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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 28 de maio de 2013

Fábula: o Coelho e o Jacaré

Os bichos dão lição aos homens...

Um homem, certa vez, num tempo de grande estiagem, chegou à beira de um rio quase seco e viu no fundo de um poço que era mais lama que água, um filhotinho de jacaré, pouco mais que um lagarto. Imaginou que com aquele sol forte e a falta de chuva sua sina estaria certamente e com brevidade marcada pela morte. Desceu e salvou o bicho, soltando-o na água corrente.

Feita a boa ação partiu. O tempo passou, passou ... Anos depois chegou junto ao mesmo rio, ainda naquele lugar onde salvara o jacarezinho. Só que agora, ao contrário, uma imensa enchente elevava-se de um barranco ao outro, socavando as encostas ribeirinhas.

O homem chegou bem na beirada para ver melhor a agitação das águas quando foi surpreendido por um desmoronamento da margem. Caiu na correnteza e foi levado. Sabia nadar mas a água estava brava. De súbito, como que um tronco que boiava, se meteu debaixo dele e o ergueu entre as pernas. Mais assustado ficou ao ver que não era pau, mas um imenso jacaré. Quis fugir quando o bicho falou:

_ Carma home! Num me cunhece não? Sô aquele jacaré que ocê sarvô quano era fiotin’ numa poça de barro, alembra?
_ Ah... mas não é possível!
_ Claro que é. Tô agradecendo. Vô te descê no barranco.

Lá ia numa cena curiosa o homem rio abaixo cavalgando um jacaré. Mas nada de desembarcar. É que a fera a propósito, maquinava se devia ou não devorar seu benfeitor. Na confusão do pensamento fazia hora para tomar a decisão. O homem cismou.

_ Jacaré, por favor, me desce logo que tô com medo.
_ Já vai home...

Passou por um galho sobranceiro onde uma coruja estava pousada. O jacaré perguntou-lhe.

_ Bem se paga com bem ou bem se paga com mal?
_ Com bem, respondeu-lhe a coruja.

O jacaré não gostou da resposta. Queria o contrário. E homem apavorou.

_ Me desce logo!
_ Não dá pra sê aqui, oh, barranco alto. Com’é que ocê sobe?

Passou outra árvore grande onde um urubu espiava aquela cena inusitada.

_ Bem se paga com bem ou bem se paga com mal?
_ Com mal, falou taciturno o urubu.

O jacaré agradou mas no fundo a voz da sua minúscula consciência retrucava o empate das respostas, pois enfim se não fosse o homem ele teria morrido... Mas se o deixasse na beira poderia então comê-lo sem remorso, pois já estava pago porque o teria salvado do afogamento primeiro.

_ Quero sair jacaré!
_ Lá embaixo naquela curva do rio, no espraiado, tá vendo?

Mas antes da raseira, uma grande árvore havia tombado nas águas, meio para fora, meio para dentro. Em acentuada inclinação, obstruía em parte a passagem do rio. Sobre aquele tronco ao longe viu o homem um coelho calmamente tocando sua viola.

O jacaré gritou ao coelho a mesma pergunta, louco pelo desempate que o deixaria sem embaraço algum para estraçalhar o homem ali mesmo. Mas o coelho muito velhaco percebeu a má intenção e...

_ O quê?... Não tô escutando... (pôs a mão na orelha)
_ Bem se paga com bem ou bem se paga com mal?
_ Âhn? Fala mais alto...

Ele queria é que se aproximassem para dar oportunidade ao homem de saltar fora e embromava o brutamonte dentuço.


Na terceira vez que se fez de surdo, já boiavam perto da árvore caída. Dedilhou um toque na viola, cantando assim:

“Quem tempo tem,
Quem tempo espera,
En’vém o tempo
Que o diabo leva...”

E tocando seu instrumento abanava a cabeça de lado, dando sinal ao homem que pulasse no galho caído na torrente.

Ele entendeu e vupt! O coelho lhe deu uma mãozinha e foi a conta, pois a bocada do jacaré escancarou rasgando ramo e juntando folha, num urro assustador. Safou-se o homem com ajuda da esperteza do coelho e o bestial jacaré teve que caçar peixes para matar a fome. 

Notas e Créditos

* Informante: José Cândido de Salles ("Zé Cristino Boiadeiro"), Santa Cruz de Minas/MG, 1996.
** Coleta e adaptação textual: Ulisses Passarelli.
*** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 10/12/2013.

2 comentários:

  1. Ulisses, penso que nossas lendas são riquezas culturais preciosas pouco conhecidas porque ainda não foram descobertas, recolhidas e divulgadas.

    Que bom que você, garimpeiro cultural, está fazendo este trabalho! Grande abraço.

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  2. Sim, Emílio, elas são preciosas. Tenho algumas dentre minhas anotações e pouco a pouco vou soltando-as aqui no blog. Elas contém uma didática notável, sempre ensinando algo, com uma linguagem tipicamente rural e personagens populares. Quisera vê-las mais exploradas nas escolas... Abç.

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