Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

8º Encontro de Folias de Reis do Largo de São Francisco

Anteontem, 28 de dezembro, 19h e 30 min., do Largo de São Francisco (Praça Frei Orlando), no centro histórico de São João del-Rei / MG, ecoou mais uma vez a tradição reiseira pela voz dos mestres e folieiros, ao som de seus instrumentos musicais. 

Foi servido um farto lanche aos folieiros, num momento de congraçamento flagrado na fotografia abaixo.


Na abertura por Alzira Agostini Haddad, agradecimentos aos patrocinadores e apoiadores e as homenagens que prestou a algumas pessoas relevantes em nossa cultura, dentre as quais Antônio Emílio da Costa por merecido trabalho nos blogs difundindo os valores de São João del-Rei e John Sommers, baluarte das peças em estanho que ajudam a compor a imagem desta terra. A seguir dez grupos de folias de Reis se apresentaram num coreto especialmente armado, enfeitado e iluminado, na seguinte sequência: 


1ª- "Folia do Vavá", do distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, com sua típica toada rural, sob o comando do folião e embaixador Lourival Amâncio de Paula, com o bandolim;


2ª- Folia "Embaixada de Reis do Bom Pastor",do folião e embaixador "Didinho" (Geraldo Domingos Resende), representando o Grande Matosinhos, cuja bela bandeira com registro pintado vê-se na imagem acima;


3ª- "Folia da Lilia", constituída por mulheres, sob o comando à sanfona da foliã Maria Inês dos Santos Zim, do Jardim São José, Bairro Tijuco;




4ª- "Folia do Carlão", que veio da Colônia do José Teodoro, área rural de São João del-Rei, com seu folião Carlos Leandro de Oliveira (acima, com a bandeira) e o embaixador Virgílio Moreira Sandim Filho, o "Virgilinho" (acima, com sanfona) e Afrânio Batista de Paiva, o "Fanico" (acima, com a viola);


5ª -"Folia Embaixada Santa", do Bairro Araçá, do folião e embaixador Luís Carlos Rosa, grande sanfoneiro, que se vê na foto acima portando sua toalha do Menino Jesus à cintura;


6ª- "Folia da Rua São João", do Bairro Tijuco, do folião e embaixador Antônio Ventura, do Bairro Tijuco, hábil sanfoneiro e empolgado cantador acima retratado;


7ª- "Folia das Águas Férreas", do folião e embaixador Geraldo Elói de Lacerda, do Bairro Tijuco, que teve em seu grupo um violino à guisa de rabeca, no lugar do acordeon;


8ª- "Folia Caminho da Salvação", de Juiz de Fora, Bairro Santa Efigênia, mestre Damião Anastácio, com meia dúzia de animados palhaços ou bastiões na dianteira;


9ª- "Folia Estrela de Belém", de Juiz de Fora, Bairro Teixeiras, mestre Cláudio Egídio, cuja foto acima, uma captura de imagem de vídeo tomada de cima do coreto, retrata o momento que um dos palhaços recitava versos da profecia;


10ª- "Folia do João Matias", do Bairro Guarda-mor, do folião e embaixador João Batista do Nascimento, nosso mais antigo folião, que está completando 90 anos e ainda se farda de bastião, como mostra a foto acima, além de tirar a cantoria quando não está nesta função. 


Portanto, oito grupos de São João del-Rei e dois visitantes de Juiz de Fora. Antes destas duas cantarem, foi oportuno apresentar também a cantoria de dois embaixadores: Antônio Francisco dos Santos, de Barroso, ao violão, e Luthero Castorino da Silva, de São João del-Rei, ao acordeon, irmãos, fazendo breve cantoria de homenagem aos foliões falecidos, como se vê na fotografia seguinte. Luthero é fundador e presidente da Associação dos Agentes Culturais das Vertentes, que reúne os congados e folias. 



O público manteve-se fiel e participativo até o final do evento e São Pedro também cooperou bastante segurando a chuva que por várias vezes ameaçou presença. 

Público do 8º Encontro de Folias de Reis no Largo de São Francisco.

A oportunidade foi interessante na demonstração da diferença cultural das folias das Vertentes representadas pelos grupos são-joanenses e pelas da Zona da Mata, representadas pelas de Juiz de Fora. Forma de se apresentar, vestir, ritmo, melodia, trabalho dos numerosos e espantosos palhaços... enfim, tudo diferente das nossas, mas unidas no mesmo espírito de irmandade, rituais básicos e objetivos. Aliás, por falar em palhaços, eles foram uma atração à parte, mesclando o belo e o horrendo, o colorido e o sombrio, figuras exotéricas, parecem espíritos ancestrais materializados em cores, máscaras e movimentos. Suas máscaras são verdadeiras obras de arte, onde se observa uma imensa criatividade e capacidade de reciclagem de materiais. 


O encerramento se deu com palavras elogiosas e entusiasmadas do violeiro e artista Chico Lobo, que durante anos tem trabalhado na valorização de nossa cultura de raiz. 

Violeiro Chico Lobo (à esq.), Mestre João Matias (centro) e Alzira Haddad. 

Toda a forma como os grupos foram tratados demonstrou respeito e valorização dessa tradição tão arraigada a esta terra. Sob boa organização e planejamento o evento leva a marca da Atitude Cultural, sua realizadora, com grande esforço das irmãs Alzira e Eliane, contando o encontro com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer.

* Texto: Ulisses Passarelli
* Fotos: Iago C.S. Passarelli, 28/12/2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

Obras no Santuário


Alambrado.

Nova Capela do Santíssimo.

Nova sacristia. 

Atual altar-mor.

Piso antigo sendo removido.

Novo piso. 
 As imagens acima revelam novos aspectos físicos do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei, no final de 2013, sob a direção do pároco e reitor, Padre José Bittar, que tem envidado muitos esforços no sentido de trazer melhoramentos para esta igreja. 

Dentre outras ações merecem destaque a colocação de um alambrado resguardando o bloco dos fundos, onde funciona a catequese, o que limitou o trânsito livre contribuindo sobremaneira com questões de ordem e segurança; houve grande ampliação e melhoramento artístico e funcional na Capela do Santíssimo Sacramento e na sacristia, com a construção de anexos voltados para a retaguarda do templo; o desgastado piso antigo, original da construção da nova igreja foi trocado após uma intensa campanha popular, incluindo também melhorias no altar, ao centro, e do altar-mor. 

Este ganhou um novo aspecto que fez reunir as imagens antigas e do Sr. Bom Jesus, Divino e Virgem da Lapa, dando-lhes maior destaque e visibilidade.

Ao operoso pároco damos os parabéns, extensivo ao vigário, Padre Geraldo Sérgio França, e a todas as pessoas envolvidas neste trabalho. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As folias estão em jornada

Nesse tempo das oitavas do Natal, as folias de Reis estão em giro de visitação às residências, buscando presépios para diante deles cantar louvores, anunciar a profecia messiânica, a anunciação do Anjo Gabriel, o nascimento do Menino Jesus,  reviver em versos a humilde visita dos pastores de Belém e a epopéia dos Magos do Oriente.

Embora as folias sejam em verdade conhecidas em várias partes do Brasil, é dever destacar os grupos regionais porque aqui, em virtude de singularidades do processo histórico de formação de nossa gente, foi amalgamada uma cultura de notável riqueza e no caso em questão, os grupos de folia tem um profundo enraizamento.

Infelizmente as mudanças de costumes sociais tem sacrificado bastante esses grupos da cultura popular, já bem reduzidos, mas ainda perseveram alguns baluartes, mestres que se esforçam em manter a velha tradição reiseira, em São João del-Rei e vizinhanças: Tiradentes, Barroso, Prados, Nazareno, Conceição da Barra de Minas, Ritápolis, Bom Sucesso, São Tiago, Resende Costa, Coronel Xavier Chaves e outros municípios em derredor e nos limites da mesorregião. Passaram por modificações rituais, mais simplificados, mas a sua essência continua a mesma.

Neste sábado, dia 28, a partir das 19 h e 30 min., no Largo de São Francisco (Praça Frei Orlando), os apreciadores poderão assistir a oito folias, todas de São João del-Rei, convidadas para um encontro, promovido pela Atitude Cultural: folia do Didinho (Bairro Bom Pastor), folia da Lilia (Jardim São José, Bairro Tijuco), folia do Geraldo Elói (das Águas Férreas, Bairro Tijuco), folia do Antônio Ventura (da Rua São João, Bairro Tijuco), folia do João Matias (do Bairro Guarda-mor), folia do Luisinho Sanfoneiro (conhecida por "Embaixada Santa", do Bairro Araçá), folia do Carlão (da Colônia do José Teodoro) e folia do Vavá (de São Gonçalo do Amarante). Os grupos tocarão em um coreto, especialmente montado para o evento.

A folia do distrito de São Gonçalo do Amarante, um dos grupos a se apresentar, aqui retratado no encontro de 2010.

* Texto e foto: Ulisses Passarelli. 
** Para saber mais sobre as mudanças desses grupos ver: Folias de Reis nas Vertentes: ontem e hoje

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal !!!

O blog MATOSINHOS: história & festas deseja a todos os seus leitores um feliz e santo Natal e um excelente ano novo, repleto de paz, saúde, prosperidade e alegria. Que a divina providência e misericórdia guiem nossos passos e o espírito da concórdia reine nesta terra ferida. 

Doce de figo: sobremesa  típica do Natal. 

Presépio. 

Feliz Natal !!!

O blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES deseja a todos os seus leitores um feliz e santo Natal e um excelente ano novo, repleto de paz, saúde, prosperidade e alegria. Que a divina providência e misericórdia guiem nossos passos e o espírito da concórdia reine nesta terra ferida. 

***

"Natal, Natal!
Natal chegou ...
Natal querido, 
do Redentor!"
(Pastorinhas, Tiradentes / MG, 1999)

"Natal, Natal!
Nasceu Jesus ...
Nasceu a vida, 
nasceu a luz!"
(Folia de Reis, São João del-Rei / MG, 2013)

Doce de figo em calda, sobremesa típica do Natal nos Campos das Vertentes. São João del-Rei.
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013. 

Presépio caseiro, feito com peças em barro da década de 1970, do sr. "Mundinho", de Santa Cruz de Minas.
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013.
Pastorinhas das Águas Férreas, durante encontro de folias na Colônia do Marçal. São João del-Rei.
Foto: Cida Salles, 2009. 

Folia de Reis do Morro Redondo (Tiradentes / MG), do folião e embaixador sr. Gustavo.
Foto: Ulisses Passarelli, 1994. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Quibebe?! Bacupariu... jacuba?

Frutas, quitandas, pratos e bebidas de nomes curiosos

"Ôh! Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais!", ensina a conhecidíssima música, um verdadeiro hino dos mineiros. Terra de delícias, não seria diferente num berço de cultura como a microrregião dos Campos das Vertentes, onde a história palpitante brota por toda parte e tem em São João del-Rei a cidade pólo dessa área do centro-sul do estado, irradiando influência em derredor.


A famosa "cozinha mineira" é tão simples e ao mesmo tempo tão complexa... Pelo seu vocabulário passam alguns nomes curiosos e cada região terá os seus, com pequenas variantes na receita; mas ora foram listados alguns que a memória privilegiou nesta anti-véspera de Natal, que seguem com pequena elucidação de cada um (*).

* * *

Bacupariu - fruta comestível da família clusiacea, Garcinia gardneriana, do cerrado e matas de galeria, em verdade, pouco conhecida.

Bacupariu ou bacopari, fotografado na zona rural de São João del-Rei. 

Bunda de mucama - nome de uma erva rasteira e de crescimento expontâneo, consumida sob a forma de saladas ou refogada para acompanhar em geral angu e carnes suínas. Possivel o mesmo que "capiçoba", nome de plantas asteráceas Erechtites valerianaefolia e Erechtites hieraciifolius

Calcanhar de Negro - biscoito de forno cuja massa de polvilho doce ressecada, depois de assada, fica cheia de trincas, rachaduras. O nome pejorativo mas firmado na tradição é muito antigo e deve ser entendido no contexto histórico da época escravocrata. Não vai aqui acompanhado de nenhuma conotação depreciativa.

Cambuquira - brotos e flores de abóbora afogados com tempero a gosto. Geralmente se faz mexida com ovo. Palavra de origem indígena, nomeia uma cidade sul-mineira, estância hidromineral. Segundo SAMPAIO (1987), a palavra procede de "caá-ambyquyra: a planta grelada; grelos; folhas tenras."

Chico Duro - biscoito de fubá, assado, de massa disposta em forma de bastões. O nome também se aplica como alcunha a um tipo de embutido.

Comer de Grilo - frutinha arroxeada dos pastos, que dá em pequenos cachos. Tem nada mais que uma modesta polpa ao redor de um grande caroço mas nem por isto escapa da sanha da gurizada.

Comer de Grilo

Cubu - espécie de broa de fubá de massa muito ressecada geralmente assada em panela, sobre as brasas do fogão à lenha, pondo-se sobre a tampa da panela, outro tanto de brasas.

Cu de Pinto - frutinha solanácea encontrada em pastagens, também chamada erva-moura. Solanum americanum.

Cu de Pinto
Feijão Amigo - feijão refogado com tempero acentuado e petiscos tais como pedacinhos de calabresa ou carne desfiada. Serve-se em geral como um caldo, para se comer sem acompanhamento de outra comida, a não ser "pão de sal" (pão francês, "pão de pobre").

Feijão Estrelado - feijão moído manualmente com o auxílio de uma "estrela", ferramenta ou artefato de cozinha que consiste numa chapa metálica cortante, em forma de estrela, presa à ponta de um pau, à guisa de cabo. Presa a estrela pelo cabo entre as palmas das mãos e girada vigorosamente dentro do feijão cozido, desmancha os grãos produzindo um caldo grosso, muito apreciado.

Feijão Pagão - pode ser feijão servido sem caldo, só os caroços cozidos e temperados ou o feijão cozido sem refogar, portanto sem temperos.

Feijão-tropeiro - feijão cozido, de grãos inteiros, sem caldo, com farinha e torresmos. Comida de fácil preparo e conservação que era usada pelas comitivas de boiadeiros e tropeiros nos pousos. Ao mesmo tempo, tem "sustança", isto é, sustenta, mata a fome por muitas horas, oferece a sensação de saciedade e energia para a lida. Daí a popularidade. Trazido para as cidades foi incrementado com couve, linguiça e outros ingredientes e temperos para se adequar à exigência do gosto dos fregueses dos restaurantes. Processo idêntico aconteceu com o arroz de carreteiro (arroz com charque). 

Fubá Suado - ou papo suado, é uma espécie de farinha torrada de fubá, porém feita em panela contendo uma porção de gordura de porco e farelos de torresmo. Deve ser continuamente mexido em fogo brando para não queimar. Por fim é abafado com tampa por um prazo, provocando condensação de vapor por baixo da mesma. Daí o nome deste alimento. A variante doce é feita com farinha torrada quente, açúcar e pedaços de queijo mineiro. Alimento querido de boiadeiros e tropeiros.

Galopé - galo cozido num caldeirão junto com pé de porco. Considerado tanto melhor quanto mais velho é o galo. O caldo é muito apreciado para se consumir com "pão de sal" (pão francês) ou angu.

Gasosa - bebida refrigerante feita com a casca do abacaxi (gênero Ananas, família bromeliaceae), posta numa vasilha em infusão na água por vários dias. A fermentação bacterina produz bolhas, daí o nome. Adoça-se para beber. Em outras regiões é chamado aluá.

Gembê - escrito assim, como um eco africano nos Campos das Vertentes, ou como sinônimo, "gemberoti", soando à italiana, é um cozido de dois ou mais legumes, geralmente contendo  jiló.

Jacuba - era comida rude dos tempos coloniais, de trabalhadores como boiadeiros, tropeiros, garimpeiros. As receitas variam em cada região. Dou cá a que aprendi a anos em São João del-Rei com meu avô materno: coa-se um café amargo bem forte, que é servido num caneco grande contendo no fundo uma porção de "farinha torrada" (fubá torrado em tacho ou panela - sem gordura), pedaços de queijo mineiro picado, de preferência meia-cura. O café quente derrete o queijo. Deve ser adoçado com açúcar mascavo ("açúcar preto") ou com um pedaço de rapadura raspada à faca. Na região de César de Pina (Tiradentes), há a antiga Fazenda da Jacuba, ponto de parada de tropeiros e boiadeiros, habituais consumidores desta bebida. ANJOS (2002) informa, que durante a Guerra dos Emboabas, os paulistas, situados no Arraial de Antônio Dias, eram alcunhados “Jacubas”, pelo grande consumo desta bebida. Em contrapartida, os Emboabas (que trouxeram gado pelos sertões) eram apelidados “Mocotós”, por comerem muito este produto. O costume de se beber jacuba teria vindo com os paulistas nos primeiros tempos da atividade mineradora? Jacubeiro é o apelido do comedor de jacuba. Foi alcunha depreciativa dos tiradentinos, dada pelo são-joanenses no século XIX. 

João deitado - espécie de quitanda, biscoitão de polvilho, a grosso modo em formato de bastão, às vezes acrescido em sua massa de pedacinhos de queijo (**). 

Leite de Onça - 1- aperitivo de cachaça com leite condensado. 2- Aperitivo formado por 2 latas de leite condensado, ½ garrafa de conhaque, 1 xícara de licor de cacau, 1 garrafa de guaraná, levado tudo ao resfriamento por duas horas e em seguida batido com gelo.

Macadame - sopão de legumes variados cozidos com pedaços de carne de vaca: batata, chuchu, inhame, moranga, cenoura.

Mãe Benta - Pequenino bolo de textura muito macia, feito em formas de empadinha. Os ingredientes são: farinha de trigo, fermento em pó, sal, ovos e creme de leite.

Maneco sem Jaleco - mingau de fubá com pedaços de couve rasgada à mão e ovos caipiras mexidos no calor do próprio mingau. 

Maria Caganeira - frutinha amarela com propriedades laxantes. Apesar do efeito é querida da infância.

Maria caganeira.

Papa-ovo - biscoito tradicional, à base de fécula de mandioca, gordura de palma, sal de cozinha e sal amoníaco. De textura macia e cor amarelada, recebe esse nome em virtude da grande quantidade de gemas de ovos que leva na massa.

Péla-égua - Canjiquinha preparada de mistura a pedaços de toicinho e pele de porco. É servido bem quente. Era comida dada aos escravos, levada da senzala às roças em latas, penduradas no lombo de éguas, mulas. Devido ao calor excessivo fazia cair o pelo com que entrava em contato, queimando os animais, donde procede o nome. Ficou registrado num verso de calango:


“Na Fazenda do Morgado,
ninguém pode trabalhar: 
canjiquinha no almoço, 
péla-égua no jantar, 
quem tem barriga grande
não paga pena ir lá...” 
(Calango, Bias Fortes/MG, 1997).

Prato Frio - Salada contendo batatas inglesas cozidas, cortadas em pedaços grandes, servidas depois de esfriar, com reforço de tempero à base de "azeite doce" (azeite de oliva) e pimenta do reino.

Pituca - feijão que ao se servir no prato se polvilha qualquer tipo de farinha por cima. Difere assim  do "tutu", que a farinha é misturada ainda ao fogo.

Quibebe - este termo permite algumas acepções culinárias, com mandioca, abóbora ou quiabo, conforme a região, tais como caldos e ensopados. O mais usual na região das Vertentes é de um purê de abóbora madura.

Rabo de Galo - bebida feita com a mistura da pinga com algum refrigerante, normalmente à base de cola ou guaraná.

Sambiquira - nome de origem indígena, o mesmo que “sobre-cu” ou "santo antônio". Região do uropígio das aves usadas como alimento, frito, cozido ou assado, preferido para tira-gosto. 

Sopa de Mãe - alimento que ganhou este nome por ser dado com frequência à mulher em resguardo do parto, por se acreditar que lhe regenera as forças e aumenta o aleitamento. É feita com farinha de milho (floculada), em geral com pedaços de galinha desfiada e salsa picada. É também alimento frequente na estação do frio, usado para tirar a "friagem do estômago", creditado malefício adquirido por falta de agasalho ou uso de roupa molhada, que derruba o corpo em prostração e gera má digestão.

Sopa Dourada - sopa de abóbora ou de moranga.

Xixi de Anjo - bebida que mescla cachaça e qualquer refrigerante à base de laranja.

Vaca Atolada - costela de vaca cozida junto com a mandioca.

Vaca Preta - sorvete servido em uma tigela, molhado de refrigerante de cola.


Referência bibliográfica

ANJOS, Carlos Versiani dos. Fincando Bandeiras na “Terra Prometida” do Eldorado. Revista da Comissão Mineira de Folclore, ag. / 2002, n.23. p.47-52.

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. 359p. p. 214.


Notas e Créditos

* Alerta: não recomendo o consumo das frutas e folhas mencionadas neste texto sem pleno conhecimento das mesmas e perfeita identificação, pelo risco de intoxicação por outra fruta não comestível. As fotos tem caráter meramente ilustrativo e não servem de parâmetro de segurança para o consumo. O registro de consumo humano é tão somente de finalidade etnográfica.
**  O Professor Antônio Gaio Sobrinho lembrou-se do joão-deitado nesta fidedigna referência a Conceição da Barra de Minas: "Outro ramo que podia florescer é a indústria de quitandas: broas, bolos, roscas, biscoitos, rosquinhas, pães. No passado, em quase todas as casas, existia um forno, feito de cupins, aquecidos a lenha, dos quais, em véspera de festas se exalava um cheiro bom de broas, pamonhas e joões-deitados." (Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p.il. p.125.) Na linguagem popular o termo "joão-deitado" tem ainda outro significado: é uma alcunha bem humorada de quebra-molas... Em contrapartida, um poste é o "joão em pé", conforme observado em São João del-Rei.
*** Texto: Ulisses Passarelli.
**** Fotos: comer de grilo e cu de pinto, Ulisses Passarelli; bacupariu e maria caganeira, Iago C.S. Passarelli.
***** Informante do calango: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Preá no folclore

“Piriá” ou “P’riá” são corruptelas do nome de alguns mamíferos da ordem Rodentia, com larga distribuição geográfica na América do Sul, histricomorfos, da família dos caviídeos, sobretudo a espécie Cavia aperea encontrada na região das Vertentes. 

Habita brejos e capinzais. 

Lamentavelmente é muito caçado, seja por atacar as hortas, seja pela carne. Costumam caçá-lo com o “fôjo”, um buraco feito no chão, com tampa falsa, tipo alçapão, com as ramas prediletas por cima (adora batata-doce). Indo comê-las, cai no escavado e depois é só colhê-los. 

Na tradição oral simboliza a vagabundagem como quem come de graça sem trabalhar, embora seja admirado por andar muito, pois como de fato vagueia nos capinzais. Diz o povo que em bando andam em fila indiana nos alagadiços. Os versos corriqueiros na região fixam estas imagens: 

“Minha gente venha ver
a vidinha do preá: 
morando em terra alheia
comendo sem trabalhá...” 
(trova, Santa Cruz de Minas, 1995) 

“Andei cinqüenta léguas
no lombo do piriá; 
o bicho é pequenino
mas danado pra andá!...” 
(trova, Santa Cruz de Minas, 1995)

Minha gente, venha ver,
a vida do piriá: 
montado na mãe-do-ouro,
comendo sem trabaiá!...” 
(calango, Barroso, 1998)* 

Por analogia aos seus dentes proeminentes de roedor, as pessoas portadoras de maloclusão dentária do tipo classe II - 1 de Angle, são pejorativamente alcunhadas de preás, por terem dentes incisivos superiores proeminentes, com a maxila trespassada em excesso em relação à mandíbula (overjet).

Não se deve confundir os préas nacionais com o cobaia ou porquinho-da-índia, seu parente andino, Cavia porcellus, animal exótico, criado em cativeiro e usado no jogo coelhinho: nos festejos de barraquinha dos santos das capelas, usava-se muito este jogo, com renda para a igreja em festa, que vez por outra alguém relembra e ainda faz nas quermesses. Um círculo de casinholas de madeira é posta em círculo largo, todas encostadas umas nas outras sem deixar espaço e com a única entrada voltada para o centro. Cada casinha é numerada, apostando-se num dos números. Ao centro da roda de casas de madeira, um caixote de madeira com a abertura virada para o chão aprisiona um desses bichos. Feitas as apostas, o responsável pelo jogo levanta o caixote e solta o cobaia, que apavorado pelas palmas, gritos, assovios e abanos de mãos dos circunstantes, corre a esconder dentro de uma das casinhas, cujo felizardo que naquele número apostou é o ganhador do prêmio. 



* A décadas foi recolhido num clássico da folclorística, esta trova em João Pessoa/PB (compare-se a semelhança extraordinária): 
"Minha gente, venha ver
a vidinha do preá:
deitado na macaxeira,
comendo sem trabalhar..."
In: MOTA, Leonardo Ferreira da. Violeiros do Norte: poesia e linguagem do sertão nordestino. 2.ed. Rio de Janeiro: A Noite, 1955. 298p. p.44. 
** Informantes das quadras: Sta.Cruz, Elvira Andrade de Salles; Barroso, Manoel Júlio de Sousa
***Texto: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Na Minha Terra se Fala assim - parte 2

Dando prosseguimento ao registro de parte de nosso vocabulário típico em São João del-Rei e arredores, selecionamos algumas expressões e palavras com breve elucidação do significado.

Neste pequeno conjunto foi privilegiado a fala do homem rural, notadamente os dizeres que se costuma ouvir quando comentam sobre seus negócio de compra ou troca de terra e animais, nas festas de padroeiro, nos leilões, praças de gado, no dia a dia enfim, não obstante o êxodo rural tenha introduzido esse falar nas cidades, o que é fato. Constitui um fato cultural da maior importância que enriquece o nosso regionalismo.

Aguardem edições de novos números de continuação deste post.

* * *

- Amarilinho: amarelozinho.
- Apirmiti: permitir.
- Azulinho: azulzinho.
- Barrufo: jato de água borrifado sobre as verduras da horta.
- Batuta: esperto, perspicaz, de mente muito ativa. 
- Bater na cangaia pro burro intendê: falar o defeito ou erro de e para alguém quase que de forma explícita, senão mesmo grosseira, pois se está fazendo de desentendido ou de fato ignorante.
- Berganha: ou barganha – troca.  Berganhista: quem habitualmente negocia via trocas.
- Birosca: bar de má qualidade; estabelecimento comercial ruim. 
- Cara de cachorro que peidou na porta da igreja: pejorativo para indicar grande constrangimento.
- Chuchá a onça com vara curta: provocar alguém muito nervoso ou poderoso sem medir as consequências.
- Correr cutia: desistir de um negócio já firmado em palavra. Nos meios populares é considerada uma atitude vil. Cutiêro: quem costuma correr cutia nos negócios; desistente de uma barganha ou venda já acertada.
- Dar manta: obter por um objeto em venda ou troca, um valor superior ao que de fato vale. Não é considerado pelo homem do povo índice de desonestidade mas sim de esperteza e sabedoria.
- Dar na telha: fixar-se num idéia; prender-se a um conceito; tomar uma atitude repentina, inesperada.
- Desceu a catana: bateu, no sentido de agressão física; dar um golpe corporal
- Discanelado: de pernas alongadas
- Fazer negócio de orêia: troca de objetos ou bens sem retorno em dinheiro ou qualquer outra coisa, apenas o valor de um pelo valor do outro.
- Foi tintiano: foi pelejando, tentando.
- Futrica: mexerico, intriga.
- Invisionêra: pessoa ambiciosa e invejosa.
- Língua de trapo: pessoa que faz intrigas, fuxiqueiro.
- Lusco-fusco: penumbra, ambiente mal iluminado, crepúsculo ou aurora. 
- Malungo: africanismo que significa companheiro. É comum a corruptela “marungo”.
- Meia pedra, meio tijolo: expressão que indica status intermediário, mais ou menos. 
- Mutungo: ou matungo – cavalo velho. Gíria cigana incorporada ao vocabulário do homem rural.
- Não fui eu que joguei pedra na igreja: expressão usada para indicar sofrimento pessoal.
-Não fui eu que matou meu pai na forca (ou: a soco): idem.
- Onde o Judas perdeu as botas: lugar muito longe.
- Onde o vento faz a curva: idem.
- Panguá: idiota.
- Pé de boi: pessoa que sustenta uma situação, lutando com todas suas forças para que dê certo. Indivíduo esforçado, trabalhador. Esteio de família.
- P'rigoso: perigoso.
- Repassar: passar algo adquirido em negócio adiante em outro negócio. Renegociar. Dispor de um bem. Outro sentido: experimentar uma montaria nova, sentir como o animal pode ser cavalgado.
- Ruão: pelagem ruiva bem forte, acobreada.
- Russo: aloirado ou arruivado como coloração de cabelo ou pelagem. Pode ser também designativo de uma situação ruim, difícil: “está russo!”
- Sêcorro!: socorro!
- Tampô duê: começou a doer.
- Tirar o orvalho do queixo: golo de pinga ou café que se toma em jejum.
- Traquinagem: molecagem, brincadeira de criança, “fazer arte”, aprontar algo por ser levado, traquina, zombeteiro.

Leilão de gado. Festa de São Vicente de Paulo e Nossa Senhora do Carmo, povoado do Fé, São João del-Rei/MG, 2012. 

* Texto: Ulisses Passarelli
* Foto: Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Favas contadas...

Fava é o nome de vários grãos comestíveis, de plantas leguminosas aparentadas ao feijão. No Nordeste é muito procurada, freqüentemente vendida nas feiras como vi no Rio Grande do Norte (Bairro Alecrim, Natal).

Na Paraíba reconhecem a “fava boca de moça” (pequena, vermelha com listras brancas irregulares) e a “fava orelha de vó” (grande, branca com listras irregulares pretas) e com elas compõe o prato típico chamado favada – fava cozida com pedaços de carne e legumes variados, temperada com cebola e coentro.

Por aqui a fava é menos querida, mas nem por isto ausente: existe a “branca” (clara, grande), a "preta" (escura, grande) e a “belém” (vermelha, pequena).

Usamos em São João del-Rei a fava tal como o feijão, cozida e afogada com tempero a gosto, ou ainda numa de farofa de favas.

Um registro digno de nota é uso da fava como firmeza espiritual. Assim, aqui a fava-belém serve para aumentar a fartura dos alimentos e por isto tem-se alguns de seus grãos guardados nos gongás ou escondidos entre os mantimentos da despensa. Outras, habitualmente não comestíveis, servem de firmezas, acondicionadas num patuá guardado no bolso, na algibeira ou pendente ao pescoço por um cordão: fava de Ogum (grande caroço rosado-escuro, também conhecido como feijão-espadão) e a fava de Omulu (caroço cinza, graúdo, bem achatado).

O nome fava é aplicado ainda nas Vertentes a uma semente de árvore leguminosa da família fabaceae, o faveiro ou umbela, Schizolobium parahyba : fava de Santo Inácio, fava de São João, fava de umbela. É uma semente não comestível, dura, bastante achatada, de contorno ovalado, cor castanha, tamanho médio de 3 x 1,5cm. Geralmente é furada e trespassada por um cordão ou arame e usada como penduricalho contra quebranto (dizem que Santo Inácio não deixa o mal entrar na pessoa que a usa ao pescoço ou no bolso). Os passarinheiros costumam pendurá-la nas gaiolas, evitando o mal-olhado de invejosos (tal como o tento). Muito usado em colares-guias de caboclos e pretos-velhos. Tem ainda uso na crença da medicina popular: pendurada ao pescoço de crianças, creem que propicia dentição resistente. No Nordeste corre igual crença com a semente da mucunã, esclarecendo Cascudo que é por simples analogia da dureza da semente com a do esmalte dentário. Outro uso dos processos folclóricos de tratamento é contra hemorroidas, bastando carregar uma semente de fava junto ao corpo, em qualquer parte, contanto que esteja tocando a pele.

A fava aparece ainda na expressão popular "favas contadas", no sentido de algo certo, garantido, inevitável.

E para encerrar, quase parodiando esta expressão, segue a transcrição de um conto sobre favas. Pertence à categoria natureza denunciante - algumas favas magicamente ganham voz e denunciam um mistério insolúvel ao protagonista da estória...

Favas de Santo Inácio já furadas para confecção de uma guia.

Havia um homem que estava muito triste por causa de sua mulher, que quase não comia. Ele tinha medo que ela adoecesse e morresse. 

Mas na verdade ela comia bastante e sempre escondido dele, na hora que saía. Perto do esposo fazia cara de sofrimento, para com isto angariar mais cuidados do marido. 

Certo dia, ele já desesperado foi procurar a ajuda de uma mulher velha, sabida, benzedeira. Contou o que se passava e ela deu-lhe quatro caroços de fava e disse que plantasse um em cada canto da casa, escondido, que as sementes por serem encantadas lhe mostrariam a verdade. 

Assim ele fez e ficou de tocaia observando. 

Sua esposa, pensando que ele tinha ido para o trabalho, pegou a galinha mais gorda do terreiro, matou, preparou e quando já ia comer, uma das sementes da fava mágica gritou do canto da casa: 

_ "Já vai começar..."

A outra, no canto oposto, também falando, emendou: 

_ "... a comer..."

E na sequência mais uma fava disse alto: 

_ "...quando o marido..."

E finalmente a quarta fava:

_ "... vai trabalhar!"

O homem ouvindo a denúncia das favas falantes voltou para casa e pegou a mulher falsa "com a boca na botija", zangando com ela e pondo um fim naquela atitude deplorável.


Favas brancas e nas quadrículas, um prato de favas cozidas
e uma vagem aberta mostrando os grãos.

Referência Bibliográfica

CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas da magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p. p. 83-4. 


Notas e Créditos
* Obs.: "com a boca na botija" - expressão popular que significa surpreender, pegar em flagrante. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotos: Iago C.S. Passarelli
*** Informante do conto: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 2001. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Festa de Santa Luzia





Em São João del-Rei, na Igreja de São Gonçalo Garcia, acontece a Festa de Santa Luzia. Acompanhe nas fotografias abaixo, algumas imagens do Dia Maior.

Missa de Santa Luzia. 
                                   
Devotos tocam na imagem e passam os dedos sobre os olhos.

Saída da procissão. Da torre cai papel picotado e pétalas de flores. 

Banda Municipal Santa Cecília toca um dobrado na saída da procissão.

Devota com vela acesa acompanha a procissão.
           
Procissão em marcha pela Avenida Nossa Senhora do Pilar. 
Da torre sineira ecoa o som do bronze anunciando o festejo a toda a cidade. 
   
Diácono Permanente Ademir Noel, cuja presença agradou a todos pela eloquência, simpatia e dedicação.


Notas e Créditos

* Fotos: Iago C.S. Passarelli, 13/12/2013
** Texto: Ulisses Passarelli, 14/12/2013
*** Para saber mais sobre as tradições populares acerca desta santa ver a obra: 
COSTA, Gutemberg. Santa Luzia e os Olhos: da religiosidade ao folclore. Mossoró: Boágua, 1997. 124p. 
(por uma especial gentileza do autor, várias informações sobre a devoção a Santa Luzia da Mesorregião Campo das Vertentes foram incluídas). 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Vila Santa Terezinha

A pesquisa histórica é profundamente dinâmica e conforme caminha vai preenchendo lacunas. A Vila Santa Terezinha, por exemplo, inclusa no Grande Matosinhos, é uma designação que se acreditava surgida junto com a igreja daquele lugar, por volta de 1945. Contudo, mostra o texto abaixo, transcrito do extinto jornal são-joanense Folha Nova, em sua edição nº7, de 17/04/1932, revela o real surgimento do bairro:

"O nosso amigo sr. Jesus Silva dividiu em lotes uma grande faixa de terreno em Chagas Dória, constituindo a Vila Santa Terezinha
A demarcação dos lotes foi confiada ao topógrafo-arquiteto Rossino Bacarini, que demarcou a Vila com três praças, oito ruas e quatro avenidas. 
A Vila Santa Terezinha tem água, luz, esgoto e ônibus. 
A planta do novo subúrbio será exposta dentro de dias, principiando então a venda de terrenos." 

Jesus Silva nomina uma rua estreita nos fundos do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, interligando as duas principais artérias de trânsito do bairro. Rossino Baccarini, migrante italiano, é um nome assaz conhecido na história da cidade, ligado à construção do coreto municipal e da capela da Santa Casa, duas belíssimas obras arquitetônicas de nosso patrimônio. Sua competência fica clara no plano deste loteamento, pela preocupação de multiplicidade de praças e vias. Também dá nome a uma rua, porém no Bairro Tijuco, beirando a margem esquerda do Córrego do Lenheiro.


Notas e Créditos

* Texto e fotomontagem: Ulisses Passarelli
** Para saber mais notícias sobre o crescimento urbano de Matosinhos acesse o link seguinte:  Arruamento 

Santa Luzia: olhai por nós!

Treze de dezembro chegou. O povo devoto se lembra nesse dia da iluminada protetora da visão, a guardiã dos olhos, virgem e mártir, Santa Luzia. 

Temos em São João del-Rei uma festa dedicada a ela, na Igreja de São Gonçalo Garcia, cuja Episcopal Arquiconfraria cuida da organização. É antecedida por tríduo. Missa e bênção do Santíssimo Sacramento completam o cerimonial. Na procissão a Banda Municipal Santa Cecília cuida de forma impecável da parte musical, sob a competente batuta do regente José Antônio da Costa. 

Ao observador chama em especial a atenção o ritual dos devotos à entrada do referido templo: a bela imagem, posta logo na entrada, é saudada por cada fiel que chega para a celebração, que lhe toca com os dedos nos olhos postos na salva em sua mão e a seguir passam esses dedos sobre seus próprios olhos, transferindo a bênção para o corpo. É uma crença inabalável na proteção da gloriosa taumaturga sobre a saúde visual. 

A mais de quinze anos registrei num texto (lincado no final desta postagem), escrito para o boletim informativo da Comissão Mineira de Folclore, algumas benzeções e preces envolvendo-a, coligidas de populares em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, e ainda, as tradições acerca da folia de Santa Luzia, que existiu em nosso distrito de São Gonçalo do Amarante, recolhendo donativos para a capela da santa no povoado da Boa Vista, já no vizinho município de Conceição da Barra de Minas, emancipado de São João del-Rei em 1962. O responsável pela folia (folião) era "Dinho do Zé Coqueiro" e o mestre de cantorias (embaixador) era o prezado "Vavá" (Lourival Amâncio de Paula). 

Além da festa da Boa Vista na região também merece destaque a do povoado de Olhos d'Água, junto à BR-383, com capela própria, da qual Santa Luzia é orago, inclusa na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Coronel Xavier Chaves. 

Imagem de Santa Luzia da Igreja de São Gonçalo Garcia, São João del-Rei/MG, 
exposta à veneração dos fiéis no presbitério durante o tríduo. 2013. 

Detalhe da salva, vendo-se a escultura representativa dos dois olhos, 
objeto de um ritual protetivo por parte dos fiéis.

Programa da Festa de Santa Luzia de 2013 em São João del-Rei/MG, 
Igreja de São Gonçalo Garcia.
 Impresso em papel-couché, 15 x 21cm. 


Capela de Santa Luzia, povoado da Boa Vista (Conceição da Barra de Minas/MG), 1997. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
** Sobre as tradições acerca desta santa leia também: Santa Luzia passou por aqui...