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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 5 de junho de 2013

Gunga serena!

Chocalhos moçambiqueiros

Um grupo folclórico bastante frequente em Minas Gerais é o chamado moçambique, uma modalidade de congado que, na ausência do candombe, tem no contexto das Festas do Rosário, a primazia de escoltar o reinado. É fato típico que dentre seus instrumentos musicais os moçambiqueiros usem certos tipos de chocalhos atados às pernas, de modo que no ritmo da pisada durante a dança faça um efeito idiofônico.

O uso desses instrumentos já era conhecido na África, atesta CASCUDO (1984) sobre os naturais de Manavane, da tribo Macambane. O bailado guerreiro ao som de timbas se fazia destacado pelos "tschivangos nos tornozelos, enfiadas de barulhentos bugalhos, e sevandos nas pernas vivas e fortes". Também os indígenas do Brasil o conheciam, pois os registra em verbete de seu dicionário com o nome de zuzá: "de frutos secos do piqui fazem chocalhos, zuzá, que atam aos tornozelos, como guizos para dançar." (baseado em Roquete Pinto, Rondônia).

Na América do Sul existe como jarreteiras.  

A forma desse chocalho é variável. Alguns são guizos, de fatura artesanal ou industrial, presos a correias e fivelas. São chamados simplesmente guizos ou por vezes paiás (sul de Minas, Vale do Paraíba paulista).

Outros são feitos de latinhas cilíndricas vedadas nos extremos, contendo grânulos de chumbo, contas, sementes de finalidade mística. São chamados gungas. Com frequência trazem desenhos simbólicos (astros, cruzes, pontos), abreviaturas de nomes de santos padroeiros, perfurações alinhadas para sair o som, mas o alinhamento dos furos segue a forma de uma cruz ou estrela de cinco pontas, com objetivo de proteção. Por vezes são confeccionados em folha de flandres ou outro tipo de chapeado, outras, pelo aproveitamento de embalagens de enlatados industriais, tais como latinhas de massa de tomate, milho verde e ervilha, portanto, num processo de reciclagem.

Gungas e paiás são os modelos padrões. Mas por vezes surgem curiosas variações, combinando os dois, como já tive ocasião de presenciar (Divinópolis). Mas na Festa do Divino deste ano, em São João del-Rei, surgiu um tipo inusitado. Pela primeira vez esteve presente o Moçambique "São Bernardo", de Macaia (Bom Sucesso/MG) que tinha entre seus dançantes um moçambiqueiro cuja gunga era confeccionada com chifres de boi.

Outro interessante modelo é a maçaquaia, usada pelo moçambique da cidade de Osório/RS. A maçaquaia gaúcha é uma gunga trançada, como um pequeno cesto cuja foto aqui incluída (abaixo) é de autoria e gentileza do folclorista pernambucano Roberto Benjamim (set.2000).

Um saudoso capitão de congado (catupé) são-joanense, sr. Luís Santana, do Bairro São Dimas, narrou-me em 1993 que viu um moçambique certa vez numa festa, que tinha no meio do grupo um dos dançantes com uma grande gunga achatada amarrada nas costas, como uma mochila. Conforme dançava o instrumento sacudia produzindo o som. O mesmo informante contou-me, quatro anos mais tarde, que a origem da dança liga-se diretamente a São Benedito. A lenda diz que quando ele era escravo, o dono dele amarrou no seu tornozelo uns guizos, porque se ele fugisse era fácil de achar. Um dia procurou ele na cozinha, pois era cozinheiro e ele não estava lá. Tinha saído escondido com um punhado de pães para dar aos pobres. O dono pegou o chicote e foi atrás, seguindo o barulho dos guizos. Quando Benedito viu a chegada do senhor, pediu proteção a Nossa Senhora. Ela apareceu para ele sorrindo e abrindo a capa escondeu ele debaixo do manto. Ele, muito alegre dançava em redor dela... o senhor ouvia o guizo tinir, com o chicote na mão, mas não podia bater pois não via o escravo, que estava invisível. Assim até desistir e voltar para a casa. O moçambique, explicou-me Luís Santana, é a imitação de São Benedito, dançando com os guizos ao redor da santa e pedindo ajuda.

A gunga e suas variantes é considerada sagrada pelo dançante, um objeto de muito respeito. É como uma sineta ritual (agogô, adjá, campainhas...) que zoando próximo ao solo (terra), invoca as forças para ajuda do dançante. Conecta-o às energias. Interligam-no à mãe-terra. Seu chocalhar saúda o chão.

Eu estava dormindo,
eu estava sonhando,
quando acordei,
gunga está malhando...
(Moçambique, Perdões/MG)

O toque da gunga é como um choro, um lamento, que evoca as agruras do antepassado cativo e o sofrimento do moçambiqueiro de hoje:

Oi, serena. minha gunga, serena!
Serena, serena, serena!
Ei... Deixa a gunga serenar! (*)
Gunga, serena devagar!
(Moçambique, Passos/MG, 1997)

A gunga se torna parte do corpo do moçambiqueiro, uma extensão musical. É como se a música ou ao menos o ritmo emanasse de seu próprio corpo.

01- Moçambique, Santana do Garambéu/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 31/05/1998.
02- Moçambique, Santana do Garambéu/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 14/05/2012.

                                    
03- Moçambique, Divinópolis/MG, durante o Jubileu do Divino 
em São João del-Rei. 14/05/2012.

04- Moçambique, Macaia (Bom Sucesso/MG),  durante o Jubileu do Divino 
em São João del-Rei. 19/05/2013.

05- Maçaquaia, do moçambique de Osório/RS. Foto: Roberto Benjamim.
06- Gungas convencionais no tornozelo e "maçaquaias" complementando.
Capitão do moçambique de Santo Antônio do Amparo/MG.
Festa do Divino em São João del-Rei, 04/06/2017. 
07- Moçambique "N.S.Aparecida", Passa Tempo/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei.
05/06/2011.


08- Gungas quadrangulares flagradas na guarda de Moçambique
"Nossa Senhora do Rosário", de Carmópolis de Minas, durante a
Festa do Rosário em Passa Tempo/MG. 18/10/2015.

09- Gungas atadas na parte de trás da coxa, na guarda de Moçambique
"São Benedito e Santa Isabel", de Santo Antônio do Amparo, durante a 
Festa do Rosário em Passa Tempo/MG. 18/10/2015.

10- Correntes atreladas às gungas flagradas na guarda de Moçambique
"Nossa Senhora Aparecida", de Passa Tempo, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei/MG. 24/05/2015. 

11- Jarreteira boliviana, de Puerto Aguirre, feita com cascos de cabrito (estojo córneo),
costurado com linha de nylon sobre tecido típico. Peça de 2005, fotografada em 2014.

video
12- Gungas em ação: Moçambique "Nossa Senhora Aparecida",
Passa Tempo/MG, durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
em São João del-Rei/MG. 24/05/2015. 


Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horionte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1984. 435p. p.37.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.


Notas e Créditos

* Serenar: eufemismo poético-popular equivalendo a chorar. Serenou = chorou.
** Texto, acervo (exceto foto 5) e fotos 1, 8 e 9: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: 2, 3, 4, 6, 10 e 11, Iago C.S. Passarelli; 5, Roberto Benjamim, gentilmente ofertada pelo próprio para esta postagem; 6, Maria Aparecida de Salles Passarelli.
**** Vídeo: Iago C.S. Passarelli

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