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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cobra de Duas Cabeças

Animal terrestre de hábitos subterrâneos, cujo nome é um duplo equívoco: não é cobra (embora pareça uma), nem tem duas cabeças. Tem uma só, mas o extremo caudal é rombudo, assemelhando-se a grosso modo a uma cabeça, daí seu batismo. Recebem este nome um réptil da família anfisbenidae, Leposternon microcephalum - também chamado cobra-cega - e um anfíbio da família caeciliidae, Siphonops annulatus – outrossim conhecido por minhocão (*), dentre outros congêneres, todos frequentemente confundidos nos meios populares.

Mas ao povo pouco importa estes detalhes zoológicos: estes animais passam por serpentes e como tais são tratados. Estão sujeitos aos mesmos tabus e crendices, desenvolvendo medo e repulsa, como sói acontecer com as cobras em geral. SANTOS (1981), referindo-se ao anfíbio afirmou: "ao inofensivo bicharoco empresta o povo propósitos perversos e crê num sem-número de malefícios que ele é capaz de engendrar". O mesmo autor cita várias crendices que recaem sobre o réptil.

Mas em especial pode-se indicar alguns detalhes correntes nesta região: a cobra de duas cabeças goza de má fama nos meios populares, porque se crê que não é sua mordida ou picada que mata, mas sim a “baba” (saliva), que se molhar alguém tem efeito mais terrível que o veneno das cobras verdadeiras. Por isto a matam. Na verdade só morde se ostensivamente molestada. É ainda mal querida pelas galerias que abre sob a terra, que, segundo os agricultores, alojam posteriormente formigueiros. Da mesma sorte por vezes invade as galerias das formigas-cabeçudas (formigas saúvas ou formigas de roça). Daí seus sinônimos populares Brasil afora, tais como rei das formigas, mãe do formigueiro e mãe de saúva. 

A cobra-cega é visada pelos pescadores, que a trespassam em anzol para isca.

A cobra de duas cabeças é animal votivo do orixá Oxumaré. A ferramenta desse orixá é uma cobra de ferro.

Não obstante a repulsa que de imediato causam pelo aspecto serpentiforme, esses habitantes subterrâneos merecem ser preservados posto que tem seu papel na cadeia biológica, contribuindo para o equilíbrio da cadeia alimentar.

Cobra de duas cabeças: à esquerda o réptil anfisbenídeo e à direita o anfíbio cecilídeo.
São João del-Rei/MG. 


Referência Bibliográfica

SANTOS, Eurico. Anfíbios e Répteis: vida e costumes. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. 263p.il.

Notas e Créditos

* Na cidade sul mineira de Ouro Fino o termo "minhocão" ganhou uma acepção lendária, na justificativa de um tremor de terra, supostamente causado por uma minhoca gigante, como se depreende deste excerto: “Foi desse lado, em velho pasto, que ocorreu o célebre minhocão, que assustou o povo e que, na verdade, não passou de uma depressão súbita e violenta do solo causada por corrente de águas subterrâneas.” (LEITE, Aureliano. Ouro Fino de minha meninice. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1964, v.11.p.47-51.)
** Texto e fotos: Ulisses Passarelli
*** Para saber mais a respeito da cultura popular desenvolvida em torno das serpentes ver: NOMURA, Hitoshi. Os Répteis no Folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996. Coleção Mossoroense, série C, v.893. 99p. 
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