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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma fábula da bicharada: o bicho-folharal


Foi numa época de seca muito forte. Toda água estava esgotando e os animais da mata estavam com sede. Fizeram uma reunião: o tatu, a onça, o tamanduá, o macaco, toda bicharada estava lá. A assembléia decidiu por um mutirão formado por todos aqueles bichos furar um poço na parte mais baixa na esperança de achar água potável. O coelho foi o único a discordar, negando-se ao trabalho.

Os animais protestaram com razão porque se ele não ajudasse na labuta não poderia beber. A onça por ser a mais temida deu o veredito: ela mesma tomaria conta do poço. Ai do coelho se atrevesse beber sem ter trabalhado. O devoraria.

Os animais começaram o serviço custoso. Os tatus logo puseram a cavoucar. Outros bichos carregavam terra, outros mais buscavam paus para escora e assim foi por alguns dias, mas o coelho... nada de ajudar! Só de longe olhando e rindo da serviçada sem fim.

A cisterna ficou pronta depois de muita peleja e a bicharada matou a sede à vontade, sem perseguição alguma. O coelho não apareceu. “Viu só”, comentou a onça com impáfia, “o orelhudo não se atreveu...”

Mas de longe ele observava e deu um jeito de enganar a escolta da onça. Besuntou o corpo todo de mel e depois rolou sobre as folhas secas da mata que grudaram no se pelo deixando-o irreconhecível. Arrancou uns ramos de samambaia e chuchou-os ao pelo embolotado. Lá foi o coelho disfarçando o andar, num gingado diferente. A onça vislumbrou desconfiada a chegada.

_ Boa tarde!
_ Boa tarde, senhora!
_ Que mal lhe pergunte, mas... quem é o senhor?
_ (Respondeu o coelho com vozeirão gutural, disfarçando) sou o bicho folharal.
_ Folharal?! Uai... mas eu nunca vi o senhor aqui. Donde o senhor é?
_ Eu vim lá de longe daqueles morro. Tô de viagem e lá vou pras banda de lá... Mais tô com muita sede, esse sole bravo, seca danada...
_ Quê isso! Num vai ficar com sede não. Óh, furamo esse poço aqui, os bicho tudo, de menos o sem vergonha do coelho... Mas deixa ele passar por aqui... Mais...e, o sinhôre pode bebê o quanto quisé. É um visitante.
_ Brigado!

Foi lá o coelho, digo, o folharal, e tomando de uma cumbuca, matou a sede o quanto quis enquanto a onça o olhava de baixo em cima, cismada, mas sem atinar o logro.

_ Água boa essa aqui, viu. Fresquinha! Brigado a sinhóra...
_ De nada!
_ oh, num arrepara não mais já tamo na vorta do dia e ainda tenho mais de légua pr’aquele rumo. Eu vô chegâno. Muito agradicido!
_ Vai com Deus, seu Folharal!

Saiu o descarado do coelho naquele requebrado. A onça meio pasmada olhava sua figura no fim da trilha. Quando a distância era já segura, O Bicho folharal voltou-se para a direção da onça e começou a sacudir o corpo todo e arrancar todas aquelas folhas e ramos e vendo-se livre do disfarce, riu demais daquela bruta. E saiu correndo disparado pra grota abaixo, entremeio de moitas e moitas até sumir.

Ficou revoltada, aos urros de estremecer a mata. A bicharada veio saber da nova. Ficaram fulos de raiva. Foi a raposa que deu a idéia da vingança.

_Oh, vão fazê assim: nóis cavuca uma cova e dona onça deita nela de barriga pra cima. Cubrimo ela tudo de capim e fôia seca. Fica lá paradinha...  sem mexê nada, só com um furinho no mei’ das  fôia pra mode respirá. Aí vamo ispaiá nutícia que a terra tá revortada co’a seca e vai escancará a boca e mostrá seus dente, que devora tudo quanto é bicho morto no chão. O cuêi’ é munto curioso e vai chegá pra vê. Aí a sinhora arreganha a guela que impurro ele lá dentro. Daí é só mordê. Esgana ele! Disaforado!
_ uai, sô... Muito boa idéia! Cumé que num pensei nisso...
_ Ah,com todo respeito, eu sô a raposa num é a toa...
Assim fizeram. Os animais em roda, circulando o lugar onde a suposta boca da terra iria se abrir.
_ Chega aqui perto cuelho, óia ali que a terra lá vai rachando... Chega aqui pertinho, pr’ocê vê!
_ Não, daqui mesmo tá bão. Tá dano pra vê...
_ Ah lá os dente pontano! Óia que bruto, cuêi’ !

Ele esticou o pescoço e vendo que era uma presepada da onça com a raposa, abaixou ligeiro pegou uma grande pedra e jogou na garganta da onça. E deu o fora o mais rápido que pode. A onça se debatendo sufocada esperneava de dor sem poder reagir e nenhum bicho teve coragem de chegar perto para acudir. O coelho sumiu no mundo. Nunca mais voltou naquela região.


Notas e Créditos

* Informante: Luís Pereira dos Santos, povoado da Candonga (Tiradentes / MG), 2007.
** Adaptação textual e desenho: Ulisses Passarelli.

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