Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 14 de abril de 2017

Costumes populares na Paixão do Senhor

Nas cidades históricas existe uma atmosfera tão peculiar nesse dia que não há palavras que as defina. Além dos ritos sagrados da Igreja, das celebrações, muitos costumes populares se observam neste dia.

Aqui em São João del-Rei e arredores, uma antiquíssima tradição leva muitos à serra, madrugadinha, famílias inteiras, até o alto dos montes pedregosos, onde o reencontro com o Deus acontece. Desafoga-se o peito... preces, entretenimento, apreciação da natureza, colheita de ervas medicinais _ que valem para o ano inteiro, tidas por bentas. Diz a crença que a colheita de arnicas, rosmaninhos, alecrins, congonhas e outras deve ser antes do sol secar o orvalho das folhas, pois esta umidade consideram sagrada. Uma senhora dizia-me que é como o suor de Jesus Cristo... sagrado. Neste dia tudo é assim.

Nas roças não se vende leite na Sexta-feira Santa. Nos currais os retireiros esgotam as vacas e doam o leite às pessoas. É costume fazer doce com este leite. Em São João del-Rei, muitas pessoas saem do Tijuco e vão pelo caminho das Águas Gerais até o Cunha, Brumado de Baixo, Chapada e São Gonçalo do Amarante, do outro lado da Serra do Lenheiro buscar leite, bem cedo. 

Por força de uma prescrição inquebrantável não se deve trabalhar na busca do lucro. É dia de preceito. Mexer com ferramentas de carpintaria nem pensar... martelo? De jeito nenhum! Não se prega neste dia, não se imita o gesto ignóbil de pregar o Salvador.

Não xingar, não cuspir, não beber, não comer carne, não ouvir música por mero entretenimento, não assoviar nem cantarolar, não demonstrar alegria, não contar piadas, não caçar, não pescar, não jogar futebol, baralho ou qualquer outro jogo, etc... A tradição não recomenda. Não é tempo de mostrar alegria. Deve-se concentrar na memória da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nem os sinos batem. Só as matracas nas portas das velhas igrejas: "_ para a cera do Santo Sepulcro!" _ clamam os meninos quando recolhem um óbolo, matraqueando estrepitosamente.

Três da tarde é hora do máximo respeito, 15 horas, quando o Messias fechou os olhos. Nos quintais, fura-se um buraco pequeno no chão e se cospe três vezes dentro e enterra-se (os males...). Depois se bebe um copo de chá (de congonha, de erva-cidreira ou outra). 

Junto aos templos algumas pessoas vendem arnicas, congonhas e rosmaninhos. Outros mais, milho verde cozido, cartuchos de amêndoas, beijo quente e maçã do amor. Alimentos de valor cultural. 

Enquanto isto, outros tantos manipulam areias e serragens tingidas e preparam os típicos tapetes de rua que logo mais, à noite, receberá a Procissão do Enterro. Arte efêmera, de construção coletiva, criatividade pura, dinâmica e de baixo custo, sacralizando as vias públicas. 





Aspectos da confecção dos tapetes de rua. 

Jovens na entrada da Igreja de São Francisco com matracas recolhem
donativos anunciando a característica frase:
 "_ Para a cera do Santo Sepulcro!"


Comércio de arnica e outras plantas medicamentosas e aromáticas.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 14/04/2017, São João del-Rei

domingo, 9 de abril de 2017

Semana Santa: a Procissão de Ramos

Um domingo antes da Festa da Ressurreição é Ramos. Domingo de Ramos, hoje. Das igrejas o povo em procissão carrega ramos verdes louvando a Cristo. 

As raízes estão na Bíblia Sagrada. O Evangelho de Mateus narra no capítulo 21 (versículos 1-11) como foi triunfal a entrada de Jesus em Jerusalém perto da Páscoa, montado numa jumenta como previra o profeta. Disse o evangelista: "Então a multidão estendia os mantos pelo caminho, cortava ramos de árvores e espalhava-os pela estrada. E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia clamava; 'Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!"(*)

Em João, explicitamente, diz o evangelho: "Saíram eles ao seu encontro com ramos de palmas, exclamando: 'Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel!' "

A prática é extremamente difundida como festa litúrgica e assim um número incontável de capelas, igrejas, paróquias a executam: fieis acompanhando a imagem triunfal do Cristo ou a custódia; clero paramentado, canto entusiasmado de hinos, ramos acenando ao ar. Os próprios templos se ornam enramados neste dia. 

Sobre a antiguidade desta procissão servirá de testemunho o texto de Saint Hilaire, referindo-se à Procissão do Domingo de Ramos nas primeiras décadas do século XIX em Capitinga, próximo a Piunhi: 

"Encontrei muita gente que de lá voltava e levava grandes frondes de palmeira bentas. Estas verdadeiras palmas, em uso em todo o país lembram muito melhor a origem da festa do que os mesquinhos ramos de bucho ou loureiro que se distribuem nas nossas igrejas". (p.157)

Informou ainda que o bucho era distribuído nas igrejas do norte francês e o loureiro nas do sul da França. 

Estas festas em verdade tinham imenso valor no interior nacional. Ramos abre a Semana Santa, que culmina com a Festa da Páscoa. Disse o mesmo autor acerca das famílias rurais indo à missa: 

"No sertão, onde as fazendas são frequentemente bastante afastadas da paróquia, só os homens aí vão no decorrer do ano; mas nas duas grandes festas, Natal e Páscoa, a família inteira empreende a viagem; empilham-se as mulheres e crianças nos carros de boi; passam-se alguns dias na casa que se possui na vila, e, em seguida, volta-se à habitação." (p.165)

Pela mesma época, com pouca diferença, Debret também confirmava a popularidade da festa pascoal: 

"As festas de Natal e da Páscoa, sempre favorecidas no Brasil por um tempo magnífico, constituem épocas de divertimentos tanto mais generalizados quanto provocam mais de uma semana de interrupção no trabalho" (etc., p.144)

Essas palmas (Cycas), ramos de várias palmeiras (areca, aricanga, indaiá e outras), além de vegetais aromáticos (manjericão, rosmaninho, alecrim), usadas e abençoadas na procissão deste dia, o povo guarda em casa o ano todo crendo no seu poder de afugentar os males. Se é percebida uma presença estranha em casa, como um mal assombro, ou se uma forte tempestade ameaça estragos, basta queimar a palha benta de Ramos e sua fumaça, qual incenso sagrado, afugenta os malefícios. O poder desta palha vence no Domingo de Ramos do ano seguinte, quando ela deve ser substituída por outra. 







Fotografias 1 a 5 - Procissão de Ramos entre a Igreja de Nossa Senhora
do Rosário e a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei. 


Notas e Créditos

* Outros evangelhos também registraram esta passagem: Mc 11, 1-11; Lc 19, 29-40; Jo 12, 12-19
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 09/04/2017

Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965.

DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. 2.ed. São Paulo: Martins, 1972. v.3. 296p. Coleção Biblioteca Histórica Brasileira, n.2.

SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. 343p. v.1, 157. Coleção Brasiliana, série 5ª, v.68. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mascar fumo; cheirar rapé: outras formas de tabagismo

Além do hábito de fumar o tabagismo encontra outros desdobramentos menos comuns que costumam gerar curiosidade em muitos, por causa da estranheza que impõe: a prática de mascar fumo e de cheirar rapé, ambas em verdade caindo em ocaso ante a conscientização dos riscos à saúde que as campanhas veiculam e as próprias mudanças de costumes sociais. Ao uso do tabaco este blog dedicou uma postagem. (*)

No passado era comum, sobretudo nas áreas rurais, algumas pessoas carregarem consigo um pedaço (“lasca”) de fumo de rolo e dele cortarem uma pequena porção e lançarem-no à boca. Por longo tempo põe-se a mastigá-lo, lentamente. De tanto em tanto cospem um bocado de saliva saturada do caldo produzido. O hábito considerado repulsivo por muitos, aparenta origem indígena. Assim como o hábito de fumar, o de mascar também gera seu vício e os praticantes o fazem por muitos e muitos anos de sua vida. Estes garantem que traz benefícios aos dentes, afastando cáries, tanto mais ao intestino, por isentá-lo dos vermes. Portanto, sob este aspecto, é mais um remédio popular. A bem da verdade é um hábito em franco desaparecimento, que apenas sobrevive em lugares recônditos entre pessoas bastante idosas, conforme observação no Campo das Vertentes.

CASCUDO [s.d] dedicou um verbete ao assunto denotando sua origem tupi, difundida em formas e territórios diversos, mas apontou práticas semelhantes "pela Europa do norte, Inglaterra, Holanda". Fez sua aproximação desde a masca do fumo como outras folhas até nosso chiclete. Citando o relato de Antonil, atestou sua antiguidade entre nós: "homens há que parece não podem viver sem esse quinto elemento; cachimbando a qualquer hora em casa, e nos cachimbos, mascando as suas folhas, usando de torcidas, e enchendo os narizes deste pó." (in: Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas, 1711). 

Já o cheirar rapé ainda se encontra, na cidade e nas roças. Também rareou seu uso mas em relação ao marcar fumo é nitidamente mais usado. Rapé é basicamente tabaco torrado reduzido a pó. É acondicionado em pequeninas latas com tampa, para se trazer na algibeira, no bolso da calça, camisa ou paletó. Outrora, quando era um hábito muito arraigado, traziam-no também em pequenas bolsas de couro ou tecido de trama bem fechada, que chamavam “bocetas” (de bolseta, ou seja, pequena bolsa de guardar objetos, à semelhança de um porta-moedas ou porta-níquel).

O rapé se adquire pronto em tabacarias, mas onde as lojas especializadas em artigos para fumantes não existem, o consumidor produz o seu próprio. O modo artesanal é o seguinte: pica-se o fumo de rolo em pedaços bem pequenos, que são a seguir levados a uma frigideira não untada. Ao fogo o fumo deve ser mexido para não queimar. Deve ser torrado de maneira uniforme. Na sequência, o conteúdo da frigideira é despejado em superfície plana onde é moído por ação do movimento de vai-e-vem de uma garrafa deitada. A seguir o fumo já reduzido a pó é coado para remoção de grânulos maiores, que podem ser novamente submetido à moagem. A substância deve ser bem homogênea.

Cheira-se tomando um pequeno punhado entre a ponta dos dedos polegar e indicador e leva-se a uma narina, aspirando, depois igualmente na outra. Alguns usam tampar uma narina com um dedo enquanto se aspira com a outra. Cheiradores de rapé costumam compartilhar entre si provas de seu produto. Oferecem ao colega: “dá uma cheiradinha no meu rapé, compadre” ou “experimenta este rapé”. Faz parte, como um ritual de compartilhamento e muitos tem prazer nisto.

O rapé induz ao espirro. É muito comum que após cheirar o indivíduo se ponha a espirrar uma ou mais vezes; tanto mais, julga que é melhor o produto, pela qualidade do fumo empregado, mais forte ou mais fraco. Justamente ao espirro atribuem empiricamente o processo de limpeza corporal. Acreditam os usuários que o rapé desobstrui as vias respiratórias e contribui para expectoração.

São especialmente procurados os rapés que possuem acréscimo de certos pós adicionais, produzidos a partir de plantas de uso na medicina popular: umburana, cânfora, eucalipto. A estes dão maior valor como remédio, para combate a alergias respiratórias, rinite, sinusite. Eis a crença popular dos usuários. Para sinusite é especialmente procurado o rapé de girassol, que não leva tabaco. A semente do girassol deve ter a casca quebrada para extração do “miolo” (gérmen) e este é torrado e moído da mesma forma.

Nunca é demais afirmar que este blog não recomenda nenhuma destas práticas pelos efeitos maléficos que o tabaco gera sobre a saúde humana e o vício que produz. Não há comprovação científica da eficácia medicinal do hábito de fumar, mascar fumo ou cheirar rapé, tão pouco dosagem segura para uso. O registro nesta página é de natureza exclusivamente etnográfica, pelo valor folclórico que traz em si.

Um punhado de rapé na latinha e uma lasca de fumo de rolo.
São João del-Rei/MG, 03/04/2017. 

Notas e Créditos

* Leia a neste blog a respeito do fumo:
  FOLCLORE DO TABACO: as múltiplas faces do fumo na cultura popular

**Texto e fotografia: Ulisses Passarelli


Referência Bibliográfica

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

sábado, 1 de abril de 2017

Dia da Mentira: desordem e ruptura

Primeiro de abril é conhecido por "Dia da Mentira" desde longa data, conforme um costume de origem europeia, que os colonizadores do velho mundo nos trouxeram. Neste dia é bastante comum se contar mentiras, fazer pilhérias, pregar peças de puro motejo, sempre simulando ser o fato narrado uma verdade, mas realmente é uma inverdade. 

As crianças são especialmente adeptas das brincadeiras deste dia, aprontando troças com muito bom humor sobre colegas. Alguns mais espertos, já desconfiados pela data, descobrem a farsa e desmascaram o brincalhão; outros mais são vitimados e sob assuada dos colegas tem que aguentar a onda de zombaria que se abate sobre ele. 

Nas escolas dizem a um que a diretora o chama e logo volta da diretoria sob apupos; a outro, que teve nota baixíssima numa certa prova e põe crédito, mas logo descobre a trapalhada que lhe armaram e assim vai. 

Adultos também embarcam na brincadeira, sobretudo entre amigos próximos, colegas de trabalho, gente da mesma empresa. É o cônjuge que descobriu a existência de um amante, é o patrão de viu na câmera de segurança uma brincadeira indevida; é o inimigo que simula reaproximação; é o convite para uma festa que não existe... tudo mentira de primeiro de abril. Na cultura popular ela tem licença livre nesse dia e corre solta, sem punições, sem censuras. 

Ainda nos anos setenta em São João del-Rei, quando um moleque caía numa destas ciladas, logo os demais punham-se ao motejo cantarolando: "É primeiro de abril! Sua calça caiu e seu pai não viu!!!" Era a revelação da trama deixando ora envergonhada ora enfurecida a criança vitimada. 

Sobre a origem do Dia da Mentira explica o mestre folclorista Luís da Câmara Cascudo sua procedência europeia, francesa, posteriormente difundida com grande amplitude: 


"até a segunda metade do séc. XVI o dia primeiro de abril começava o ano. Abril, aperire, abrir. O Rei Carlos IX, por uma ordonnance do Roussillon, Dauphiné, em 1564, determinou que o primeiro de janeiro iniciasse o ano na França, daí por diante. Com as consequências da transferência de festas e solenidades do Ano-Novo, muita gente ficou perturbada com o desaparecimento das datas tradicionais, retardando entendimento e uso."


Logo, primeiro de abril ficou sendo o falso dia de ano-novo, motivo para presentes irreais e festas simuladas. O costume de brincar com o assunto permaneceu, perdida a motivação inicial. O primeiro de abril é a data que rompe com a ordem reinante, derruba momentaneamente a regra social da verdade, como se fosse um protesto contra ela.  


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro; Ediouro, [s.d.]. 930p. Verbete: Primeiro de Abril.

domingo, 26 de março de 2017

Procissão do Encontro

Quarto domingo da quaresma em São João del-Rei. A noite ecoam sinos nas torres históricas. De duas monumentais igrejas saem procissões que rumam ao Largo das Mercês (antigo Largo da Câmara) para se encontrarem: do São Francisco vem o andor do Senhor Bom Jesus dos Passos; do Carmo sai o andor de Nossa Senhora das Dores. 

A Banda Municipal Santa Cecília (fundada em 1968) acompanha uma das procissões; a Teodoro de Faria (fundada em 1902) acompanha a outra. De ponta a ponta do itinerário ouve-se a execução de tocantes marchas fúnebres. 

As duas procissões serpenteiam pelas antigas vias, acompanhadas por membros de diversos sodalícios religiosos, paramentados com suas opas e hábitos, portando varas de prata e lanternas luminosas. 

O Largo das Mercês lota de fiéis. Também surgem vendedores ambulantes para aproveitar a movimentação; seus produtos são os cartuchos de amêndoas, maçãs do amor, pipocas, algodões doces. 

A chegada de ambos cortejos religiosos é sempre muito concorrida e pomposa, bastante solene. Na tribuna sagrada o orador se esforça em enaltecer os valores religiosos daquele momento, sua base bíblica, o comportamento dos fiéis na quaresma. Concluído o sermão os dois cortejos se unem em um só e as imagens encontradas seguem juntas para a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, Bom Jesus à frente; Mãe Santíssima logo atrás. Nos dois passinhos (capelas-passo) do caminho a procissão para por instantes e a orquestra e coro assumem a parte musical. O aroma do incenso rescende no ar. No Pilar a procissão adentra e a cerimônia é coroada pelo Sermão do Calvário, com o pregador situado no púlpito. 

As festas de Passos caminham para a semana derradeira, "Semana das Dores", na qual a cada dia haverá a solene celebração do Setenário das Dores. 

Andor do Senhor dos Passos.

Andor da Senhora das Dores. 

Irmãos carmelitas com todo zelo e respeito conduzindo a imagem da Mãe Santíssima
sob a atenta escolta das lanternas dos irmãos mercedários. 

O pálio chega ao passinho do Largo da Cruz com membros da Irmandade do Senhor dos Passos. 

Passagem da Banda Teodoro de Faria diante da Igreja do Carmo.
  
Dobre do sino do Carmo.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 26/03/2017
*** Para mais informações sobre as comemorações dos Passos leia também neste blog:

PROCISSÃO DO DEPÓSITO

RASOURA DAS DORES

RASOURA DOS PASSOS

domingo, 19 de março de 2017

Grupo folclórico de Santana do Garambéu

Nesta postagem o blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta um vídeo que captura algumas cenas da participação do "Grupo Folclórico Santana do Garambéu-MG" (conforme inscrição em sua bandeira), na Festa do Divino em São João del-Rei, a 24 de maio de 2015. No adro do Santuário do Senhor  Bom Jesus de Matosinhos, que centra a realização deste grande jubileu no Domingo de Pentecostes, os congadeiros dançam, tocam e cantam ao seu modo expressando sua fé e louvores. 

Na primeira parte executam a coreografia de percussão de manguaras, sob a marcação rítmica de uma caixa e o tinido de guizos metálicos atados aos pés. É o chamado moçambique de vara ou moçambique bate-paus. Santana do Garambéu está bem na região de ocorrência desta modalidade de moçambique e vários municípios próximos também possuem suas guardas. 

A segunda parte mostra os mesmos dançantes tocando o "congado", já sem os guizos e os batidos de bastões; incrementados por mais instrumentos (acordeon, violão, pandeiros). A designação congado neste caso tem uma implicação mista, envolvendo principalmente características de congos e catupés. 

A guarda em apreço já esteve presente em outras ocasiões na Festa do Divino. Esteve também em uma Festa do Rosário em São Gonçalo do Amarante (distrito de São João del-Rei), ocasião que além do congado e do moçambique, também apresentaram a dança de São Gonçalo. 

Além do vídeo que arremata a postagem, segue um conjunto de fotografias do acervo do autor deste blog, que expõe vários momentos deste grupo tão relevante para a cultura regional, que merece apoio na sua conservação. 

Santana do Garambéu é município da Mesorregião Campo das Vertentes, Microrregião de São João del-Rei, segundo critérios do IBGE. 

Fotografia 1

Fotografia 2 

Fotografia 3. Fotografias 1 a 3: moçambique de Santana do Garambéu
a 31/05/1998 na Festa do Divino, no Largo de Matosinhos. 
Fotografia 4

Fotografia 5

Fotografia 6

Fotografia 7. Fotos 4 a 7: moçambique de Santana do Garambéu durante a Festa do Divino
em São João del-Rei, no Santuário de Matosinhos. 11/06/2011. 
Fotografia 8

Fotografia 9

Fotografia 10

Fotografia 11

Fotografia 12

Fotografia 13
 
Fotografia 14

Fotografia 15. Fotografias 8 a 15: moçambique e congado de
Santana do Garambéu durante a Festa do Rosário em São
Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), 08/10/2011. 
Fotografia 16

Fotografia 17

Fotografia 18

Fotografia 19. Fotografias 16 a 19: moçambique e congado de
Santana do Garambéu na Festa do Divino a 24/05/2015. 

Fotografia 20

Fotografia 21

Fotografia 22. Fotografias 20 a 22: Dança de São Gonçalo
pelos congadeiros de Santana do Garambéu, durante a
Festa do Rosário em São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei),
08/10/2011. 



Notas e Créditos

Texto, acervo e edição de vídeo: Ulisses Passarelli
Fotografias: 1 a 3, Ulisses Passarelli; 4 a 7 e 8 a 15, Maria Aparecida de Salles; 16 a 19 e 20 a 22, Iago C.S. Passarelli
Vídeo: Iago C.S. Passarelli

sábado, 11 de março de 2017

Chegada do Cortejo Imperial

Neste vídeo vemos alguns momentos da chegada do Cortejo Imperial da Festa do Divino em São João del-Rei, na Paróquia do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, quando vários congados escoltam o Imperador do Divino até a igreja para participar da missa solene de Pentecostes. 


Notas e Créditos

* Vídeo: Iago C.S. Passarelli, 15/05/2016
** Texto, acervo e edição: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 9 de março de 2017

O Rosário mandou chamar...

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES compartilha com a comunidade congadeira de São João del-Rei o mais sincero sentimento de pesar pelo recente falecimento de cinco congadeiros do município, somente neste ano de 2017. As famílias, parentes e amigos só nos resta manifestar as preces que buscam o conforto espiritual e o consolo por tão triste passagem.

Ontem, causou grande consternação a travessia para a eternidade do Capitão Moacir Santana, filho do também capitão de congado Luís Santana, que no Bairro São Dimas comandava o terno de catupé que fora fundado por seu pai, em 1958, sendo assim o mais antigo da zona urbana. 

Todas essas perdas deixaram em vários praticantes desta tradição além do sentimento específico da ausência humana e social destas pessoas queridas, também, a preocupação com o futuro dos grupos culturais, cuja renovação de participantes e sobretudo de lideranças tem se mostrado extremamente fraca. Enfim... é como diz em tom fatalístico o verso do canto congadeiro: "o rosário mandou chamar!" Sobre a sombra que se impõe ao futuro se oponha a luz do Rosário. É o que pedimos em prece. 

Capitão Moacir Santana, segurando o tamborim (ao centro), com alguns
congadeiros de seu terno, durante a Festa do Divino de Matosinhos. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 11/06/2011.


terça-feira, 7 de março de 2017

Brincadeiras infantis - parte 7: cantos interativos com adultos

No universo das brincadeiras infantis sobressai pelo inusitado um pequeno conjunto de fórmulas cantadas, que permitem com muita naturalidade a interação lúdica entre adultos e crianças. São cantilenas revestidas de ingenuidade, pueris, que por sua singeleza conectam o adulto ao mundo infantil, transportando-o ao seu imaginário. Elas facilitam (climatizam...) as brincadeiras com crianças menores e disso também os adultos se aproveitam, relembrando a infância perdida nas curvas do caminho da vida.

Não se restringem apenas ao canto alegre e desinteressado. A criança é tocada com gestos simples reproduzindo algo que a letra sugere. Para brincar com crianças bem pequenas, bebês ainda, é corriqueiro por exemplo: 

"Bate palminha,      BIS
que papai em vem!"

A mãe diante da pequenino, toma delicadamente suas mãozinhas e junto bate palmas no tempo da música, repetindo-se algumas vezes. Outra fórmula: 

"Bate, palminha, bate!
Palminha de São Tomé!
Pra quando papai vier..."

Outra brincadeira muito conhecida é com o neném ou criança pequena no colo, frente a frente, tomando-lhes as mãos. Gera movimentos alternados, à direita e à esquerda, ritmadamente, no tempo musical: 

"Serra, serra,
serrador!
Quantas tábuas
já serrou?
Já serrei
cinquenta e duas
com aquela
que quebrou!"

O movimento imita a dinâmica de vai-e-vem de uma serra. Ao pronunciar "quebrou" as duas mãos são liberadas para trás, simulando uma queda, que de fato não acontece, pois a criança continua amparada. 

A simulação da queda ou a queda de fato em cima de um colchonete, cama ou sofá acontece noutra brincadeira. Esta geralmente é feita com duas pessoas adultas, que frente se dão as mãos e as abaixam para que a criança sente sobre elas, como se os braços dos adultos fossem uma cadeira. Ao começar o canto imprimem um movimento ritmado de balanceio e ao pronunciar "chão" lançam a criança sobre o local fofo onde não se machucará:

"Cadeirinha de fom-fom,
vai jogar neném ... no ... chão!"

Uma das mais populares é a "Dona Aranha". O brinquedo consiste em o adulto com uma das mãos semi-abertas, através de movimentos dos dedos, imitar o andamento de uma aranha, como se estivesse subindo no corpo da criança. É comum que ela leve tão a sério na imaginação que demonstre medo ou repulsa, mas sempre gosta da brincadeira. Quando diz "subiu" a mão sobe; quando canta "derrubou", a mão cai; na parte que diz "sobe, sobe..." a mão (aranha) volta a subir até chegar ao pescoço ou axilas onde se transforma em cócegas, para o deleite da criança: 

"Dona aranha
subiu pela parede, 
veio a chuva forte
e a derrubou... 

Já passou a chuva
e o sol já vem surgindo
e a dona aranha
novamente vai subindo. (*)

Ela é teimosa
e desobediente,
sobe, sobe, sobe
e nunca está contente." 

Existem muitas maneiras ou fórmulas de interatividade lúdica entre crianças e adultos. Certamente que as que incluem cantos e gestos, senão mesmo danças em alguns casos, se revestem de um atrativo a mais pelo elemento cultural da música, mesmo que aparentemente simples. E a música sintoniza, estimula, desenvolve. 

Notas e Créditos

* A segunda quadra tem esta variação corrente na região:

"A chuva já passou
e o sol já vem saindo,
de novo dona aranha
a parede vai subindo."


** Texto: Ulisses Passarelli
*** Coletânea realizada em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas em 2002 e 2003. São difundidas em outros municípios da região e permanecem em uso. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sanfonas & sanfoneiros

Sanfona é no sentido mais amplo da palavra uma família de instrumentos musicais, que comporta pelo menos quatro modelos básicos: as sanfonas (propriamente ditas), os acordeons, as concertinas e os bandoneons. Sanfonas e acordeons se tocam junto ao peito, presos aos ombros por alças de couro; bandoneon e concertinas não tem essas alças, a não ser curta para as mãos e toca livremente junto ao tronco ou apoiando-se sobre a perna. Todos são aerofones de palhetas livres. O ar não se desloca pela força do sopro, mas sim movido por um fole preso a uma estrutura de caixa dupla, que contém todos os mecanismos. A forma da caixa varia com o instrumento. As notas musicais são executadas apertando-se botões e teclas. 

A origem remota é considerada no cheng chinês, instrumento datado de 2700 a.C. O conhecimento de seu mecanismo adentrou a Europa via Rússia no século XVIII e nos dizeres de HINDLEY (1981) "encorajou as experiências feitas com palhetas livres no início do século XIX". Na primeira metade dos oitocentos, inventores aplicaram o mecanismo a instrumentos como o harmônio (inventado pelo francês parisiense Alexandre François Debain, em 1840, diz o mesmo autor), à guisa de um órgão portátil, de sala, e a harmônica ou concertina, aperfeiçoada em 1830 por Sir Charles Wheatstone; tanto mais, o acordeão, invenção alemã de 1820, ainda segundo HINDLEY. Nos primeiros tempos tiveram um uso mais doméstico. A família das sanfonas foi popularíssima entre vários povos, notadamente alemães. Teve sua entrada no Brasil sobretudo pelas mãos de migrantes europeus a partir do século XIX. Mantidas em âmbito familiar, passando de pai para filho o aprendizado de oitiva, logo se expandiu e gozou de imensa popularidade, mais tarde favorecida pelo crescimento da malha ferroviária no país. A família das sanfonas deu impulso à música popular nacional, prestando-se de base a um sem número de manifestações folclóricas e à música popular, notadamente todas as vertentes do forró e algumas do sertanejo. Polcas, mazurcas, xaxados, quadrilhas, chamamés, rancheiras, baiões, calangos, rasta-pés, fandangos, bailes... em tudo a sanfona entrometeu, invadiu, impulsionou. Orquestrou-se com os instrumentos de corda e de marcação e assim mesclada deixou fortemente sua marca nas folias e congadas. Em várias partes do país, exímios músicos fazem as alegrias do povo com seu virtuosismo e não é à toa que daqui e dali há de costume festivais de sanfoneiros e orquestras de acordeon, sinais inequívocos da citada popularidade. Alguns artistas celebrizaram-se com este instrumento ao peito: Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Mário Zan, Caçulinha e tantos outros renomados. 
A sanfona (*) propriamente dita no Brasil tem botões dos dois lados da caixa, tendo 2, 4, 8 ou 12 baixos. É diatônica (produz um tom quando se abre o fole e outro diferente quando se fecha, apertando-se o mesmo botão). É a principal razão de sua dificuldade de execução. O músico que executa este instrumento é o sanfoneiro. 

O acordeon ou acordeão em geral possui teclas no local de botões, do lado onde se toca a melodia, por ser harmônico (produz o mesmo tom quando se abre o fecha o fole) e por possuir um total de 24 baixos para cima (24, 32, 36, 40, 48, 80, 120). Os botões estão apenas na função dos baixos ("baixaria"). O acordeon faz acompanhamento, harmonia e ritmo. O músico que executa este instrumento é o acordeonista. 

A caixa que sustenta o fole e o mecanismo do instrumento é retangular, tanto na sanfona quanto no acordeon. De ordinário é embelezada por pintura e acabamento, como por exemplo frisos prateados, quinas arredondadas, pequenos desenhos. 

A concertina é um instrumento musical da família da sanfona, de pequeno porte, conhecida Brasil afora ainda no século XIX e começo do seguinte, com uso nas atividades folclóricas mais diversas. O verbete correspondente do Caldas Aulete diz que tem “uma série de buracos que se tampam com os dedos e por onde saem os sons que se formam no interior da caixa pelo movimento de um fole e de palhetas correspondentes aos buracos” A melodia é imposta por botões como a sanfona. Mais tarde surgiram concertinas com botões dos dois lados, em substituição às aberturas. Sua característica mais marcante é a caixa poligonal de seis ou oito lados. A escala é diatônica. A concertina nunca teve a popularidade nacional das sanfonas e acordeons e por elas foi olvidada. Nos dias atuais não tem uso nos meios populares brasileiros, salvo, talvez, alguma eventual exceção regional. 

A família comporta ainda o bandoneon ou bandônio, este de caixa quadrangular, confundido no Brasil com a concertina e às vezes até chamado de concertina. Assim como ela, nunca alcançou no país o prestígio da sanfona, exceto em terras meridionais e capixabas. As dificuldades de execução devem ter contribuído para isto. Sua afinação é difícil e vários detalhes técnicos o diferenciam do acordeon. Ainda é usado, como por exemplo, entre grupos folclóricos de imigrantes europeus no Espírito Santo ou nos estados do sul, ou nos meios populares dessas regiões, onde chegou a estar presentes em ternos de Reis. O bandoneon difundiu-se no Uruguai e ficou célebre na Argentina, indispensável para o tango. 

Para a festividades folclóricas a sanfona de oito baixos é a mais conhecida ou pelo menos foi a que mais se afamou. No Rio Grande do Sul a chamam “gaita de foles” ou “gaita de ponto”. No Campo das Vertentes de Minas Gerais, sua alcunha é “cabeça de égua” ou no diminutivo, "cabecinha de égua"; no Nordeste do país, é a popular “pé de bode”. Era a preferida para as atividades folclóricas em geral. Sua imensa popularidade e renome se esparramou sobre toda a família de instrumentos e por extensão e genericamente, os acordeons são também chamados de sanfonas. Por conseguinte, nos meios populares habitualmente não se diz acordeonista; indistintamente os chamam "sanfoneiro" e neste texto esta palavra é usada em sentido amplo e popular. 

O acordeon assumiu nos meios populares as mesmas funções outrora exclusivas das sanfonas. Conquistou o espaço com rapidez por sua maior facilidade de execução e amplitude de recursos musicais. Uma expressão usual é chamar os acordeons de "sanfona pianada", referência popular à existência de teclas como as de um piano no lugar de botões para a harmonia. 

"Tocadô dessa sanfona,
toca certo na toada;
acompanho a vorta toda,
da sanfona pianada."
(Calango, Barbacena/MG, fevereiro/1996) 

Volta da sanfona ("vorta") é o interlúdio, trecho de execução solista do sanfoneiro entre as unidades do canto (refrão/estrofe ou solo/coro).

O sanfoneiro é uma figura indispensável nas folias de Reis, nas de São Sebastião, nas do Divino Espírito Santo, nos bailes de roça, quadrilhas juninas, nos calangos, nos congos e em muitos catupés. Por vezes até nos moçambiques aparecem, dando suporte melódico à execução das jombas. Sua formação, como já dito, é a do aprendizado informal. Normalmente o sanfoneiro popular não teve ensino regular de música. Viu o pai tocando, aprendeu umas posições com o avô, um acompanhamento com o tio, observou um colega tocando e imitou. Em casa, vez por outra pega a sanfona e senta no quintal, debaixo de uma árvore; no alpendre, nas horas de folga junto ao fogão à lenha. Assim vai treinando. Se familiariza com o instrumento. Aprende espontaneamente seus recursos. Em enquanto fazem assim, já um jovem curioso os observa e vai timidamente aprendendo também. Em estágio mais avançado começa a tocar em companhia de outros sanfoneiros e na prática aprimora e tem seus lapsos corrigidos. Em terceira fase ingressa nos folguedos populares e se torna de fato um "tocador". Aliás, este é o termo corriqueiro, consagrado:

"Tocadô dessa sanfona
tem os dedos de papel;
a sanfona tá tocando
parece um favo de mel!"
(Calango, Barbacena/MG, fevereiro/1996)

O sanfoneiro goza de um status significativo nesse meio. Mais que tocar, geralmente também domina o canto. É então o "cantador". O toque da sanfona gera uma música prestigiada na tradição brasileira ("parece um favo de mel..."). É respeitado e valorizado por festeiros, capitães de congado, mestres de folias. Sabem que precisam deles e disputa-se o bom sanfoneiro. São indivíduos muito importantes na manutenção da tradição, pois a conservam de memória _ o que é extraordinário _  e na prática sabem uma vasta gama de toadas, ritmos, melodias tradicionais, que são a base das danças e folguedos. Em especial nas folias é algo quase essencial, pois a sanfona é o instrumento por assim dizer regente, que conduz a essência melódica.

É preocupante aqui nas Vertentes a diminuição dos sanfoneiros. Já vemos folia saindo sem sanfoneiro, porque não há disponível; catupé sem sanfoneiro por que não tem quem possa ocupar a função. Poucos, muito poucos jovens surgem em alvorada neste cenário. Praticamente só se pode contar com os veteranos. Muito bem e que Deus lhes dê vida longa e saúde. Seu saber é notório. Seu papel, primordial. Mas e quando se forem? Aparecerão novos músicos para fechar a lacuna? Os tempos são outros...

"O verso que eu tô cantando,
tô tornando a repetir: 

Valha-me Nossa Senhora,
 Santo Antônio Livradô, 
fico triste, apaixonada
quando morre um cantadô..."
(Calango, Barbacena/MG, fevereiro/1996) 

Não é possível considerar a música popular brasileira no seu todo sem as sanfonas, pois esta família de instrumentos deixou um legado imensurável para a mesma. A cultura caipira também a absorveu e aclimatou ao seu universo extraordinário. Já por isto, muitas vezes, ao ouvir o toque de um fole, sua música nos remete a um sentimento a bem da verdade provinciano; nos conduz à saudade do campo, traz o desejo de dançar um baile num terreiro poeirento, de ouvir uma folia em distantes rincões. O ciclo das festas juninas, outrora só de junho, hoje expandido para julho e até meados de agosto, não se desliga das sanfonas. Estão presentes ao vivo ou no som mecânico; típicas... identificadoras. Em muitas regiões do país a sanfona ou que outro nome tenha, com teclas ou botões, com poucos ou muitos baixos, diatônica ou cromática... não importa _ chega a ser elemento identitário.

As fotografias a seguir, tomadas de forma aleatória do acervo, ilustram alguns destes músicos extraordinários, mas, simbolicamente, fica prestada a homenagem a todos os sanfoneiros da região que com grande dedicação e capacidade contribuem para a conservação de nossas tradições populares, parte desse gigantesco patrimônio imaterial edificado e mantido por nossa gente. 

1- Sanfoneiro tocando uma oitenta baixos no congo,
 São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG),
durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário naquela comunidade.13/10/2013.   

2- Sanfoneiro tocando uma oito baixos no congo,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG),
durante a Festa de Nossa Senhora do Rosário naquela comunidade. 13/10/2013. 

3- Sanfoneiro com o acordeon no congo,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 
durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
na sede municipal. 19/05/2013.

4- Sanfoneiro com o acordeon no congo,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 
durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
na sede municipal. 19/05/2013.   

5- Sanfoneiros do congo de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG). 15/10/2014.  

6- Sanfoneiros à frente do catupé de Coronel Xavier Chaves/MG. 15/05/2016.
7- Sanfoneira no comando da Folia do Divino do Jardim São José,
Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG, durante a Festa do Espírito Santo nesta cidade.
23/05/2015.  

8- Sanfoneiro e folião da Folia do Divino da Rua São João,
Bairro Tijuco, São João del-Rei, durante a Festa do Espírito Santo nesta cidade.
23/05/2015
9- Sanfoneiro e folião da folia de Reis do Elvas,
Tiradentes/MG, durante visita a uma residência, enquanto cantava diante do presépio. 
30/12/2016. 
10- Detalhe dos elementos artísticos da sanfona mostrada na fotografia  2.
Referências bibliográficas

AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: Delta, 1978.

FILGUEIRAS, Otto. Sanfona: fole de fôlego. Globo Rural, n.94, ag. / 1993.

HINDLEY, Geoffrey. Instrumentos Musicais. Melhoramentos: São Paulo, 1981. 155p.il. p.148-150. Coleção Prisma. 

Referências na Internet
(acesso em 01/03/2017, 10:20h)

Acordeão. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Acorde%C3%A3o 
Concertina. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Concertina
Bandoneón. In Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Bandone%C3%B3n
Gaita-ponto. In Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gaita-ponto
Sanfona. In: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sanfona


Notas e Créditos

* Sanfona é o nome aplicado também a outro instrumento musical, porém cordofone, a viola de roda, como seu sinônimo o que pode gerar confusão. Sua popularidade está na Europa e não tem tradição no Brasil. 
**Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 5 - Ulisses Passarelli; demais fotografias - Iago C.S. Passarelli