreno e robusto, de fisionomia desfigurada.

Pelos lados de Prados, falam de uma gruta num paredão da serra vedada de uma porta de ferro travada, quase intransponível. É uma antiga mina, cheia de tesouro, protegido por uma serpente fantástica, sobrenatural e gigantesca. É um vestígio das estórias ibéricas da moura torta, de influência árabe, dos tempos do domínio muçulmano na península ibérica. Segundo outras fontes orais essa porta esquecida fica para os lados das Águas Santas, à meia subida.


Cruz do Carteiro: Serra de São José.
Coronel Xavier Chaves/MG, 28/03/2011.
Considerações finais

Os municípios entrecortados por estas serras tem nas mãos uma riqueza imensurável nas suas montanhas rochosas. Vai muito além das preciosidades ocultas no solo. É a fauna, desde grandes mamíferos até os pequenos insetos, é a vegetação de biomas de mata atlântica, cerrado e campos rupestres; o interesse espeleológico; a arqueologia da mineração; a geodiversidade extraordinária; as nascentes de águas cristalinas, minerais; a paisagem e muito além do evidente, do palpável, tangível, concreto, está o intangível, a riqueza da história e da estória, dos fatos e das lendas. O folclore aqui neste texto foi apenas pincelado. A proteção dessas áreas deve ser total e intensivamente trabalhada. E aliada a isto a educação ambiental e patrimonial deve ser uma premissa nas escolas, em todos os níveis, séries e esferas. O potencial turístico das serras é grande e demanda organização, controle, estruturação e diretrizes, pautadas na segurança do meio e dos visitantes. É riqueza a ser garimpada. E essa cultura serrana é outra riqueza, a ser conhecida, salvaguardada e divulgada. Não há dúvidas. A Serra do Lenheiro e a Serra de São José fazem parte do meio ambiente cultural do Campo das Vertentes.

Notas e Créditos
* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
** Levantamento de conteúdo: Ulisses Passarelli e Luís Antônio Sacramento Miranda
*** Notas finais: 

[1] - Para o garimpeiro a presença de veios de quartzo indica a proximidade do ouro escondido. Da mesma forma a “jacutinga” é uma indicadora. Trata-se de um minério mole e esbranquiçado. Por ser claro como as manchas brancas da ave galiforme cracídea chamada jacutinga (Aburria jacutinga) é que ganha este nome. 

[2]- Antiga mala rústica de couro cru, usada pelos tropeiros, atada sobre o lombo dos burros cargueiros. 

[3] - Reio: relho, espécie de chicote de uma só tira de couro. 

[4]- Uma lenda muito parecida em Tiradentes se refere ao desaparecimento e reaparecimento da imagem de São José de Botas, do nicho do Chafariz de São José. Ver: SCHETTINO, Lacyr. Lendas da cidade de Tiradentes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1968. v.13. p.149-160. 
Para conhecer outra versão de lenda de desaparecimento e reaparição de imagem em Tiradentes leia neste blog: Tiradentes/MG: duas lendas religiosas

domingo, 18 de setembro de 2016

Festa do Rosário no São Geraldo

Outro domingo festivo em honra ao rosário em São João del-Rei transcorreu hoje, 18 de setembro de 2016: em meio a imenso calor os congadeiros se reuniram no Bairro São Geraldo para o tradicional evento religioso. 

Na quinta-feira passada o "Moçambique Santa Efigênia", com os Capitães Tadeu, Borracha e Danilo e o "Catupé São Benedito e Nossa Senhora do Rosário" com o Capitão Moacir cuidaram de recolher da sede da conferência à Igreja de São Geraldo a nova imagem de Nossa Senhora do Rosário. Na chegada cantaram seus louvores e a seguir a comunidade reunida rezou e ouviu a celebração da palavra, aliás, muito bem proferida. Na sequência, levantaram os mastros: de São Benedito, de Santo Antônio de Categeró, de Santa Efigênia e de Nossa Senhora do Rosário, um em cada quina da praça como a esboçar um quadrilátero dentro do qual transcorre a festa. 

O tríduo preparatório durante estes dias antecedeu o dia maior e contribuiu para unir a comunidade em torno das práticas religiosas da Igreja. 

Hoje os congados citados recepcionaram o moçambique visitante, vindo de Belo Vale, com a bandeira do Rosário na dianteira. Sob o comando do Capitão Quinzinho, em espírito de união e irmandade, festejaram todos reunidos. 

O café da manhã e o almoço foram assaz elogiados pela fartura e qualidade. 

 Houve missa festiva no meio da manhã, com participação dos congadeiros e do coral do distrito de São Sebastião da Vitória. Pela tarde foi a vez do tradicional recolhimento do reinado, saudação à corte, apresentações culturais e por fim a descida dos mastros. O cansaço toma conta de todos mas o dever missionário foi cumprido. Mais um vez floresceu esta face festiva e musical da identidade regional. 

Igreja de São Geraldo e Moçambique Santa Efigênia.

Capitão do Moçambique canta sua saudação sagrada. 

Moçambique Santa Efigênia. 

Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Belo Vale/MG. 

Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Belo Vale/MG.
Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Belo Vale/MG.   

Detalhe do mastro de São Benedito.  
 
Ofertas alimentares na missa festiva. 

Após a celebração o alimento ofertado é distribuído aos fiéis na praça. 

Bênção da Mesa pelos moçambiqueiros de Belo Vale.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Festa do Rosário no São Dimas

Segundo informações orais, desde 1958, o Bairro São Dimas (antigo Lava-pés), em São João del-Rei, festeja com congados o rosário de Maria no segundo semestre do ano, setembro ou outubro. Ora aconteceu a referida comemoração no último domingo, dia 11, com a animação de costume, em torno da Capela de Nossa Senhora do Rosário. 

No mesmo formato dos anos anteriores e desses eventos em geral, transcorreu a festa de 2016 com a presença dos dois ternos do bairro, que foram anfitriões de visitantes de longe: um congo de Machado e outro de Itaguara, um vilão de Perdões, o catupé da vizinha Resende Costa e ainda o conterrâneo "Moçambique Santa Efigênia". 

Ao alvorecer, como de praxe se realiza, girândolas de fogos de artifício espoucaram para anunciar o dia festivo e trazer-lhe bons augúrios. 

No começo da manhã começaram a chegar os dançantes e pouco a pouco encheram o largo da igrejinha, que se encontrava aberta e enfeitada, tal como o cruzeiro que a ladeia. No interior, previamente montado e ornado, o andor de Nossa Senhora do Rosário e outro de São Benedito, estavam expostos à veneração dos fieis. 

Os dois congados locais logo trataram de erguer seus respectivos mastros e ainda por respeitosa deferência mais um mastro em memória do Capitão Raimundo Camilo, que tinha sob seu comando outra guarda no bairro, mas que o Criador já chamou de volta. A atitude, muito simbólica e eloquente é como se dissesse a todos que ele e sua obra ainda vivem e não podem ser esquecidos. O memorial também se fez notar na residência da Capitã (*) Maria Auxiliadora Mártir, que expôs bem à frente da sua casa o vestido e a coroa da memorável Rainha Conga do lugar, Sra. Maria da Glória, sua progenitora e também o pandeiro do fiel congadeiro Mauro, com fitas pretas de luto. O carinho e o respeito a quem deixou sua marca e legado. Todos o viram posto que os congados que chegavam visitavam sua residência. 

Uma barraca de comes-e-bebes ao fundo da capela arrecadava em benefício da festa; o palanque armado adrede, com sonorização, estava pronto para a missa campal. 

A alimentação dos dançantes como de outros anos, transcorreu no Centro Comunitário Dom Bosco. Registre-se a fartura, higiene e bom tempero, aliados ao prazer em servir aos congadeiros. 

No calor da tarde, castigando de fato, no sobe e desce de ladeiras, tambores e gungas zoaram e tiniram pelas ruas à escolta do reinado. Alguns príncipes e princesas deixam na assistência a esperança de continuidade, crendo que no futuro tornar-se-ão reis e rainhas do rosário. 

De chegada foram entregues na capela como manda a tradição; houve celebração da Santa Missa e logo mais procissão. Os congados são-joanenses desceram os mastros. Todos se despediram, com o cansaço físico mas o espírito renovado na fé. Não há muito tempo para descansar: quinta-feira é preciso levantar mastros no Bairro São Geraldo pois já no próximo domingo é dia maior do rosário naquele bairro vizinho. Esta é a luta e a missão do congadeiro. 

Capitã Maria Auxiliadora e Capitão Danilo carregam um mastro. 
Capitã e festeira Maria Auxiliadora conduz o ritual de levantamento de um mastro.

Levantamento do mastro do terno do Capitão Moacir Santana. 
Terno do bairro, sob o comando do Capitão Moacir canta no interior da capela. 

Capitã de Itaguara entoa seus louvores. 

A guarda de Machado enche a via de imponência. 

O vilão de Perdões pelas ruas com sua movimentação agitada e colorida. 

Jovens congadeiros (as) de Resende Costa. 

Moçambique Santa Efigênia subindo a ladeira da capela. 

Capela do Rosário com os mastros fincados no adro e cruzeiro ao lado enfeitado. 

Moçambiqueiros tocando ganzá, caixa e pantagome. 

Notas e Créditos

* Capitã: no dizer popular a forma correta é capitua ou capitoa
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 11/09/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Festa do Rosário na Restinga

No último domingo, 04 do corrente (*), a comunidade da Restinga de Baixo (Ritápolis/MG) novamente congregou-se com a população do derredor para os tradicionais festejos em honra a Nossa Senhora do Rosário. Como de costume o congado local foi o anfitrião, recepcionando a guarda de Resende Costa sob a bandeira de Cosme e Damião e a de São João del-Rei, sob o patrocínio de Santa Efigênia. Aos dançantes foi ofertado farto e saboroso almoço e lanche. 

Houve grande movimentação de visitantes e devotos, vindos a pé, a cavalo e de automóvel. A chamada do reinado, a celebração da missa e a procissão foram especialmente concorridas. Participaram os andores de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Após a programação cultural e religiosa houve um bingo que reuniu muitos participantes. 

As fotografias a seguir revelam parcialmente a movimentação festiva do lugar . 

Os dois mastros da festa, cada um com duas faces: à esquerda,o mastro de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário;
à direita, o mastro de São Sebastião e Nossa Senhora de Fátima. 

Detalhe do pé do mastro calçado com cunhas de madeira, solução alternativa
à típica medida de prendê-lo com terra socada. 
Os dois mastros e a Capela de São Sebastião, que sedia os festejos. 

O bandeireiro da Restinga puxado pela guarda do lugar traz o reinado para a chamada. 
O povo se aglomera para assistir a chamada de reis, rainhas, príncipes e princesas. 

O sacerdote vibra a campainha ao anunciar o valor de uma oferta de um membro do reinado e as caixas rufam. 

Andores de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário no interior da capela. 

Congado de Resende Costa: pela juventude que agrega uma esperança para a cultura congadeira no futuro. 

O congado da Restinga: jovens participantes se agregam continuando a tradição dos antigos. 


Muitos vem das fazendas a cavalo. Os animais são presos aos moirões da cerca à sombra das árvores. 

Vista parcial dos automóveis denotando o grande afluxo de visitantes. 

O cemitério. Na linha do horizonte a silhueta da Serra das Vertentes
que nomina a mesorregião. 

Notas e Créditos

* Está aberta a temporada de festejos em honra ao Rosário na região que contam com ampla participação das guardas de congado. A previsão é a seguinte: 

- 11/setembro: Bairro São Dimas, São João del-Rei
- 18/setembro: Bairro São Geraldo, São João del-Rei; Ramos (Ritápolis)
- 25/setembro: Ritápolis
- 09/outubro: São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei)
- 06/novembro: Resende Costa 

** Texto e fotografias (04/09/2016): Ulisses Passarelli

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Adeus, agosto; bem vindo, setembro!

Agosto (*) é um mês esquisito, um clima indefinido, indefinível... transição entre inverno e primavera, nem frio, nem quente, ou, ao mesmo tempo, frio e quente; seco, sempre seco; vento sobre vento. Frio de noite, calor de dia. Rajadas inesperadas sopram sobre as folhas das árvores. A secura das pastagens tornam o período terrível para o gado, que emagrece demais. Córregos secam. Queimadas por toda parte acinzentam os campos. Apenas o ipê de florada exuberante contraponteia a secura com seu colorido vivaz. 

O homem do campo roça, capina, faz coivaras; prepara a terra _ cavuca, ara, faz leras, covas de plantio _ mas não lança sementes, que não nasceriam no chão esturricado. 

Eis agosto. Natureza desfavorável à fartura, à criação. É agouro só...

Ninguém queima no dia dez de agosto. É a data de São Lourenço. O santo morreu tostado em martírio numa grelha. No seu dia a queimada ofende o santo e se torna descontrolada. Um pé de vento lança fagulhas no ar; redemoinhos inesperados lançam tição aceso além do aceiro, na mata e o fogo faz um estrago medonho. 

Em agosto o cão fica estranho, pega mais fácil a "raiva" (hidrofobia). É "mês de cachorro louco". Então se apega com Santa Quitéria que é a santa que previne essa virose terrível. As avós ensinavam que se em nossa direção viesse um cachorro em atitude agressiva tinha que se dizer com firmeza e rapidez: "São Roque! São Roque! São Roque!", assim, três vezes, que é número mágico, que garante efetividade. O bicho parava de repente e depois mudava de direção sem atacar o devoto. 

São Roque é festejado a 16 de agosto. Morreu novo, de peste negra. Sua imagem mostra um cachorro lambendo suas feridas. Pois bem. São Roque nos terreiros é sincretizado com Obaluaiê, o grande orixá que tem domínio sobre as doenças dermatológicas, forma jovem do orixá Sr. Omulu (o Velho), ambos, senhores dos exus. Portanto agosto é mês de exu. Nos terreiros, conforme a linha ou orientação espiritual, os médiuns cumprem obrigações, preceitos, fazem oferendas especialmente dedicadas a esses mensageiros universais. 

Nas igrejas e capelas poucas festas expressivas acontecem. No primeiro domingo é vez do Senhor do Bonfim, cujo dia oficial é 06 de agosto; no meio do mês é a vez do Trânsito de Nossa Senhora, uma festa litúrgica que envolve três título marianos: dia 14, Nossa Senhora da Boa Morte; dia 15, Nossa Senhora da Assunção e Nossa Senhora da Glória. O ensinamento catequético prega que Maria não teve uma morte comum como nós outros, mas uma forma especialíssima, chamada "dormição" e foi levada de corpo e alma aos céus em sua assunção e para glória foi coroada como rainha aos pés da Santíssima Trindade. Porém, dos três títulos, o mais marcante é o primeiro, que se excede em popularidade aos demais e chega a nomear a própria festa, "Festa da Boa Morte". 

Bom fim; boa morte. A morte santificada, como um prêmio ao comportamento cristão modelar, glorificação de uma vida santa. 

Via de regra as noivas não gostam de casar em agosto. Dá azar. Logo dana a brigar com o esposo e não tarda a separação. 

"Agosto é mês do desgosto". Então se reza, para que as coisas aconteçam "a gosto de Deus..." Muitas mortes acontecem, e não faltam referências a personalidades falecidas nesse tempo, o que só fortalece a fama de agosto. 

Não se tem certeza das razões dessa fama macabra. O oitavo mês do ano tem esse nome em homenagem ao Imperador Romano César Augusto. 

Agosto, o mês negativo, se despede. Os crédulos respiram aliviados. Setembro se aproxima e com ele a primavera, a regularização climática, a esperança de chuva, a fertilidade dos solos. As festas reiniciam. A vida é um ciclo, a cultura popular também, porquanto seja parte dessa vida. Os congadeiros se aprontam: vai começar a temporada de festejos em honra ao rosário! Salve, Maria!

Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo,
São João del-Rei, setembro/2016. 

(papel couché, 29,5 x 41,7cm)

Cartaz da Festa do Rosário no Bairro São Dimas,
São João del-Rei, setembro/2016.

(papel couché, 29,3 x 41,7cm)

Referências Bibliográficas

COSTA, Gutemberg. Agosto: mês de desgraça e desgosto. O Mossoroense, 30/08/1998, Mossoró. p.2. 

Notas e Créditos

* Agosto é também o Mês do Folclore, tendo no dia 22 sua data comemorativa, em memória a William John Thomms, o inglês que nos legou essa palavra e a base de seu conceito: folk-lore. Sobre este assunto ver:

FOLCLORE NOSSO DE CADA DIA

FOLCLORE, CULTURA POPULAR E PATRIMÔNIO IMATERIAL

** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Cobreiro... bicho mau!

"Cobrão" ou "cobreiro" é o nome popular de uma doença virótica que a ciência conhece por herpes-zóster, gerada pelo mesmo vírus causador da catapora, porém sob outra forma de manifestação. Contudo, CASCUDO [s.d.] afirmou acertadamente, que nos meios populares é o nome que se aplica a "qualquer dermatose zosteriforme". De fato, outras manifestações cutâneas, seja de natureza alérgica ou inflamatória, desde que manifestem semelhança física e de sintomas com o herpes-zóster, terminam batizadas ou classificadas na categoria cobreiro, como se verifica por exemplo, na região das Vertentes. Disse ainda o mesmo autor que é "expressão empregada em todo o Brasil, corresponde à velha palavra cobrelo" e ainda que "a origem portuguesa da terapêutica popular brasileira é evidente."

A área da pele afetada fica repleta de vesículas dolorosas, ardidas e de grande rubor. É uma doença que exige tratamento médico especializado e pode inclusive deixar sequelas significativas. Mas ao povo em geral a concepção corrente se pauta na crença que cobreiro se cura com reza e mais propriamente benzeção _ não qualquer uma, mas com as palavras e gestos específicos.

Mesmo em minha infância em São João del-Rei era acometido muitas vezes pelo tal do cobreiro. Ficava com a pele toda empolada. Então, minha mãe me recomendava às benzeções de Dona Arminda Rios, na Caieira, ou de Dona Maria Baixinha, na "Beira da Praia" (Rua Antônio Josino Andrade Reis, no Centro), ambas falecidas a muito tempo. E aqui as cito como registro de uma técnica imemorial e como manifesto admirado de gratidão pela sua fé e saber. Tantas vezes as vi fazendo em mim mesmo que gravei a fórmula e ao repeti-la, parece que as revejo, a trinta e cinco anos ou mais, idosas, concentradas no mister, com três pequenos talos (pecíolos) de mamoneiro à mão, dando-lhes incisões com uma faca:

"Cobreiro... bicho mau!
O que te corto? 
Te corto a cabeça (davam um talho), o meio do corpo (outro talho) e o rabo (mais um talho)...
Assim mesmo eu corto!"

Sempre diziam que era em louvor das três pessoas da Santíssima Trindade e balbuciavam a meia voz três ave-marias.

A operação se repetia três vezes com cada um dos três talos. E para completar devia se repetir do mesmo jeito por três dias. Antes de cada incisão, passavam a faquinha em cruz sobre o local do cobreiro como se o cortassem, no ar, sem tocar a pele para não machucar. Os talos iam para o sol a secar, ou para a beira de fogão à lenha. A ideia era: enquanto o talo de mamona (Ricinus communis L., euforbiaceae) desidratava, o cobreiro secava junto, curando.

Pois todos se admiravam e eu inclusive, porque no primeiro dia parava de coçar e arder; no segundo criava uma casca como se estivesse secando e no terceiro, só tinha um vestígio sem importância. Então diziam: "graças a Deus! Vou rezar o terceiro dia pra completar a simpatia mas precisão não tem mais..."

Bem mais tarde deparei com outra formulação no Bairro São Dimas(*):

"Tava andando por um caminho, com o Menino de Deus encontrei. 
_ Que tem, senhor?
_ Cobreiro!
_ Não há nada que cura?
_ Ramos verde, água do monte..."

Esta fórmula não é exclusividade nossa, digo, regional. Sílvio Romero (apud CASCUDO) publicou ainda nos oitocentos ("Cantos Populares do Brasil"): 

"Pedro, que tendes?
Senhor, cobreiro. 
Pedro, curai.
Senhor, com quê?
Água das fontes,
erva dos montes."

Na versão do Bairro São Dimas, além da curiosa fórmula dialogada, a benzedura se completava com uma ação: o benzedor devia molhar três ramos verdes de alecrim ou incenso de jurema em água corrente e com eles fazer um círculo na área afetada, rodeando por fora, como se o molhado cercasse a pele acometida. Então se fazia uma cruz sobre. Depois jogava o ramo para trás. O procedimento se repetia três vezes.

Em Santa Cruz de Minas, o querido e saudoso benzedor Sr. Silvério, na Terra Arada, não dispensava o uso do terço como objeto sagrado dessas benzeções, também salpicando água sobre o local doentio por meio de um raminho de arruda, e afirmava, em suas palavras: "Não sou eu que benzo; é São bento que benze!". São Bento, cumpre lembrar, é o grande e prestigiado protetor contra veneno de bicho, peçonha: cobra, aranha, escorpião, lacraia, marimbondo, taturana, abelha.

As formulações teimam em repetir o número três, garantia mágica de sucesso. É o que reza a crença. A tradicionalidade evoca o nome do apóstolo pescador, Simão Pedro, em diálogo com Jesus, que ensina a receita com elementos da natureza, água pura, ramo fresco, símbolo do alívio das dores, refrigério do queimor. A sacralidade das palavras em regime de benzedura é evidente e eloquente. 

Lembro ainda, que diziam as senhoras em São João del-Rei e mesmo na vizinha Santa Cruz de Minas, que o cobreiro tinha que ser cortado rápido com as preces devidas pois crescia circulando o corpo em vergões e se ao lastrar emendasse, isto é, unisse as duas metades do corpo em vermelhão, o sujeito morreria. Não dava mais tempo de benzer. Na verdade é uma velha crença. O herpes-zóster é unilateral: acompanhando a trajetória de um nervo, se interrompe na linha mediana do corpo. 

O nome cobreiro se deve à crendice popular de que é causado por cobra. Acreditam que se uma serpente passar sobre uma roupa jogada num canto ou quarando num gramado e a pessoa vestir aquela roupa, pega cobreiro. Outrossim, se o indivíduo deitar-se num lugar onde passou uma cobra também pegará cobreiro e ainda, se a serpente esbarrar diretamente na pessoa. 

Em Santa Cruz de Minas (**) soube de um detalhamento a mais: cobreiro se pega também de outros bichos: aranha, sapo e perereca _ tudo pela mesma forma de contágio. Cobreiro de aranha e de cobra é "seco", ou seja, as lesões apresentam aspecto de cascas. Coberto por crosta mais ou menos espessa, não liberam exsudato. Cobreiro de sapo e de perereca é "molhado", porque a pele fica úmida, drenando líquidos, "chorando água", conforme expressão coloquial. É uma alusão imaginária à vida terrestre ou aquática desses animais. Os cobreiros mais arredios à cura supõem serem provocados pelo sapo. Perereca ao pular sobre alguém em sua fuga espavorida, deixa um líquido, "xixi", dizem, por imaginá-lo urina, que acreditam transmite cobreiro de imediato.

É o que diz o povo. Daí as mães se zangarem com seus filhos que estão sempre brincando pelo mato, pois ora voltam com cobreiro, ora sapecados de taturana, empolados por aroeira, picado de formiga... mas não tem jeito, criança brinca com liberdade e alegria e sempre volta à natureza atraente. 


Referências na Internet

Herpes-zóster (Cobreiro). Site Drauzio. http://drauziovarella.com.br/envelhecimento/herpes-zoster-cobreiro-2/ (acesso em 25/08/2016, 20:33h)

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p. Verbete: cobreiro.

Notas e Créditos

* Informante: Luís Santana, 25/09/1998
** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1998
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Leia também: 

domingo, 21 de agosto de 2016

Brincadeiras infantis - parte 3: piques

Das muitas brincadeiras tradicionais das crianças, o pique é uma das mais interativas e queridas. Sua popularidade e variedades país afora são imensas. 

Uma definição interessante encontramos no site do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular: 

"Brincadeira que consiste basicamente em corridas e perseguições. De modo geral possui os seguintes componentes: o perseguidor, que corre atrás dos outros participantes, e o pique, que pode ser um objeto, um local, uma palavra ou um gesto, com a função de colocar os participantes a salvo da perseguição."

Pela forma como essa lúdica se desenvolve muito bem se poderia classificá-la como um jogo. GARCIA & MARQUES (1991, pp.29-33) expuseram boa coletânea de definições de "jogos" e classificando-os, esclareceram modalidades quanto ao uso de objetos, quanto à emissão vocal, quanto à ação e características principais. Esta última inclui "jogos de correr e pegar" e "jogos de esconder" (dentre outros), onde naturalmente, podemos ajustar o pique. 

Aqui nas Vertentes o pique é muito usual em várias localidades. Mas doravante descrevo tal como vi e brinquei inúmeras vezes em São João del-Rei na década de 1970, quando era efetivado sobretudo (mas não exclusivamente) por meninos. As regras não eram a bem da verdade rígidas e até mesmo mudavam em pequenos detalhes conforme a região. E muitos desses detalhes se perderam em minha memória... Contudo, lembro ainda, que brincávamos na Caieira (hoje Bairro São Judas Tadeu) de: 


- Pique-esconde: o mesmo que "esconde-esconde". Ao meu tempo de criança era o mais popular dos piques. A partir de um sorteio (*), a um dos brincantes cabia a função de "pegar" os outros, isto é, achá-los onde se escondessem. Dizia-se então: "o pique está com fulano...", referência ao "pegador". Definia-se o local do pique, uma referência qualquer _ um portão, mourão, árvore, parede, pedreira, etc. Ali era o pique, um ponto neutro. No pique o pegador virava-se de costas para os meninos, tampava os olhos e contava em voz a alta até ... tal número (20, 50, 10... a combinar). Contar rápido ou olhar a direção que os colegas fugiram para esconder era tido por trapaça e decorria muita reclamação, que acabava por anular aquela "queda" e recomeçava o processo. Queda é cada rodada completa do jogo. Durante a contagem, os meninos se escondiam: atrás de portas, debaixo de camas, dentro de armários; buracos, pedreiras, na sombra de um cupinzeiro, numa moita, qualquer lugar enfim, desde que dentro de um perímetro pré-definido e sob obrigação do pegador vasculhar. O silêncio era absoluto. Quando avistava um guri escondido, logo o pegador corria em disparada até o pique onde batia a mão e anunciava em alta voz: "um, dois, três... Henrique!" (João, Chico... seja qual fosse o nome do achado). E aquele que foi anunciado estava a partir de então fora da brincadeira e devia sair do esconderijo revelado. Se ele tivesse dúvidas se fora realmente encontrado devia chegar até o pegador e perguntar em protesto. Tendo a resposta, se conformava, ou tentava blefar, que não era ali que se escondera, por vezes, discutindo, mas a palavra do pegador sempre falava mais alto. Na sequência ia procurar os demais e assim com cada um, até achar todos. Se último estava num local muito difícil o pegador por vezes ia ao pique e gritava sua desistência. O moleque oculto se revelava então, sem dizer onde estava. E a brincadeira recomeçava mas o pegador não mudava, era o mesmo. Mas se achava a todos, havia novo sorteio para definir o novo pegador. Se quem já foi pegador participava ou não do novo sorteio era um detalhe de regra variável conforme a região.   

- Pique-lata: muito semelhante ao pique-esconde, porém no pique ficava uma lata que funcionava como mecanismo que permitia o recomeço do jogo. O pegador ao achar uma criança e correr ao pique anunciava o nome da mesma, batendo estrepitosamente a lata. A diferença maior residia no fato de que uma das crianças que se mantinha no esconderijo podia sorrateiramente sair dele, e esgueirando-se sem ser vista pelo pegador corria ao pique e batia na lata gritando o nome de um colega já achado, "salvo, fulano...", o que o conferia anistia. Com isto, o achado podia voltar a se esconder o que o fazia imediatamente, porque o pegador ao ouvir o rival batendo na lata corria ao pique. Se os via por aquelas imediações ainda, na suposição que não houve tempo para esconderem, bastava anunciar o nome de ambos para que os dois saíssem do jogo. Mas se os dois, salvo e salvador, se mantivessem no pique, estavam imunizados. O pegador chegava, os via ali e nada podia fazer. Tinha que se voltar de costas e contar de novo para dar tempo deles se esconderem. No mais, era como o pique-esconde.  

- Pique-pega: bem mais agitado, consistia numa imensa correria desordenada, caótica em verdade, do pegador atrás de um punhado de outras crianças participantes. Ninguém escondia. Ficava à vista e provocava o pegador a correr atrás delas, vaiando, gritando seu apelido, pondo alcunhas pejorativas inventadas na hora. O pegador corria daqui e dali. Pegar não era agarrar, embora acontecesse; bastava tocar a mão, a ponta dos dedos. Quem fosse pego, estava fora. Assim seguia, até pegar todos. Se o perseguido estava exausto ou percebia que o pegador corria mais que ele, fugia para o pique onde gritava: "Salvo!", resguardando-se. E permanecia em descanso por curto prazo e aguardava melhor oportunidade para voltar ao corre-corre. Outra fórmula de salvamento muito tradicional que havia era versejada, em declamação rápida: 

"Tô no pique, 
o pique é meu;
um, dois, três,
salve eu!"

- Pique-bandeira: modalidade de pique no qual o perseguido, driblando o perseguidor em correrias sem fim, se tornava imune a ser pego se alcançasse certo ramo ou galho arrancado e colocado num ponto específico (o "pique"). Bastava por a mão no ramo (chamado bandeira) e erguê-lo. Era o sinal da imunidade ou anistia. E o perseguidor tinha que correr atrás de outro guri. O alcançado não saía exatamente de jogo mas ficava parado onde fora alcançado, o que se dizia "congelado". A libertação do congelado se dava por invasão do time rival no campo oposto, tocando-lhe e gritando seu seu nome. Tudo muito rápido porque se fosse tocado ficava preso no campo inimigo. As crianças ficavam num campo  retangular dividido ao meio. Cada metade do campo ficava uma turma em igualdade de número e de cada lado existia um pegador que invadia o campo oposto para pegar as crianças opostas, sempre provocativas. Ao serem perseguidas, negaceavam, driblavam e só achavam porto seguro na bandeira do pique, sempre de seu respectivo lado, nunca do oposto. O time que pegasse a todos os opostos primeiro ganhava. Nova partida ou queda podia mesclar os participantes de ambos os times, compondo novas equipes. 

- Pique-vara: era o mais brutal e as mães sempre repreendiam os filhos por brincá-lo pois chegavam em casa com vergões na pele. Sorteava-se o pegador. Ele se virava de costas para fazer a contagem. Os demais brincantes rapidamente ia esconder uma pequena vara (geralmente de bambu ou de assa-peixe), pré-escolhida e desfolhada, verde e flexível, em lugar consensual que só o pegador não sabia. Finda a contagem, partia o pegador do pique, célere para procurar a vara. Os colegas o acompanhavam em proximidade dando dicas: "xiii... está gelado!" (muito longe da vara), "está frio!" (longe), "esquentando" (indo para a direção da vara), "quente" (próximo), "muito quente" (quase chegando ao esconderijo), "fervendo" (em cima do local), "ferveu!" (achou) e a molecada corria em disparada rumo ao pique, em ritmo de fuga desesperada porque o pegador, de posse da vara, perseguia os participantes dando-lhes varadas até chegarem ao pique, onde ficavam imunes e não podiam mais serem atingidos. Para imunidade deviam permanecer com a mão no pique. Provocadores tiravam a mão e faziam caretas, mostravam-lhe a língua, clamavam seu apelido, punham-lhe defeitos de lerdeza. E as varadas eram impiedosas, mas de imediato se refugiavam no pique. Não raro acabava em choro e briga. Choro pela dor; briga pelas provocações excessivas ou abuso do pegador se tentava por raiva descumprir a regra dar uma varada em quem estava no pique ou se batia com muita força. Uma variante idêntica substituía a vara por um pano molhado, que torciam em cordão para bater. 

Referências na Internet

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Pique (brincadeira). http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00001248.htm (acesso em 21/08/2016, 08:30h)  


Referências Bibliográficas

GARCIA, Rose Marie Reis, MARQUES, Lilian Argentina. Jogos e Passeios Infantis. Porto Alegre: Kuarup, 1991. 182p.

Notas e Créditos

* Sorteio: não é assunto previsto para esta postagem a descrição da forma de sorteio. Para tal pretende-se uma outra edição da série "Brincadeiras Infantis", dedicadas às fórmulas de escolha, em planejamento. Para consultar as edições anteriores clique nos links abaixo; 


** Texto: Ulisses Passarelli

domingo, 14 de agosto de 2016

Boi da cara preta, sapo-cururu, dorme neném... e outros acalantos

Acalanto ou cantiga de ninar é o nome que se dá a pequenas e simplórias canções, que por força da tradição, os adultos cantam baixo para acalmar os bebês, de forma propositalmente suave, doce e por vezes repetitiva, para induzir o sono.

Pais e mães, madrinhas e padrinhos, avós e tias zelosas, conservam o costume em cada família, a bem da verdade, no país inteiro. A modernidade dos costumes e o progresso tecnológico ainda não baniu de todo este hábito carinhoso. E não é exclusividade brasileira. Equivale do ponto de vista musical ao berceuse francês e o lullaby inglês, segundo Oneyda Alvarenga (*). Diz a autora que a palavra acalanto é erudita; a designação popular é cantiga de ninar, e ainda, que, “foi utilizada por extensão e pela primeira vez pelo compositor brasileiro Luciano Gallet”.

Renato Almeida (**) atribui a origem portuguesa de nossas cantilenas para criancinhas dormirem, dizendo-as ser “canção ingênua, sobre uma melodia muito simples (...) é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer.”

Cascudo, porém, dá pistas que além de Portugal nossos próprios indígenas também conheciam tais cantigas, ditas de macuru (berço). Tanto mais, existem em outras nações europeias: “kalebja polonesa, wiegenlied alemão, canción de cuña espanhola.” E fornece vasta bibliografia a respeito de sua existência no novo e velho mundos. Sobre a terminação de certos versos com som de vogais entoadas estendidas, propôs:

“Em quase todos os acalantos, o final adormecedor é uma sílaba que se canta com várias notas, á-á-á-á, ú-ú-ú-ú, o ru galaico, ainda popular nas cantigas de berço portuguesas. Creio que esse processo, de entonação primária, é uma reminiscência melismática, um índice oriental de sua origem, através da Península Ibérica.”

Obviamente que Minas Gerais como celeiro de tradições não desconheceria os acalantos, tal e qual a região das Vertentes. Resistindo aos anos ainda ouvimos em São João del-Rei:

“Dorme, neném,
Tutu já vem pegar,
Detrás do murundu,
Com pedaço de angu...”

Ou outro conhecidíssimo:

“Nãna, neném,
Que a cuca vem pegar!
Papai, foi pra roça,
Mamãe, foi passear.”

Ambos aludem a mitos daquilo que CASCUDO (1983) muito bem colocou como parte do “Ciclo da Angústia Infantil”. Tutu e cuca são seres místicos e míticos, monstros do imaginário popular invocados à guisa de assombro para pegar a criança que teima em não dormir, permanecendo nos brinquedos ou na pirraça, sobrepondo-se ao cansaço dos pais:

“Não o descrevem nem há a menor alusão a um detalhe físico. Sabe-se apenas que, à sua simples menção, as crianças fecham os olhos e procuram adormecer sob o império do medo. O Tutu vive nos lábios das amas de todo o Brasil. (...)  Tutu é uma corruptela da palavra quitutu, do idioma quimbundo ou angolês, significando papão, ogre. Correlatamente decorrem os sinônimos de temível, poderoso, assustador” (p.167)

O povo concebe mais de um tutu, porque os denomina especificamente... "tutu do mato", "zambeta" (ou cambeta, que significa coxo), "marambá": 

"Sai tutu-zambeta,
de cima do telhado,
deixa meu neném
dormir seu sono sossegado". 

"Vai-te embora, óh tutu,
óh, tutu-marambá,
senão o pai do menino
manda de matá!"

Já a cuca parece ser alteração do nome “coca”, monstro ancestral do imaginário ibérico, por vezes figurado como um dragão aterrorizante.

Outros acalantos célebres também correntes aqui seguem transcritos  tal como os são-joanenses o entoam:

“Sapo-cururu,
Na beira do rio,
Quando o sapo canta, ó maninha,
Diz que está com frio...

A mulher do sapo,
Também está lá dentro,
Fazendo redinha, ó maninha,
Para o casamento.

A mulher do sapo,
Foi quem me criou,
O marido dela, ó maninha,
Foi meu professor.”

Redinha, diminutivo de rede, parece antes artefato de tecido para se deitar, pendente entre dois suportes que propriamente a rede de pesca; ou ainda pode ser alteração de rendinha, renda, roupinha, peça do enxoval. É como se depreende pela alusão ao casamento.

Quem não ouviu...

“Boi, boi, boi,
Boi da cara preta,
Pega esse menino,
Que tem medo de careta!”

No norte mineiro, pelas bandas de Pirapora, ouvi em 1987 uma curiosa variante regional:

“Boi, boi, boi,
Boi da cara branca,
Pega esse menino,
Que tem medo de carranca!”

Certamente é uma referência às figuras de proa, as famosas carrancas entalhadas em madeira, figuras monstruosas de dentes pontiagudos e ameaçadores, instaladas na ponta das barcas do Rio São Francisco.

Meu avô materno cantou-me uma assaz interessante que dizia muito antiga, dos tempos do cativeiro, e que não encontrei em outras fontes:

“Dróme, dróme, Nhônhozinho!
Nhônhozin’ num qué drumi;
Nêgo véio tá cansado,
Nhônhozin’ num qué drumi...”

Registrado tal e qual sua pronúncia. O sentido refere a um escravo a quem foi dada a função de ninar o menino branco, filho do senhor: senhorzinho, sinhozinho, nhônhozinho.

Em Santa Cruz de Minas além das clássicas cantigas de ninar aqui já citadas correm estas:

“Nina, neném,
Do meu coração!
Lú-lú-lulú!
Lú-lú-lulú!”

“Quando eu era pequenina,
Nem sabia falar,
Minha mãe já me ensinava
Ao Deus do céu adorar.
Entre beijos e carícias
Ensinava o nome seu,
Ela dizia: é Papai do Céu!”

Bastante significativo é este acalanto informado pela mesma fonte de Santa Cruz:

“Passa, passa, manjerona,
Eu também queria ir.
Manjerona é mãe do sono,
Quem tem sono quer dormir.

Passa, passa, manjerona,
Eu também queria ir.
Tenho sono e não durmo,
Fico só pensando em ti.”

A manjerona é uma erva fina, rasteira, de folha miúda, muito cheirosa, da qual se faz um chá saboroso se adocicado, que a medicina popular atribui a propriedade de calmante e capaz de aliviar cólicas geradas por acúmulo de gases. As mães e avós costumam dar na mamadeira um pouco de manjerona aos pequeninos para favorecer o sono quando o choro se impõe e o ventre se mostra inchado (***). Daí a expressão “mãe do sono”.

Por outro lado, os indígenas tinham muito arraigado a noção de mãe, ci, uma mãe para cada coisa ou elemento da natureza. Esta concepção, na formação étnico-cultural passou ao povo brasileiro como parte de seu folclore. Aqui mesmo nas Vertentes, ouvimos falar em mãe da lua (personificada na figura do pássaro urutau), mãe da pedreira, mãe da cachoeira, mãe do corpo (endométrio, camada interna do útero). Será a manjerona uma personificação, ou melhor, materialização do conceito de “mãe do sono”, um ente simbolizado numa planta votiva?

Divagações à parte, encerra-se esta postagem ainda com as memórias avoengas de São João del-Rei, remetendo a uma antiga modinha melancólica, cuja autoria desconheço, e que no seu bojo se expressa claramente a uma cantiga de ninar:

“A vida é mesmo assim,
Eu bem sei, posso afirmar,
Ainda que resista dores
De não suportar.
A vida é mesmo assim,
Eu julgo por mim e pelo desdém.
Eu ainda bem me lembro
Quando eu era criancinha,
Deitado numa redinha,
Na sombrinha do sertão
E a minha mãezinha
Soluçava então
E a pobre da velhinha
Entoava esta canção:
Dorme, dorme, filhinho,
Meu anjinho inocente;
Dorme queridinho,
Que mamãe está contente.
Agora desprezada
Sem ninguém me querer bem
Eu vivo abandonada
Por este mundo além.
A vida é mesmo assim
Eu julgo por mim e pelo desdém."


Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro [s.d.]. 930p. Verbete: Acalanto.

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1983. 345p. p.167 e ss.

Notas e Créditos

In: “Comentários a alguns cantos e danças do Brasil”, Revista do Arquivo Municipal, n.80, p.209. Apud CASCUDO [s.d.].
** In: “História da Música Brasileira”, p.106. Apud CASCUDO [s.d.]
*** Como procedimento este blog não recomenda qualquer uso ou prática da chamada “medicina popular”, tais como ervas, raízes, cascas, sementes e outros. Apenas os registra pelo valor etnográfico.
Sobre os cuidados com a infância ver: FOLCLORE DO PARTO
**** Informantes principais: São João del-Rei – Aluísio dos Santos; Santa Cruz de Minas – Elvira Andrade de Salles. Aproximadamente 1995-6.
***** Texto: Ulisses Passarelli