Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 19 de março de 2017

Grupo folclórico de Santana do Garambéu

Nesta postagem o blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta um vídeo que captura algumas cenas da participação do "Grupo Folclórico Santana do Garambéu-MG" (conforme inscrição em sua bandeira), na Festa do Divino em São João del-Rei, a 24 de maio de 2015. No adro do Santuário do Senhor  Bom Jesus de Matosinhos, que centra a realização deste grande jubileu no Domingo de Pentecostes, os congadeiros dançam, tocam e cantam ao seu modo expressando sua fé e louvores. 

Na primeira parte executam a coreografia de percussão de manguaras, sob a marcação rítmica de uma caixa e o tinido de guizos metálicos atados aos pés. É o chamado moçambique de vara ou moçambique bate-paus. Santana do Garambéu está bem na região de ocorrência desta modalidade de moçambique e vários municípios próximos também possuem suas guardas. 

A segunda parte mostra os mesmos dançantes tocando o "congado", já sem os guizos e os batidos de bastões; incrementados por mais instrumentos (acordeon, violão, pandeiros). A designação congado neste caso tem uma implicação mista, envolvendo principalmente características de congos e catupés. 

A guarda em apreço já esteve presente em outras ocasiões na Festa do Divino. Esteve também em uma Festa do Rosário em São Gonçalo do Amarante (distrito de São João del-Rei), ocasião que além do congado e do moçambique, também apresentaram a dança de São Gonçalo. 

Além do vídeo que arremata a postagem, segue um conjunto de fotografias do acervo do autor deste blog, que expõe vários momentos deste grupo tão relevante para a cultura regional, que merece apoio na sua conservação. 

Santana do Garambéu é município da Mesorregião Campo das Vertentes, Microrregião de São João del-Rei, segundo critérios do IBGE. 

Fotografia 1

Fotografia 2 

Fotografia 3. Fotografias 1 a 3: moçambique de Santana do Garambéu
a 31/05/1998 na Festa do Divino, no Largo de Matosinhos. 
Fotografia 4

Fotografia 5

Fotografia 6

Fotografia 7. Fotos 4 a 7: moçambique de Santana do Garambéu durante a Festa do Divino
em São João del-Rei, no Santuário de Matosinhos. 11/06/2011. 
Fotografia 8

Fotografia 9

Fotografia 10

Fotografia 11

Fotografia 12

Fotografia 13
 
Fotografia 14

Fotografia 15. Fotografias 8 a 15: moçambique e congado de
Santana do Garambéu durante a Festa do Rosário em São
Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), 08/10/2011. 
Fotografia 16

Fotografia 17

Fotografia 18

Fotografia 19. Fotografias 16 a 19: moçambique e congado de
Santana do Garambéu na Festa do Divino a 24/05/2015. 

Fotografia 20

Fotografia 21

Fotografia 22. Fotografias 20 a 22: Dança de São Gonçalo
pelos congadeiros de Santana do Garambéu, durante a
Festa do Rosário em São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei),
08/10/2011. 



Notas e Créditos

Texto, acervo e edição de vídeo: Ulisses Passarelli
Fotografias: 1 a 3, Ulisses Passarelli; 4 a 7 e 8 a 15, Maria Aparecida de Salles; 16 a 19 e 20 a 22, Iago C.S. Passarelli
Vídeo: Iago C.S. Passarelli

sábado, 11 de março de 2017

Chegada do Cortejo Imperial

Neste vídeo vemos alguns momentos da chegada do Cortejo Imperial da Festa do Divino em São João del-Rei, na Paróquia do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, quando vários congados escoltam o Imperador do Divino até a igreja para participar da missa solene de Pentecostes. 


Notas e Créditos

* Vídeo: Iago C.S. Passarelli, 15/05/2016
** Texto, acervo e edição: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 9 de março de 2017

O Rosário mandou chamar...

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES compartilha com a comunidade congadeira de São João del-Rei o mais sincero sentimento de pesar pelo recente falecimento de cinco congadeiros do município, somente neste ano de 2017. As famílias, parentes e amigos só nos resta manifestar as preces que buscam o conforto espiritual e o consolo por tão triste passagem.

Ontem, causou grande consternação a travessia para a eternidade do Capitão Moacir Santana, filho do também capitão de congado Luís Santana, que no Bairro São Dimas comandava o terno de catupé que fora fundado por seu pai, em 1958, sendo assim o mais antigo da zona urbana. 

Todas essas perdas deixaram em vários praticantes desta tradição além do sentimento específico da ausência humana e social destas pessoas queridas, também, a preocupação com o futuro dos grupos culturais, cuja renovação de participantes e sobretudo de lideranças tem se mostrado extremamente fraca. Enfim... é como diz em tom fatalístico o verso do canto congadeiro: "o rosário mandou chamar!" Sobre a sombra que se impõe ao futuro se oponha a luz do Rosário. É o que pedimos em prece. 

Capitão Moacir Santana, segurando o tamborim (ao centro), com alguns
congadeiros de seu terno, durante a Festa do Divino de Matosinhos. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 11/06/2011.


terça-feira, 7 de março de 2017

Brincadeiras infantis - parte 7: cantos interativos com adultos

No universo das brincadeiras infantis sobressai pelo inusitado um pequeno conjunto de fórmulas cantadas, que permitem com muita naturalidade a interação lúdica entre adultos e crianças. São cantilenas revestidas de ingenuidade, pueris, que por sua singeleza conectam o adulto ao mundo infantil, transportando-o ao seu imaginário. Elas facilitam (climatizam...) as brincadeiras com crianças menores e disso também os adultos se aproveitam, relembrando a infância perdida nas curvas do caminho da vida.

Não se restringem apenas ao canto alegre e desinteressado. A criança é tocada com gestos simples reproduzindo algo que a letra sugere. Para brincar com crianças bem pequenas, bebês ainda, é corriqueiro por exemplo: 

"Bate palminha,      BIS
que papai em vem!"

A mãe diante da pequenino, toma delicadamente suas mãozinhas e junto bate palmas no tempo da música, repetindo-se algumas vezes. Outra fórmula: 

"Bate, palminha, bate!
Palminha de São Tomé!
Pra quando papai vier..."

Outra brincadeira muito conhecida é com o neném ou criança pequena no colo, frente a frente, tomando-lhes as mãos. Gera movimentos alternados, à direita e à esquerda, ritmadamente, no tempo musical: 

"Serra, serra,
serrador!
Quantas tábuas
já serrou?
Já serrei
cinquenta e duas
com aquela
que quebrou!"

O movimento imita a dinâmica de vai-e-vem de uma serra. Ao pronunciar "quebrou" as duas mãos são liberadas para trás, simulando uma queda, que de fato não acontece, pois a criança continua amparada. 

A simulação da queda ou a queda de fato em cima de um colchonete, cama ou sofá acontece noutra brincadeira. Esta geralmente é feita com duas pessoas adultas, que frente se dão as mãos e as abaixam para que a criança sente sobre elas, como se os braços dos adultos fossem uma cadeira. Ao começar o canto imprimem um movimento ritmado de balanceio e ao pronunciar "chão" lançam a criança sobre o local fofo onde não se machucará:

"Cadeirinha de fom-fom,
vai jogar neném ... no ... chão!"

Uma das mais populares é a "Dona Aranha". O brinquedo consiste em o adulto com uma das mãos semi-abertas, através de movimentos dos dedos, imitar o andamento de uma aranha, como se estivesse subindo no corpo da criança. É comum que ela leve tão a sério na imaginação que demonstre medo ou repulsa, mas sempre gosta da brincadeira. Quando diz "subiu" a mão sobe; quando canta "derrubou", a mão cai; na parte que diz "sobe, sobe..." a mão (aranha) volta a subir até chegar ao pescoço ou axilas onde se transforma em cócegas, para o deleite da criança: 

"Dona aranha
subiu pela parede, 
veio a chuva forte
e a derrubou... 

Já passou a chuva
e o sol já vem surgindo
e a dona aranha
novamente vai subindo. (*)

Ela é teimosa
e desobediente,
sobe, sobe, sobe
e nunca está contente." 

Existem muitas maneiras ou fórmulas de interatividade lúdica entre crianças e adultos. Certamente que as que incluem cantos e gestos, senão mesmo danças em alguns casos, se revestem de um atrativo a mais pelo elemento cultural da música, mesmo que aparentemente simples. E a música sintoniza, estimula, desenvolve. 

Notas e Créditos

* A segunda quadra tem esta variação corrente na região:

"A chuva já passou
e o sol já vem saindo,
de novo dona aranha
a parede vai subindo."


** Texto: Ulisses Passarelli
*** Coletânea realizada em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas em 2002 e 2003. São difundidas em outros municípios da região e permanecem em uso. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sanfonas & sanfoneiros

Sanfona é no sentido mais amplo da palavra uma família de instrumentos musicais, que comporta pelo menos quatro modelos básicos: as sanfonas (propriamente ditas), os acordeons, as concertinas e os bandoneons. Sanfonas e acordeons se tocam junto ao peito, presos aos ombros por alças de couro; bandoneon e concertinas não tem essas alças, a não ser curta para as mãos e toca livremente junto ao tronco ou apoiando-se sobre a perna. Todos são aerofones de palhetas livres. O ar não se desloca pela força do sopro, mas sim movido por um fole preso a uma estrutura de caixa dupla, que contém todos os mecanismos. A forma da caixa varia com o instrumento. As notas musicais são executadas apertando-se botões e teclas. 

A origem remota é considerada no cheng chinês, instrumento datado de 2700 a.C. O conhecimento de seu mecanismo adentrou a Europa via Rússia no século XVIII e nos dizeres de HINDLEY (1981) "encorajou as experiências feitas com palhetas livres no início do século XIX". Na primeira metade dos oitocentos, inventores aplicaram o mecanismo a instrumentos como o harmônio (inventado pelo francês parisiense Alexandre François Debain, em 1840, diz o mesmo autor), à guisa de um órgão portátil, de sala, e a harmônica ou concertina, aperfeiçoada em 1830 por Sir Charles Wheatstone; tanto mais, o acordeão, invenção alemã de 1820, ainda segundo HINDLEY. Nos primeiros tempos tiveram um uso mais doméstico. A família das sanfonas foi popularíssima entre vários povos, notadamente alemães. Teve sua entrada no Brasil sobretudo pelas mãos de migrantes europeus a partir do século XIX. Mantidas em âmbito familiar, passando de pai para filho o aprendizado de oitiva, logo se expandiu e gozou de imensa popularidade, mais tarde favorecida pelo crescimento da malha ferroviária no país. A família das sanfonas deu impulso à música popular nacional, prestando-se de base a um sem número de manifestações folclóricas e à música popular, notadamente todas as vertentes do forró e algumas do sertanejo. Polcas, mazurcas, xaxados, quadrilhas, chamamés, rancheiras, baiões, calangos, rasta-pés, fandangos, bailes... em tudo a sanfona entrometeu, invadiu, impulsionou. Orquestrou-se com os instrumentos de corda e de marcação e assim mesclada deixou fortemente sua marca nas folias e congadas. Em várias partes do país, exímios músicos fazem as alegrias do povo com seu virtuosismo e não é à toa que daqui e dali há de costume festivais de sanfoneiros e orquestras de acordeon, sinais inequívocos da citada popularidade. Alguns artistas celebrizaram-se com este instrumento ao peito: Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Mário Zan, Caçulinha e tantos outros renomados. 
A sanfona (*) propriamente dita no Brasil tem botões dos dois lados da caixa, tendo 2, 4, 8 ou 12 baixos. É diatônica (produz um tom quando se abre o fole e outro diferente quando se fecha, apertando-se o mesmo botão). É a principal razão de sua dificuldade de execução. O músico que executa este instrumento é o sanfoneiro. 

O acordeon ou acordeão em geral possui teclas no local de botões, do lado onde se toca a melodia, por ser harmônico (produz o mesmo tom quando se abre o fecha o fole) e por possuir um total de 24 baixos para cima (24, 32, 36, 40, 48, 80, 120). Os botões estão apenas na função dos baixos ("baixaria"). O acordeon faz acompanhamento, harmonia e ritmo. O músico que executa este instrumento é o acordeonista. 

A caixa que sustenta o fole e o mecanismo do instrumento é retangular, tanto na sanfona quanto no acordeon. De ordinário é embelezada por pintura e acabamento, como por exemplo frisos prateados, quinas arredondadas, pequenos desenhos. 

A concertina é um instrumento musical da família da sanfona, de pequeno porte, conhecida Brasil afora ainda no século XIX e começo do seguinte, com uso nas atividades folclóricas mais diversas. O verbete correspondente do Caldas Aulete diz que tem “uma série de buracos que se tampam com os dedos e por onde saem os sons que se formam no interior da caixa pelo movimento de um fole e de palhetas correspondentes aos buracos” A melodia é imposta por botões como a sanfona. Mais tarde surgiram concertinas com botões dos dois lados, em substituição às aberturas. Sua característica mais marcante é a caixa poligonal de seis ou oito lados. A escala é diatônica. A concertina nunca teve a popularidade nacional das sanfonas e acordeons e por elas foi olvidada. Nos dias atuais não tem uso nos meios populares brasileiros, salvo, talvez, alguma eventual exceção regional. 

A família comporta ainda o bandoneon ou bandônio, este de caixa quadrangular, confundido no Brasil com a concertina e às vezes até chamado de concertina. Assim como ela, nunca alcançou no país o prestígio da sanfona, exceto em terras meridionais e capixabas. As dificuldades de execução devem ter contribuído para isto. Sua afinação é difícil e vários detalhes técnicos o diferenciam do acordeon. Ainda é usado, como por exemplo, entre grupos folclóricos de imigrantes europeus no Espírito Santo ou nos estados do sul, ou nos meios populares dessas regiões, onde chegou a estar presentes em ternos de Reis. O bandoneon difundiu-se no Uruguai e ficou célebre na Argentina, indispensável para o tango. 

Para a festividades folclóricas a sanfona de oito baixos é a mais conhecida ou pelo menos foi a que mais se afamou. No Rio Grande do Sul a chamam “gaita de foles” ou “gaita de ponto”. No Campo das Vertentes de Minas Gerais, sua alcunha é “cabeça de égua” ou no diminutivo, "cabecinha de égua"; no Nordeste do país, é a popular “pé de bode”. Era a preferida para as atividades folclóricas em geral. Sua imensa popularidade e renome se esparramou sobre toda a família de instrumentos e por extensão e genericamente, os acordeons são também chamados de sanfonas. Por conseguinte, nos meios populares habitualmente não se diz acordeonista; indistintamente os chamam "sanfoneiro" e neste texto esta palavra é usada em sentido amplo e popular. 

O acordeon assumiu nos meios populares as mesmas funções outrora exclusivas das sanfonas. Conquistou o espaço com rapidez por sua maior facilidade de execução e amplitude de recursos musicais. Uma expressão usual é chamar os acordeons de "sanfona pianada", referência popular à existência de teclas como as de um piano no lugar de botões para a harmonia. 

"Tocadô dessa sanfona,
toca certo na toada;
acompanho a vorta toda,
da sanfona pianada."
(Calango, Barbacena/MG, fevereiro/1996) 

Volta da sanfona ("vorta") é o interlúdio, trecho de execução solista do sanfoneiro entre as unidades do canto (refrão/estrofe ou solo/coro).

O sanfoneiro é uma figura indispensável nas folias de Reis, nas de São Sebastião, nas do Divino Espírito Santo, nos bailes de roça, quadrilhas juninas, nos calangos, nos congos e em muitos catupés. Por vezes até nos moçambiques aparecem, dando suporte melódico à execução das jombas. Sua formação, como já dito, é a do aprendizado informal. Normalmente o sanfoneiro popular não teve ensino regular de música. Viu o pai tocando, aprendeu umas posições com o avô, um acompanhamento com o tio, observou um colega tocando e imitou. Em casa, vez por outra pega a sanfona e senta no quintal, debaixo de uma árvore; no alpendre, nas horas de folga junto ao fogão à lenha. Assim vai treinando. Se familiariza com o instrumento. Aprende espontaneamente seus recursos. Em enquanto fazem assim, já um jovem curioso os observa e vai timidamente aprendendo também. Em estágio mais avançado começa a tocar em companhia de outros sanfoneiros e na prática aprimora e tem seus lapsos corrigidos. Em terceira fase ingressa nos folguedos populares e se torna de fato um "tocador". Aliás, este é o termo corriqueiro, consagrado:

"Tocadô dessa sanfona
tem os dedos de papel;
a sanfona tá tocando
parece um favo de mel!"
(Calango, Barbacena/MG, fevereiro/1996)

O sanfoneiro goza de um status significativo nesse meio. Mais que tocar, geralmente também domina o canto. É então o "cantador". O toque da sanfona gera uma música prestigiada na tradição brasileira ("parece um favo de mel..."). É respeitado e valorizado por festeiros, capitães de congado, mestres de folias. Sabem que precisam deles e disputa-se o bom sanfoneiro. São indivíduos muito importantes na manutenção da tradição, pois a conservam de memória _ o que é extraordinário _  e na prática sabem uma vasta gama de toadas, ritmos, melodias tradicionais, que são a base das danças e folguedos. Em especial nas folias é algo quase essencial, pois a sanfona é o instrumento por assim dizer regente, que conduz a essência melódica.

É preocupante aqui nas Vertentes a diminuição dos sanfoneiros. Já vemos folia saindo sem sanfoneiro, porque não há disponível; catupé sem sanfoneiro por que não tem quem possa ocupar a função. Poucos, muito poucos jovens surgem em alvorada neste cenário. Praticamente só se pode contar com os veteranos. Muito bem e que Deus lhes dê vida longa e saúde. Seu saber é notório. Seu papel, primordial. Mas e quando se forem? Aparecerão novos músicos para fechar a lacuna? Os tempos são outros...

"O verso que eu tô cantando,
tô tornando a repetir: 

Valha-me Nossa Senhora,
 Santo Antônio Livradô, 
fico triste, apaixonada
quando morre um cantadô..."
(Calango, Barbacena/MG, fevereiro/1996) 

Não é possível considerar a música popular brasileira no seu todo sem as sanfonas, pois esta família de instrumentos deixou um legado imensurável para a mesma. A cultura caipira também a absorveu e aclimatou ao seu universo extraordinário. Já por isto, muitas vezes, ao ouvir o toque de um fole, sua música nos remete a um sentimento a bem da verdade provinciano; nos conduz à saudade do campo, traz o desejo de dançar um baile num terreiro poeirento, de ouvir uma folia em distantes rincões. O ciclo das festas juninas, outrora só de junho, hoje expandido para julho e até meados de agosto, não se desliga das sanfonas. Estão presentes ao vivo ou no som mecânico; típicas... identificadoras. Em muitas regiões do país a sanfona ou que outro nome tenha, com teclas ou botões, com poucos ou muitos baixos, diatônica ou cromática... não importa _ chega a ser elemento identitário.

As fotografias a seguir, tomadas de forma aleatória do acervo, ilustram alguns destes músicos extraordinários, mas, simbolicamente, fica prestada a homenagem a todos os sanfoneiros da região que com grande dedicação e capacidade contribuem para a conservação de nossas tradições populares, parte desse gigantesco patrimônio imaterial edificado e mantido por nossa gente. 

1- Sanfoneiro tocando uma oitenta baixos no congo,
 São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG),
durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário naquela comunidade.13/10/2013.   

2- Sanfoneiro tocando uma oito baixos no congo,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG),
durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário naquela comunidade. 13/10/2013. 

3- Sanfoneiro com o acordeon no congo,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 
durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
na sede municipal. 19/05/2013.

4- Sanfoneiro com o acordeon no congo,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 
durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
na sede municipal. 19/05/2013.   

5- Sanfoneiros do congo de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG). 15/10/2014.  

6- Sanfoneiros à frente do catupé de Coronel Xavier Chaves/MG. 15/05/2016.
7- Sanfoneira no comando da Folia do Divino do Jardim São José,
Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG, durante a Festa do Espírito Santo nesta cidade.
23/05/2015.  

8- Sanfoneiro e folião da Folia do Divino da Rua São João,
Bairro Tijuco, São João del-Rei, durante a Festa do Espírito Santo nesta cidade.
23/05/2015
9- Sanfoneiro e folião da folia de Reis do Elvas,
Tiradentes/MG, durante visita a uma residência, enquanto cantava diante do presépio. 
30/12/2016. 
10- Detalhe dos elementos artísticos da sanfona mostrada na fotografia  2.
Referências bibliográficas

AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Delta, 1978.

FILGUEIRAS, Otto. Sanfona: fole de fôlego. Globo Rural, n.94, ag. / 1993.

HINDLEY, Geoffrey. Instrumentos Musicais. Melhoramentos: São Paulo, 1981. 155p.il. p.148-150. Coleção Prisma. 

Referências na Internet
(acesso em 01/03/2017, 10:20h)

Acordeão. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Acorde%C3%A3o 
Concertina. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Concertina
Bandoneón. In Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Bandone%C3%B3n
Gaita-ponto. In Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaita-ponto
Sanfona. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sanfona


Notas e Créditos

* Sanfona é o nome aplicado também a outro instrumento musical, porém cordofone, a viola de roda, como seu sinônimo o que pode gerar confusão. Sua popularidade está na Europa e não tem tradição no Brasil. 
**Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 5 - Ulisses Passarelli; demais fotografias - Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Passinhos da Paixão

Quem anda pelas cidades históricas mineiras vislumbra por vez nas ruas antigas, uma construção religiosa contígua ao casario, à guisa de uma capelinha. Em alguns lugares seu feitio é do tempo colonial, ou pelo menos de uma arquitetura que à primeira vista remeta ao estilo setecentista de edificações para uso do sagrado. Em outras localidades é mais recente e por vezes bem simples em sua composição artística.

Parecem igrejas em miniatura e são conhecidas pelos nomes de passo, passo da Paixão, capela-passo e passinho. Ao contrário das igrejas, ermidas e capelas, não tem um santo específico como orago ou padroeiro e em verdade em quase todas existe iconografia que remeta à devoção ao Senhor Bom Jesus dos Passos e a Nossa Senhora das Dores. Outra diferença básica é que por seu pequeno tamanho as celebrações se realizam externamente, diante do passo que permanece iluminado e com as portas abertas.

Sua construção acompanha as residências, por vezes parece incrustada nelas. Os passos antigos são pequenas jóias arquitetônicas com elementos artísticos entalhados em pedra, na base das colunas, portada, ornamentos, cruz do cúlmen; porta de madeira com tirantes de ferro, grandes ferrolhos, rebites. Por dentro, pequeníssimo espaço. O fiel não entra. Um retábulo (não raro entalhado e às vezes com douramento) conserva pequena imagem ou como é muito comum quadros pintados diretamente no madeirame de revestimento, além de telas; o espaço se completa com castiçais e jarras. É sempre profusamente florido nas ocasiões festivas, quando forram as bancadas com toalhas artísticas e o piso com tapetes. Em São João del-Rei e algumas cidades vizinhas é costume desfolhar o cheiroso rosmaninho sobre o piso e bancadas. Tanto mais, depositar no seu interior ramos aromáticos de arnica, manjericão e alecrim. 

A pintura interna repete temas comuns das igrejas, tais como anjos, florais e rocalhas. Contudo, detalhes específicos enriquecem eventualmente algum passo em particular. 

Os passinhos permanecem fechados quase o ano todo. Só abrem após o carnaval, pela quaresma, nos dias e horários próprios, conforme a programação religiosa de cada paróquia. Então é visitado pelo povo devoto, que diante dele para um instante para uma prece ligeira. Ali se persignam e admiram a arte religiosa. Especificamente o sentido dos passinhos é rememorar momentos marcantes da via-sacra de Jesus Cristo, quando levava a pesada cruz de arrasto pelas ruas de Jerusalém. Então, de maneira didática e porque não dizer catequética, cada passo em sequência pelas ruas e largos, mostra uma cena especial da Paixão do Messias.

Quando realizam as vias-sacras externas, partindo das igrejas, é diante dos passinhos que interrompem o cortejo com a cruz na dianteira, ladeada por lanternas de velas e fazem as paradas ou estações, com celebração de orações específicas, leituras contemplativas e música coral (por vezes orquestral).

Em Conceição da Barra de Minas, um dos pontos de parada da encomendação das almas é diante do passo, que contudo, permanece fechado durante o ritual. 

Em São João del-Rei é muito forte a tradição dos passinhos. Anualmente vemos a movimentação religiosa em torno deles durante as Comemorações dos Passos. São cinco: dois na Rua Direita (atual Getúlio Vargas), um na Padre José Maria Xavier, um no Largo das Mercês e outro no Largo da Cruz, todos no Centro Histórico (*). Como a tradição nesta área é a da prática de sete estações, as duas restantes, por falta de mais passinhos, se completam na Igreja de São Francisco de Assis e na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, extremos do solene deslocamento de fiéis. A construção dos passinhos são-joanenses se deu em data incerta, possivelmente em meados ou em pleno terceiro quartel do século XVIII. Nesta cidade as comemorações quaresmais dos Passos no Centro se devem aos esforços e coordenação da Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos (datada de 1733), que muito se esmera para o êxito de sua programação. Nas paróquias fora do Centro as vias-sacras não se apoiam em passinhos. 

A preservação dos passinhos é de extrema importância não apenas para em si assegurar sua função prática de estação de via-sacra. Além desta importância óbvia, o valor cultural e arquitetônico deles é evidente, como elemento identificador da vida religiosa da sociedade colonial. Destacam-se ainda, pela composição da paisagem urbana, inseridos que estão em pequenos espaços junto às casas históricas, com elas compondo um todo, digno de se perpetuar. 

1- No canto direito da fotografia um passinho junto a uma antiga residência
em São Sebastião da Vitória (São João del-Rei). Infelizmente nem o casarão nem
o passinho existem mais... Agosto/1999. 

2- Passinho em São Sebastião da Vitória (São João del-Rei). Agosto/1999. 

3- Passinho da cidade de Ibituruna, 30/06/2013. 

4- Devota em prece no passinho da antiga Rua da Prata
(atual Padre José Maria Xavier), no centro histórico de
São João del-Rei. 11/04/2014. 


5- Passinho próximo à Igreja do Rosário
em Coronel Xavier Chaves. 30/12/2014.

6- Recorte de fotografia evidenciando um passinho em
Entre Rios de Minas. 03/04/2016.  
7- Passinho na Rua Direita em Tiradentes e congadeiros saindo
da Igreja do Rosário. 17/07/2016.
8- Passinho. Prados. 16/10/2016.  
9- Passinho. Prados. 16/10/2016.

10- Passinho. Prados. 16/10/2016.

11- Passinho em Prados, junto a um magnífico casarão. 16/10/2016.
12- Passinho (esquerda da fotografia), ladeando um imponente casarão
em Conceição da Barra de Minas. 23/10/2016.



13- Preparação para uma via-sacra:
devota faz uma limpeza num passinho da Rua Direita.
São João del-Rei. 03/03/2017. 

14- Preparação para uma via sacra:
devotos ornamentam o passinho da Rua da Prata.
São João del-Rei. 03/03/2017. 

15- Passinho do Largo do Pelourinho.
São João del-Rei. 05/03/2017. 

16- Passinho da Rua da Prata (atual Padre José Maria Xavier).
São João del-Rei. 05/03/2017.



17- Outro passinho da Rua Direita (atual Getúlio Vargas).
São João del-Rei/MG. 05/03/2017.

18- Passinho da Rua Direita (atual Getúlio Vargas).
São João del-Rei/MG. 05/03/2017.


19- Passinho do Largo da Cruz.
São João del-Rei, 05/03/2017. 
Notas e Créditos

Chama a atenção em São João del-Rei uma sexta construção que à primeira vista parece ser mais um passinho:  é a Capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade, que comumente mantém aberta nas ocasiões solenes quaresmais e da Semana Santa. Não é uma capela-passo, embora pareça. Diante dela, periodicamente se celebravam missas voltadas aos presos da cadeia velha (hoje sedia o Museu de Arte Sacra), na Rua Getúlio Vargas, outrora Rua Direita. O padre e seus acólitos celebravam na entrada ou dentro dela mas não cabe outras pessoas. Detrás das grades da então cadeia fronteiriça os condenados assistiam à celebração. A cidade teve no passado outras capelas-oratório, ao longo dos anos demolidas. Quando em meados dos oitocentos a cadeia foi transferida para o térreo da nova Casa da Câmara (de 1849, hoje ocupada pela Prefeitura Municipal), a Capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade perdeu sua função primitiva. 
**Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 1, 2, 4, 6, 13-19 Ulisses Passarelli; 3, 5, 7, 8, 9, 10, 11, 12 Iago C.S. Passarelli