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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 22 de março de 2014

O Tatu Assombrado de Nova Cruz

As estórias que o povo conta são muitas vezes educativas. Não é só entretenimento. É orientação, regra, normatização de conduta social e moral. Os tabus, os preceitos, as restrições, ganham memória e força, senão mesmo saem da abstração para a credibilidade sob a forma de narrativas populares. As velhas lendas, contos, causos e mitos passaram por gerações de boca em boca, desde os antigos, ensinando e consolidando um código de posturas informal mas respeitadíssimo. Essas estórias justificam as proibições que não constam nas leis civis. É pelo exemplo que lhe dão a certeza da necessidade do cumprimento.

A tradição cosmopolita dos lugares assombrados, forma uma espécie de área de reserva, um espaço de restrição para se frequentar, plantar, garimpar, coletar, caçar ou pescar. Lugares sagrados ou misteriosos tem esse quê de mistério e em torno deles ou por eles, se constrói uma literatura popular.  

Neste contexto se passa o causo que ora se apresenta.

*  *  *

Na localidade de Nova Cruz, não muito longe dos Fagundes, no município de Antônio Carlos, saíram numa pescaria. Foram para um lugar que tinha fama de assombrado, mas não deram muito crédito e enfim, o dia parecia tão comum... 

Alguns homens montaram nos seus cavalos e foram pescar. Amarraram os animais na beira d'uma capoeira [1], pegaram a trilha no meio do mato e foram até um ribeirão que passava mais embaixo. Nada pescaram, nenhum peixe. 

De repente, já desanimados com a má pescaria, surgiu um grande tatu [2], muito manso, olhando para eles e fazendo sons como chiados. Largaram as varas de pesca, pegaram paus e quiseram matar o bicho, afinal, se não o pescado, ao menos uma caça levariam para não perder a viagem. 

Deram pauladas nele mas não conseguiam acertá-lo, apesar de serem certeiras na sua direção e da incrível proximidade, a apenas um passo, o tatu desviava do golpe e sumia da frente deles. 

Viram que se tratava de uma invisão [3] e ficaram apavorados. Foram embora. Quando chegaram do outro lado do mato, onde haviam amarrado as montarias, lá estava o estranho tatu esperando eles, da mesma forma. 

Mais uma vez deram de porrete no bicho, enfurecidos, batendo em seguida, mas a empreitada foi inútil... Tão misteriosamente quanto aparecera sumiu como que por encanto e os pescadores apavorados partiram às pressas, pois enfim entenderam que ali era um lugar de respeito.

Tatu em cerâmica (cofre). Vale do Jequitinhonha/MG. 

Tatu em pedra-sabão. Congonhas/MG.  

Tatu em papel-maché. Tiradentes/MG. 

Tatu em madeira. São João del-Rei/MG. 

Tatu em madeira. Prados/MG. 
Notas e Créditos

[1] - Capoeira: pequena floresta, mata, capão.
[2] - Tatu: mamíferos da ordem cingulata, família dasypodidae, restritos ao continente americano.
[3] - Invisão: termo popular - visão de um espectro, fantasma, assombro.

* Texto e acervo de peças artesanais: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 08/09/1999.

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