Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 29 de junho de 2014

Tico-tico: passarinho atrevido

Um pequeno pássaro emberizídeo, batizado por onomatopeia "tico-tico", Zonotrichia capensis, de vasta distribuição geográfica no país, goza de grande popularidade. Nos currais, sempre frequenta o cocho de tratar das vacas, na cata de farelos; as hortas, as beiras de silos, ao redor de moinhos, os pastos são seus locais prediletos.

Tico-tico na Serra de São José.

Na cultura popular ganhou fama de atrevido, topetudo, talvez por sua valentia de investir contra aves bem maiores na defesa de seu ninho. Essa característica ficou registrada num canto de mutirão coligido no povoado da Restinga (Ritápolis/MG):

Êh... tico-tico,
ai, que bicho atrevido!
Trepa no pau,
vê o mundo como vira ... ah-êêê!

No linguajar congadeiro o seu atrevimento é comparado ao do capitão rival, aquele que não sabe respeitar a individualidade do outro grupo, os limites do equilíbrio entre as guardas na festa. Daí surge uma demanda e o verso vem provocador: 

Eu tenho minha saia, 
de renda de bico, 
apanha laranja
no chão tico-tico!

Seu ninho com frequência é parasitado pelo pássaro icterídeo Molothrus bonariensis, oportunista que deixa ali seu ovos para o pequeno tico cuidar dos filhos adotivos. Molothrus tem muitos nomes populares que variam conforme a região: curro-curro, chupim, mestiço, vira-bosta, gaudério, dentre outros. Desse detalhe há uma expressão coloquial nas Vertentes: "não estou para criar filhos dos outros igual tico-tico" ou "não sou tico-tico para criar filhote de curro-curro...", uma referência desdenhosa à criação de filhos adotivos. 

O passarinho povoa também quadrinhas populares avulsas, do imenso refraneiro, que corre nas Vertentes de Minas, como as quadras paralelísticas expostas a seguir, coletadas em São João del-Rei:

Tico-tico veio de Minas,
calçadinho de botina,
sabiá respondeu,
sai daqui, canela fina.

Tico-tico veio de Minas,
calçadinho de espora,
com a calcinha remendada
e a bundinha de fora.

Há uma fábula por aqui corrente, que ouvi no Bairro São Dimas, nesta cidade, que narra o seguinte: o gavião, rapineiro incorrigível, pelejava para pegar o tico-tico. Toda vez que investia velozmente em voo a pique, o pequeno tico-tico negaceava um esvoaçar para um lado ou outro, com muita habilidade e rapidez, e fugia sempre das garras mortais. O gavião foi desanimando. Pensou numa estratégia e pôs em prática: se fizesse amizade com o pássaro, sem demonstrar agressividade, conquistaria sua confiança e assim, podendo chegar bem perto, daria o golpe fatal. Foi chegando de longe, falando à distância, que nunca mais ia tentar pegá-lo, que estava arrependido, que tinha mudado o jeito de ser, que agora só queria amizade com ele... O tico-tico, muito desconfiado, permitiu a aproximação para observar o verdadeiro comportamento do perseguidor. O gavião, muito dissimulado, veio com uma "conversa mole" (*) de aprender com o tico aquelas voadas repentinas, escapadas extraordinárias para os lados, para frente, de ré, de todo jeito pois tinha muitos inimigos maiores e poderia ser útil. O tico-tico sempre "com um pé atrás" (**) ensinou alguma coisa, meio por fora, meio de perto, mas nunca com perfeição e jamais ensinou tudo o que sabia. Correram as aulas. O gavião muito atento era bom aluno, aprendia tudo rápido. Afoito, certo dia achou que já sabia o bastante para matar o tico-tico com os próprios ensinamentos dele. Começou a buscar a ocasião propícia. Foi então que um dia, viu-o empoleirado num galho comprido e retilíneo, dormindo. Não poderia ter hora melhor. Veio num voo ágil e rasante pensando em dar uma reviravolta bem cima dele. Mas não percebeu a tempo, senão em cima da hora, que o pequeno professor estava com um olho aberto. Foi o que salvou o tico. Ele deu uma cambalhota para baixo do galho e o gavião passou direto, embaraçando na ramaria até arrancar um monte de penas. O pássaro voou para um cipoal seguro e de longe o gavião, muito sem graça, gritou para ele: 

_ Uai, amigo tico-tico! Nunca vi ninguém dormir assim, com um olho aberto...
_ É... gavião, quando o amigo não é certo, um olho fechado outro aberto... 

E fugiu para outra região distante.

Notas e Créditos


* Conversa mole: expressão popular - assunto bobo, cujo real interesse está oculto
** Com um pé atrás: expressão popular - com desconfiança.
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Foto: Iago C.S. Passarelli, 29/06/2014
***** Informantes: mutirão, Ernane Luís da Silva, Restinga do Meio (Ritápolis-MG), 23/09/1998; congado, Raimundo Camilo, São João del-Rei, Bairro São Dimas, 2002; quadras, Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro,1992; fábula, Luís Santana, São João del-Rei, Bairro São Dimas, 1998.

Nenhum comentário:

Postar um comentário