Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campos da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri dois link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Cobreiro... bicho mau!

"Cobrão" ou "cobreiro" é o nome popular de uma doença virótica que a ciência conhece por herpes-zóster, gerada pelo mesmo vírus causador da catapora, porém sob outra forma de manifestação. Contudo, CASCUDO [s.d.] afirmou acertadamente, que nos meios populares é o nome que se aplica a "qualquer dermatose zosteriforme". De fato, outras manifestações cutâneas, seja de natureza alérgica ou inflamatória, desde que manifestem semelhança física e de sintomas com o herpes-zóster, terminam batizadas ou classificadas na categoria cobreiro, como se verifica por exemplo, na região das Vertentes. Disse ainda o mesmo autor que é "expressão empregada em todo o Brasil, corresponde à velha palavra cobrelo" e ainda que "a origem portuguesa da terapêutica popular brasileira é evidente."

A área da pele afetada fica repleta de vesículas dolorosas, ardidas e de grande rubor. É uma doença que exige tratamento médico especializado e pode inclusive deixar sequelas significativas. Mas ao povo em geral a concepção corrente se pauta na crença que cobreiro se cura com reza e mais propriamente benzeção _ não qualquer uma, mas com as palavras e gestos específicos.

Mesmo em minha infância em São João del-Rei era acometido muitas vezes pelo tal do cobreiro. Ficava com a pele toda empolada. Então, minha mãe me recomendava às benzeções de Dona Arminda Rios, na Caieira, ou de Dona Maria Baixinha, na "Beira da Praia" (Rua Antônio Josino Andrade Reis, no Centro), ambas falecidas a muito tempo. E aqui as cito como registro de uma técnica imemorial e como manifesto admirado de gratidão pela sua fé e saber. Tantas vezes as vi fazendo em mim mesmo que gravei a fórmula e ao repeti-la, parece que as revejo, a trinta e cinco anos ou mais, idosas, concentradas no mister, com três pequenos talos (pecíolos) de mamoneiro à mão, dando-lhes incisões com uma faca:

"Cobreiro... bicho mau!
O que te corto? 
Te corto a cabeça (davam um talho), o meio do corpo (outro talho) e o rabo (mais um talho)...
Assim mesmo eu corto!"

Sempre diziam que era em louvor das três pessoas da Santíssima Trindade e balbuciavam a meia voz três ave-marias.

A operação se repetia três vezes com cada um dos três talos. E para completar devia se repetir do mesmo jeito por três dias. Antes de cada incisão, passavam a faquinha em cruz sobre o local do cobreiro como se o cortassem, no ar, sem tocar a pele para não machucar. Os talos iam para o sol a secar, ou para a beira de fogão à lenha. A ideia era: enquanto o talo de mamona (Ricinus communis L., euforbiaceae) desidratava, o cobreiro secava junto, curando.

Pois todos se admiravam e eu inclusive, porque no primeiro dia parava de coçar e arder; no segundo criava uma casca como se estivesse secando e no terceiro, só tinha um vestígio sem importância. Então diziam: "graças a Deus! Vou rezar o terceiro dia pra completar a simpatia mas precisão não tem mais..."

Bem mais tarde deparei com outra formulação no Bairro São Dimas(*):

"Tava andando por um caminho, com o Menino de Deus encontrei. 
_ Que tem, senhor?
_ Cobreiro!
_ Não há nada que cura?
_ Ramos verde, água do monte..."

Esta fórmula não é exclusividade nossa, digo, regional. Sílvio Romero (apud CASCUDO) publicou ainda nos oitocentos ("Cantos Populares do Brasil"): 

"Pedro, que tendes?
Senhor, cobreiro. 
Pedro, curai.
Senhor, com quê?
Água das fontes,
erva dos montes."

Na versão do Bairro São Dimas, além da curiosa fórmula dialogada, a benzedura se completava com uma ação: o benzedor devia molhar três ramos verdes de alecrim ou incenso de jurema em água corrente e com eles fazer um círculo na área afetada, rodeando por fora, como se o molhado cercasse a pele acometida. Então se fazia uma cruz sobre. Depois jogava o ramo para trás. O procedimento se repetia três vezes.

Em Santa Cruz de Minas, o querido e saudoso benzedor Sr. Silvério, na Terra Arada, não dispensava o uso do terço como objeto sagrado dessas benzeções, também salpicando água sobre o local doentio por meio de um raminho de arruda, e afirmava, em suas palavras: "Não sou eu que benzo; é São bento que benze!". São Bento, cumpre lembrar, é o grande e prestigiado protetor contra veneno de bicho, peçonha: cobra, aranha, escorpião, lacraia, marimbondo, taturana, abelha.

As formulações teimam em repetir o número três, garantia mágica de sucesso. É o que reza a crença. A tradicionalidade evoca o nome do apóstolo pescador, Simão Pedro, em diálogo com Jesus, que ensina a receita com elementos da natureza, água pura, ramo fresco, símbolo do alívio das dores, refrigério do queimor. A sacralidade das palavras em regime de benzedura é evidente e eloquente. 

Lembro ainda, que diziam as senhoras em São João del-Rei e mesmo na vizinha Santa Cruz de Minas, que o cobreiro tinha que ser cortado rápido com as preces devidas pois crescia circulando o corpo em vergões e se ao lastrar emendasse, isto é, unisse as duas metades do corpo em vermelhão, o sujeito morreria. Não dava mais tempo de benzer. Na verdade é uma velha crença. O herpes-zóster é unilateral: acompanhando a trajetória de um nervo, se interrompe na linha mediana do corpo. 

O nome cobreiro se deve à crendice popular de que é causado por cobra. Acreditam que se uma serpente passar sobre uma roupa jogada num canto ou quarando num gramado e a pessoa vestir aquela roupa, pega cobreiro. Outrossim, se o indivíduo deitar-se num lugar onde passou uma cobra também pegará cobreiro e ainda, se a serpente esbarrar diretamente na pessoa. 

Em Santa Cruz de Minas (**) soube de um detalhamento a mais: cobreiro se pega também de outros bichos: aranha, sapo e perereca _ tudo pela mesma forma de contágio. Cobreiro de aranha e de cobra é "seco", ou seja, as lesões apresentam aspecto de cascas. Coberto por crosta mais ou menos espessa, não liberam exsudato. Cobreiro de sapo e de perereca é "molhado", porque a pele fica úmida, drenando líquidos, "chorando água", conforme expressão coloquial. É uma alusão imaginária à vida terrestre ou aquática desses animais. Os cobreiros mais arredios à cura supõem serem provocados pelo sapo. Perereca ao pular sobre alguém em sua fuga espavorida, deixa um líquido, "xixi", dizem, por imaginá-lo urina, que acreditam transmite cobreiro de imediato.

É o que diz o povo. Daí as mães se zangarem com seus filhos que estão sempre brincando pelo mato, pois ora voltam com cobreiro, ora sapecados de taturana, empolados por aroeira, picado de formiga... mas não tem jeito, criança brinca com liberdade e alegria e sempre volta à natureza atraente. 


Referências na Internet

Herpes-zóster (Cobreiro). Site Drauzio. http://drauziovarella.com.br/envelhecimento/herpes-zoster-cobreiro-2/ (acesso em 25/08/2016, 20:33h)

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p. Verbete: cobreiro.

Notas e Créditos

* Informante: Luís Santana, 25/09/1998
** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1998
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Leia também: 

domingo, 21 de agosto de 2016

Brincadeiras infantis - parte 3: piques

Das muitas brincadeiras tradicionais das crianças, o pique é uma das mais interativas e queridas. Sua popularidade e variedades país afora são imensas. 

Uma definição interessante encontramos no site do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular: 

"Brincadeira que consiste basicamente em corridas e perseguições. De modo geral possui os seguintes componentes: o perseguidor, que corre atrás dos outros participantes, e o pique, que pode ser um objeto, um local, uma palavra ou um gesto, com a função de colocar os participantes a salvo da perseguição."

Pela forma como essa lúdica se desenvolve muito bem se poderia classificá-la como um jogo. GARCIA & MARQUES (1991, pp.29-33) expuseram boa coletânea de definições de "jogos" e classificando-os, esclareceram modalidades quanto ao uso de objetos, quanto à emissão vocal, quanto à ação e características principais. Esta última inclui "jogos de correr e pegar" e "jogos de esconder" (dentre outros), onde naturalmente, podemos ajustar o pique. 

Aqui nas Vertentes o pique é muito usual em várias localidades. Mas doravante descrevo tal como vi e brinquei inúmeras vezes em São João del-Rei na década de 1970, quando era efetivado sobretudo (mas não exclusivamente) por meninos. As regras não eram a bem da verdade rígidas e até mesmo mudavam em pequenos detalhes conforme a região. E muitos desses detalhes se perderam em minha memória... Contudo, lembro ainda, que brincávamos na Caieira (hoje Bairro São Judas Tadeu) de: 


- Pique-esconde: o mesmo que "esconde-esconde". Ao meu tempo de criança era o mais popular dos piques. A partir de um sorteio (*), a um dos brincantes cabia a função de "pegar" os outros, isto é, achá-los onde se escondessem. Dizia-se então: "o pique está com fulano...", referência ao "pegador". Definia-se o local do pique, uma referência qualquer _ um portão, mourão, árvore, parede, pedreira, etc. Ali era o pique, um ponto neutro. No pique o pegador virava-se de costas para os meninos, tampava os olhos e contava em voz a alta até ... tal número (20, 50, 10... a combinar). Contar rápido ou olhar a direção que os colegas fugiram para esconder era tido por trapaça e decorria muita reclamação, que acabava por anular aquela "queda" e recomeçava o processo. Queda é cada rodada completa do jogo. Durante a contagem, os meninos se escondiam: atrás de portas, debaixo de camas, dentro de armários; buracos, pedreiras, na sombra de um cupinzeiro, numa moita, qualquer lugar enfim, desde que dentro de um perímetro pré-definido e sob obrigação do pegador vasculhar. O silêncio era absoluto. Quando avistava um guri escondido, logo o pegador corria em disparada até o pique onde batia a mão e anunciava em alta voz: "um, dois, três... Henrique!" (João, Chico... seja qual fosse o nome do achado). E aquele que foi anunciado estava a partir de então fora da brincadeira e devia sair do esconderijo revelado. Se ele tivesse dúvidas se fora realmente encontrado devia chegar até o pegador e perguntar em protesto. Tendo a resposta, se conformava, ou tentava blefar, que não era ali que se escondera, por vezes, discutindo, mas a palavra do pegador sempre falava mais alto. Na sequência ia procurar os demais e assim com cada um, até achar todos. Se último estava num local muito difícil o pegador por vezes ia ao pique e gritava sua desistência. O moleque oculto se revelava então, sem dizer onde estava. E a brincadeira recomeçava mas o pegador não mudava, era o mesmo. Mas se achava a todos, havia novo sorteio para definir o novo pegador. Se quem já foi pegador participava ou não do novo sorteio era um detalhe de regra variável conforme a região.   

- Pique-lata: muito semelhante ao pique-esconde, porém no pique ficava uma lata que funcionava como mecanismo que permitia o recomeço do jogo. O pegador ao achar uma criança e correr ao pique anunciava o nome da mesma, batendo estrepitosamente a lata. A diferença maior residia no fato de que uma das crianças que se mantinha no esconderijo podia sorrateiramente sair dele, e esgueirando-se sem ser vista pelo pegador corria ao pique e batia na lata gritando o nome de um colega já achado, "salvo, fulano...", o que o conferia anistia. Com isto, o achado podia voltar a se esconder o que o fazia imediatamente, porque o pegador ao ouvir o rival batendo na lata corria ao pique. Se os via por aquelas imediações ainda, na suposição que não houve tempo para esconderem, bastava anunciar o nome de ambos para que os dois saíssem do jogo. Mas se os dois, salvo e salvador, se mantivessem no pique, estavam imunizados. O pegador chegava, os via ali e nada podia fazer. Tinha que se voltar de costas e contar de novo para dar tempo deles se esconderem. No mais, era como o pique-esconde.  

- Pique-pega: bem mais agitado, consistia numa imensa correria desordenada, caótica em verdade, do pegador atrás de um punhado de outras crianças participantes. Ninguém escondia. Ficava à vista e provocava o pegador a correr atrás delas, vaiando, gritando seu apelido, pondo alcunhas pejorativas inventadas na hora. O pegador corria daqui e dali. Pegar não era agarrar, embora acontecesse; bastava tocar a mão, a ponta dos dedos. Quem fosse pego, estava fora. Assim seguia, até pegar todos. Se o perseguido estava exausto ou percebia que o pegador corria mais que ele, fugia para o pique onde gritava: "Salvo!", resguardando-se. E permanecia em descanso por curto prazo e aguardava melhor oportunidade para voltar ao corre-corre. Outra fórmula de salvamento muito tradicional que havia era versejada, em declamação rápida: 

"Tô no pique, 
o pique é meu;
um, dois, três,
salve eu!"

- Pique-bandeira: modalidade de pique no qual o perseguido, driblando o perseguidor em correrias sem fim, se tornava imune a ser pego se alcançasse certo ramo ou galho arrancado e colocado num ponto específico (o "pique"). Bastava por a mão no ramo (chamado bandeira) e erguê-lo. Era o sinal da imunidade ou anistia. E o perseguidor tinha que correr atrás de outro guri. O alcançado não saía exatamente de jogo mas ficava parado onde fora alcançado, o que se dizia "congelado". A libertação do congelado se dava por invasão do time rival no campo oposto, tocando-lhe e gritando seu seu nome. Tudo muito rápido porque se fosse tocado ficava preso no campo inimigo. As crianças ficavam num campo  retangular dividido ao meio. Cada metade do campo ficava uma turma em igualdade de número e de cada lado existia um pegador que invadia o campo oposto para pegar as crianças opostas, sempre provocativas. Ao serem perseguidas, negaceavam, driblavam e só achavam porto seguro na bandeira do pique, sempre de seu respectivo lado, nunca do oposto. O time que pegasse a todos os opostos primeiro ganhava. Nova partida ou queda podia mesclar os participantes de ambos os times, compondo novas equipes. 

- Pique-vara: era o mais brutal e as mães sempre repreendiam os filhos por brincá-lo pois chegavam em casa com vergões na pele. Sorteava-se o pegador. Ele se virava de costas para fazer a contagem. Os demais brincantes rapidamente ia esconder uma pequena vara (geralmente de bambu ou de assa-peixe), pré-escolhida e desfolhada, verde e flexível, em lugar consensual que só o pegador não sabia. Finda a contagem, partia o pegador do pique, célere para procurar a vara. Os colegas o acompanhavam em proximidade dando dicas: "xiii... está gelado!" (muito longe da vara), "está frio!" (longe), "esquentando" (indo para a direção da vara), "quente" (próximo), "muito quente" (quase chegando ao esconderijo), "fervendo" (em cima do local), "ferveu!" (achou) e a molecada corria em disparada rumo ao pique, em ritmo de fuga desesperada porque o pegador, de posse da vara, perseguia os participantes dando-lhes varadas até chegarem ao pique, onde ficavam imunes e não podiam mais serem atingidos. Para imunidade deviam permanecer com a mão no pique. Provocadores tiravam a mão e faziam caretas, mostravam-lhe a língua, clamavam seu apelido, punham-lhe defeitos de lerdeza. E as varadas eram impiedosas, mas de imediato se refugiavam no pique. Não raro acabava em choro e briga. Choro pela dor; briga pelas provocações excessivas ou abuso do pegador se tentava por raiva descumprir a regra dar uma varada em quem estava no pique ou se batia com muita força. Uma variante idêntica substituía a vara por um pano molhado, que torciam em cordão para bater. 

Referências na Internet

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Pique (brincadeira). http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00001248.htm (acesso em 21/08/2016, 08:30h)  


Referências Bibliográficas

GARCIA, Rose Marie Reis, MARQUES, Lilian Argentina. Jogos e Passeios Infantis. Porto Alegre: Kuarup, 1991. 182p.

Notas e Créditos

* Sorteio: não é assunto previsto para esta postagem a descrição da forma de sorteio. Para tal pretende-se uma outra edição da série "Brincadeiras Infantis", dedicadas às fórmulas de escolha, em planejamento. Para consultar as edições anteriores clique nos links abaixo; 


** Texto: Ulisses Passarelli

domingo, 14 de agosto de 2016

Boi da cara preta, sapo-cururu, dorme neném... e outros acalantos

Acalanto ou cantiga de ninar é o nome que se dá a pequenas e simplórias canções, que por força da tradição, os adultos cantam baixo para acalmar os bebês, de forma propositalmente suave, doce e por vezes repetitiva, para induzir o sono.

Pais e mães, madrinhas e padrinhos, avós e tias zelosas, conservam o costume em cada família, a bem da verdade, no país inteiro. A modernidade dos costumes e o progresso tecnológico ainda não baniu de todo este hábito carinhoso. E não é exclusividade brasileira. Equivale do ponto de vista musical ao berceuse francês e o lullaby inglês, segundo Oneyda Alvarenga (*). Diz a autora que a palavra acalanto é erudita; a designação popular é cantiga de ninar, e ainda, que, “foi utilizada por extensão e pela primeira vez pelo compositor brasileiro Luciano Gallet”.

Renato Almeida (**) atribui a origem portuguesa de nossas cantilenas para criancinhas dormirem, dizendo-as ser “canção ingênua, sobre uma melodia muito simples (...) é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer.”

Cascudo, porém, dá pistas que além de Portugal nossos próprios indígenas também conheciam tais cantigas, ditas de macuru (berço). Tanto mais, existem em outras nações europeias: “kalebja polonesa, wiegenlied alemão, canción de cuña espanhola.” E fornece vasta bibliografia a respeito de sua existência no novo e velho mundos. Sobre a terminação de certos versos com som de vogais entoadas estendidas, propôs:

“Em quase todos os acalantos, o final adormecedor é uma sílaba que se canta com várias notas, á-á-á-á, ú-ú-ú-ú, o ru galaico, ainda popular nas cantigas de berço portuguesas. Creio que esse processo, de entonação primária, é uma reminiscência melismática, um índice oriental de sua origem, através da Península Ibérica.”

Obviamente que Minas Gerais como celeiro de tradições não desconheceria os acalantos, tal e qual a região das Vertentes. Resistindo aos anos ainda ouvimos em São João del-Rei:

“Dorme, neném,
Tutu já vem pegar,
Detrás do murundu,
Com pedaço de angu...”

Ou outro conhecidíssimo:

“Nãna, neném,
Que a cuca vem pegar!
Papai, foi pra roça,
Mamãe, foi passear.”

Ambos aludem a mitos daquilo que CASCUDO (1983) muito bem colocou como parte do “Ciclo da Angústia Infantil”. Tutu e cuca são seres místicos e míticos, monstros do imaginário popular invocados à guisa de assombro para pegar a criança que teima em não dormir, permanecendo nos brinquedos ou na pirraça, sobrepondo-se ao cansaço dos pais:

“Não o descrevem nem há a menor alusão a um detalhe físico. Sabe-se apenas que, à sua simples menção, as crianças fecham os olhos e procuram adormecer sob o império do medo. O Tutu vive nos lábios das amas de todo o Brasil. (...)  Tutu é uma corruptela da palavra quitutu, do idioma quimbundo ou angolês, significando papão, ogre. Correlatamente decorrem os sinônimos de temível, poderoso, assustador” (p.167)

O povo concebe mais de um tutu, porque os denomina especificamente... "tutu do mato", "zambeta" (ou cambeta, que significa coxo), "marambá": 

"Sai tutu-zambeta,
de cima do telhado,
deixa meu neném
dormir seu sono sossegado". 

"Vai-te embora, óh tutu,
óh, tutu-marambá,
senão o pai do menino
manda de matá!"

Já a cuca parece ser alteração do nome “coca”, monstro ancestral do imaginário ibérico, por vezes figurado como um dragão aterrorizante.

Outros acalantos célebres também correntes aqui seguem transcritos  tal como os são-joanenses o entoam:

“Sapo-cururu,
Na beira do rio,
Quando o sapo canta, ó maninha,
Diz que está com frio...

A mulher do sapo,
Também está lá dentro,
Fazendo redinha, ó maninha,
Para o casamento.

A mulher do sapo,
Foi quem me criou,
O marido dela, ó maninha,
Foi meu professor.”

Redinha, diminutivo de rede, parece antes artefato de tecido para se deitar, pendente entre dois suportes que propriamente a rede de pesca; ou ainda pode ser alteração de rendinha, renda, roupinha, peça do enxoval. É como se depreende pela alusão ao casamento.

Quem não ouviu...

“Boi, boi, boi,
Boi da cara preta,
Pega esse menino,
Que tem medo de careta!”

No norte mineiro, pelas bandas de Pirapora, ouvi em 1987 uma curiosa variante regional:

“Boi, boi, boi,
Boi da cara branca,
Pega esse menino,
Que tem medo de carranca!”

Certamente é uma referência às figuras de proa, as famosas carrancas entalhadas em madeira, figuras monstruosas de dentes pontiagudos e ameaçadores, instaladas na ponta das barcas do Rio São Francisco.

Meu avô materno cantou-me uma assaz interessante que dizia muito antiga, dos tempos do cativeiro, e que não encontrei em outras fontes:

“Dróme, dróme, Nhônhozinho!
Nhônhozin’ num qué drumi;
Nêgo véio tá cansado,
Nhônhozin’ num qué drumi...”

Registrado tal e qual sua pronúncia. O sentido refere a um escravo a quem foi dada a função de ninar o menino branco, filho do senhor: senhorzinho, sinhozinho, nhônhozinho.

Em Santa Cruz de Minas além das clássicas cantigas de ninar aqui já citadas correm estas:

“Nina, neném,
Do meu coração!
Lú-lú-lulú!
Lú-lú-lulú!”

“Quando eu era pequenina,
Nem sabia falar,
Minha mãe já me ensinava
Ao Deus do céu adorar.
Entre beijos e carícias
Ensinava o nome seu,
Ela dizia: é Papai do Céu!”

Bastante significativo é este acalanto informado pela mesma fonte de Santa Cruz:

“Passa, passa, manjerona,
Eu também queria ir.
Manjerona é mãe do sono,
Quem tem sono quer dormir.

Passa, passa, manjerona,
Eu também queria ir.
Tenho sono e não durmo,
Fico só pensando em ti.”

A manjerona é uma erva fina, rasteira, de folha miúda, muito cheirosa, da qual se faz um chá saboroso se adocicado, que a medicina popular atribui a propriedade de calmante e capaz de aliviar cólicas geradas por acúmulo de gases. As mães e avós costumam dar na mamadeira um pouco de manjerona aos pequeninos para favorecer o sono quando o choro se impõe e o ventre se mostra inchado (***). Daí a expressão “mãe do sono”.

Por outro lado, os indígenas tinham muito arraigado a noção de mãe, ci, uma mãe para cada coisa ou elemento da natureza. Esta concepção, na formação étnico-cultural passou ao povo brasileiro como parte de seu folclore. Aqui mesmo nas Vertentes, ouvimos falar em mãe da lua (personificada na figura do pássaro urutau), mãe da pedreira, mãe da cachoeira, mãe do corpo (endométrio, camada interna do útero). Será a manjerona uma personificação, ou melhor, materialização do conceito de “mãe do sono”, um ente simbolizado numa planta votiva?

Divagações à parte, encerra-se esta postagem ainda com as memórias avoengas de São João del-Rei, remetendo a uma antiga modinha melancólica, cuja autoria desconheço, e que no seu bojo se expressa claramente a uma cantiga de ninar:

“A vida é mesmo assim,
Eu bem sei, posso afirmar,
Ainda que resista dores
De não suportar.
A vida é mesmo assim,
Eu julgo por mim e pelo desdém.
Eu ainda bem me lembro
Quando eu era criancinha,
Deitado numa redinha,
Na sombrinha do sertão
E a minha mãezinha
Soluçava então
E a pobre da velhinha
Entoava esta canção:
Dorme, dorme, filhinho,
Meu anjinho inocente;
Dorme queridinho,
Que mamãe está contente.
Agora desprezada
Sem ninguém me querer bem
Eu vivo abandonada
Por este mundo além.
A vida é mesmo assim
Eu julgo por mim e pelo desdém."


Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro [s.d.]. 930p. Verbete: Acalanto.

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1983. 345p. p.167 e ss.

Notas e Créditos

In: “Comentários a alguns cantos e danças do Brasil”, Revista do Arquivo Municipal, n.80, p.209. Apud CASCUDO [s.d.].
** In: “História da Música Brasileira”, p.106. Apud CASCUDO [s.d.]
*** Como procedimento este blog não recomenda qualquer uso ou prática da chamada “medicina popular”, tais como ervas, raízes, cascas, sementes e outros. Apenas os registra pelo valor etnográfico.
Sobre os cuidados com a infância ver: FOLCLORE DO PARTO
**** Informantes principais: São João del-Rei – Aluísio dos Santos; Santa Cruz de Minas – Elvira Andrade de Salles. Aproximadamente 1995-6.
***** Texto: Ulisses Passarelli

sábado, 6 de agosto de 2016

Quadrinhas de amor - parte 5

Dando seguimento à série de exposição da coletânea de trovinhas românticas, o blog apresenta mais uma postagem com cinquenta quadras populares. Até cerca de duas décadas ou pouco mais faziam parte do galanteio, escritas em cartas e bilhetes enviados aos pretendidos, numa época que não se dispunha de recursos eletrônicos como hoje, nem redes sociais e mecanismos de mensagem digital. As jovens colecionavam trovas anotadas em cadernos próprios, reserva para o uso na ocasião propícia. 

Nas outras edições desta temática, lincadas ao final desta postagem o leitor se depara com outras coletâneas de quadras e de informações complementares sobre este assunto. 


Sentadinha na graminha,
Da sua casa na minha
Molhadinha de sereno,
Tem vinte e cinco passadas;
Vou escrever uma cartinha
Se eu não te quisesse bem
Mandar pro meu moreno.
Não trazia elas contadas.


Esta carta vai te ver,
A folha da ... (bananeira, ameixeira, etc.)
Vou também te visitar;
De tão verde amarelou;
Como não posso ir
A boca desse menino,
Mando ela em meu lugar.
De tão doce açucarou.


Vai cartinha venturosa
Coqueiro tão alto
Por esse caminho sem fim,
Tá correndo ouro na ponta;
Vai ver se meu amor
Os olhos desse moreno
Ainda gosta de mim.
Tá correndo por minha conta.


Quando essa carta chegar
Encosta na parede
Em suas mãos de marfim
Que a parede larga pó;
Você olha no galho de flor
Encosta no meu peito,
Dá um suspiro pra mim.
Que eu sou firme a você só.


Pega aqui na minha mão
Não quero sua camisa
Vou te dar meu desengano;
Nem o seu botão do peito;
Peço a Deus que você seja
Quero só que você dê
Meu amor por muitos anos.
A sua mão direita.


Bota fogo na fundanga
Da roseira nasce a rosa,
Tira esse mal de mim;
Da rosa nasce o perfume;
Numa fumaça que sobe,
Do perfume nasce o amor,
Traz meu amor pra mim. [1]
Do amor nasce o ciúme.


Escrevi seu nome na areia,
Do céu quero a estrela,
A onda veio e apagou;
Da terra quero a flor,
Escrevi que te amo,
De você quero um beijo
Você veio e me beijou.
Dado com muito amor.


Esta noite eu tive um sonho,
Você disse que me amava,
Na praia do mar sereno,
Um dia tão gentil;
Sonhei que estava beijando,
Pena que aquele dia
Um lindo rosto moreno.
Era primeiro de abril. [2] 


Na folha da bananeira
Teu olhar me domina
Seu nome vou escrever
Teu rosto me deixa louca,
Se eu não for feliz contigo
Teus lábios me adormecem
Com outra não quero ser. [3]
Com um só beijo na boca.


Se você ama a Deus
Dos pássaros da mata
Que morreu por tanta gente,
O mais lindo é o beija-flor;
Porque não ama a mim
Da casa da minha sogra,
Que morro por ti somente.
O mais lindo é o meu amor.


Neste dia de festa
Desde que te conheci
Se quiseres ser feliz,
Começou meu sofrimento,
Me dê um beijo na testa
Pois seu rosto encantado
Ou debaixo do nariz.
Não me sai do pensamento.


Um dia você me deu o fora
O teu sorriso é lindo
Pensando que eu choraria,
Só me traz felicidade
Não choro por pai e mãe
Por viver longe de ti
Vou chorar por porcaria... [4]
Vivo sempre com saudade.


Brilham cinco estrelas no céu
Todo amor que morre
Brilham cinco rosas no jardim
Me deixa sem ar,
Brilham mais seus olhos
Todo amor que começa
Quando olham para mim.
Me ensina a respirar.


Deitado na cama
Amo e não sou amado,
Teu lindo nome escrevi
Quero e não sou querido,
Soletrando letra por letra
Mas um consolo tenho
Sorrindo adormeci.
Amo e não sou fingido.


Quando o céu da imensidade
Quando eu te amava
Cobre a tarde da beleza
Era a flor do meu canteiro.
Vê-se a imagem da saudade
Agora, que te odeio,
Sobre o altar da natureza. [5]
É o porco do meu chiqueiro...


Amo uma linda menina
Queria ser um cigarro
Que tanto me faz sofrer
Para seus lábios encontrar
Meu maior desejo
Mas como não sou
É nos braços dela viver.
Quero seus lábios beijar.


Felicidade, meu bem,
A paixão e a saudade
É tudo que agente sente,
São duas fiéis companheiras:
Quando gosta de alguém
A paixão dura pouco,
Que também gosta da gente.
A saudade, a vida inteira...


Sou jovem criança
Quem ama sofre calado
Que neste mundo apareço
Ocultando sua dor;
Amar e não ser amado
Não há silêncio mais lindo
Isto não mereço.
Que o silêncio do amor.


O cravo também se muda
Amo a rosa branca
Do jardim para o deserto
Que nasceu em teu jardim;
De longe também se ama
Amo tua mãe querida
Quem não se pode amar de perto.
Que criou você pra mim.


Meu caro beija-flor,
O sol prometeu à lua
Que mora na pedra oca:
Uma fita com dois laços,
Toda menina bonita
Eu prometo a você
Merece um beijo na boca.
Muitos beijos e abraços. [6]


Se o dia escurecer
O coração é ingrato,
E a tarde chover
Só faz aquilo que sente,
Lembre-se que são meus olhos
Faz agente gostar
Que choram por não te ver.
De quem não gosta da gente.


Eu não quero mais amar
O mundo não é dois mundos,
Pois faz a gente sofrer;
O céu não tem várias cores,
Pois aquele que a gente ama
Quem te deu um coração,
Nunca sabe agradecer.
Não pode ter dois amores.


Sei que você não me quer
Sua boca é pequena
Sei que você não me ama,
Tão pequena e singela
Mas quero que seja feliz
Eu não sei como cabe
Nos braços de quem te ama.
Tantos beijos dentro dela.


Da amizade ao amor,
O jasmim para ser gostoso
Do amor à saudade,
Tem que ser pesado,
Da saudade à tristeza
O beijo para ser gostoso
De quem ama de verdade.
Tem que ser demorado.


Sua boca é uma rosa
Quer saber meu nome,
Seu nariz é um botão,
Vá à noite no jardim.
Dentro dos teus olhos tem um laço
Meu nome está escrito,
Que prende meu coração.
Numa folha de jasmim.


Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Agradecimento especial: Cida Salles, pela cessão do caderno com anotações das quadras, colhidas em Santa Cruz de Minas entre 1994 e 1996. 
*** Veja também neste blog as outras postagens desta série clicando nos links abaixo: 

QUADRINHAS DE AMOR - parte 4




[1] - Fundanga: o mesmo fundenga, pólvora. Esta quadra nitidamente é uma referência a rituais de terreiro. Nalgumas casas de umbanda usa-se queimar pequena porção de pólvora, quase sempre polvilhada sobre um ponto de entidade riscado no chão, com o intuito de descarregar as energias mais pesadas e negativas que acompanham o consulente. Enquanto a fumaça da queima sobe, o sujeito da trova faz seu pedido.
[2] - Primeiro de abril: tradicionalmente conhecido por Dia da Mentira, quando se usa pregar peças, contar pequenas mentiras por divertimento, armar situações supostamente verdadeiras só por gracejo.
[3] - Esta quadra é um tanto mais rara por se referir a um desejo do homem, muito embora facilmente adaptável para uso feminino. Na imensa maioria o escrito parte da mulher.
[4] - Trova de amor do grupo dos desencantos, desilusões, relativamente numerosas. Algumas são chulas e sarcásticas, senão mesmo, ácidas. “Dar o fora” é rejeitar (expressão popular).
[5] - Rima incomum nas trovas populares: ABAB (rima alternada, cruzada ou entrelaçada) enquanto a imensa maioria adota o esquema ABCB (rima misturada). É visível a influência erudita na forma e no enunciado, absorvida na mesma funcionalidade.
[6] - A poesia popular romântica considera o sol e a lua namorados desencontrados... um surge no céu, outro se vai.