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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 9 de julho de 2014

Quadrinhas de amor - parte 2

Poesia singela, em estrofes de quatro versos. É o que ora se apresenta. A veia poética popular revela a intensidade do sentimento, o carinho, o desejo, mas não extravasa explicitamente a sexualidade. As trovas de base folclórica repisam desilusões amorosas, sinais de carinho, idílios, esperanças de receber atenção de um bem-querer. 

As jovens estudantes até a primeira metade dos anos noventa usavam escrever no cabeçalho de cada folha do caderno de matérias da escola, uma trova do tipo das que aqui se apresentam, ou até mesmo, compor cadernos inteiros só de quadras de amor. É a fonte de boa parte dessa coleção fragmentada neste blog. 

Prosseguindo a divulgação segue mais cinquenta exemplares, coletados na década de 1990 de diversas informantes em Santa Cruz de Minas. As notas de rodapé trazem comentários complementares e um link para acessar a primeira edição da coletânea, cujos comentários introdutórios são de leitura indispensável à compreensão do conjunto. 

*  *  *

A roseira dá a rosa,
No Dia dos Namorados
A rosa dá o botão;
Mandei-te um verso, meu bem,
Eu te dei o meu amor
Mas se pudesse mandaria
Pra ganhar seu coração.
O universo também.


Eu queria ser um barquinho,
Acabou-se o prazer, 
Para atravessar o oceano
Foram desfeitos nossos laços.
E dizer-te bem baixinho,
E agora, como fico,
Ai! Como te amo!
Longe dos teus abraços?


Você disse que me ama,
Vai, cartinha amorosa, [1]
Amor não é assim;
Vai por este mundo sem fim,
Batendo papo com os outros,
Vai dizer aquela ingrata
Fazendo ciúme em mim ...
Que nunca esqueça de mim.


Com os olhos eu te vi,
Dizem que o beijo é venenoso,
Com meu sorriso eu te amei,
Que até pode matar.
Com uma lágrima te deixei,
Prefiro morrer envenenada
Mas nunca te esquecerei.
Do que ficar sem beijar.


O rei nasceu para o trono,
O alecrim pra ser cheiroso,
Os peixinhos para o m ar,
Tem que ser amassado,
As estrelas para o céu,
O beijo pra ser gostoso,
Eu para te amar.
Tem que ser demorado.


Tudo na vida acontece,
Eu vou colocar
Tudo na vida tem fim,
Seu retrato no chiqueiro
Só uma coisa te peço,
Pra quando tratar dos porcos
nunca se esqueça de mim.
Tratar de você primeiro...


Não jogue
Na janela do meu quarto
A casca da laranja fora,
Corre água sem chover,
Porque ainda tenho esperança
São as lágrimas dos meus olhos,
De chamar sua mãe de sogra.
Que rolam por não te ver.


A lua tá muito alta, [2]
O sol tá muito alto,
Tá perto de ver a Deus,
Já bateu na ferradura,
Esses seus olhos, menino,
Esse teu amor, menino,
Tá perto de ver os meus.
Tá me fazendo ternura.


Menino, esses teus olhos,[3]
Menino, esses teus olhos,
São dois navios brilhantes,
Pode mais que do que justiça,
De dia é duas tochas,
Os teus olhos me prendeu,
De noite, dois diamantes.
Domingo, depois da missa.


Bota fogo na fundanga[4],
Ajuntei com a saudade,
Tira esse mal de mim;
entrei junto num  balão,
Numa fumaça que sobe
Suspiro por ser pequeno
Traz meu amor pra mim. 
Arrematou meu coração.


Suspiro com a saudade
Suspiro com a saudade,[5]
Plantei junto num canteiro,
Foi lá em casa passear,
Suspiro facilitou,
Suspiro demorou,
Saudade nasceu primeiro.[6]
Saudade tá pra chegar.


O marmelo é boa fruta[7]
Comprei  papel na loja,
Enquanto não apodrece,
Pintei com tinta de tesouro;
O amor é muito bom
Não há dinheiro que pague,
Enquanto não aborrece.
Duas horas de namoro.


Meu amor, não veste preto,
Subi na bananeira,
Preto é luto fechado.
Balancei pra lá, pra cá. [8]
Deixa o preto para mim,
Tive com meu bem nos braços
Que sou triste, apaixonado.
Mas não pude aproveitar.


Adeus, joazeiro verde,
Balança que pesa ouro, [9]
Aonde o sol é vertente;
Não pode pesar marfim,
Adeus, boquinha de cravo,
Se você namora outra,
Coração de muita gente ...
Seu amor não servirá pra mim.


Tenho fome, tenho sede,
Quando te olhei,
Não é de pão, não é de vinho,
Teu olhar me fascinou,
Tenho fome do teu abraço,
Logo me apaixonei,
E sede dos teus carinhos.
Quando você me beijou.


Breve foi,
Perto da minha janela,
Breve serei,
Tem um pé de amora,
Mas de você,
Tenho esperança de ainda
Nunca esquecerei.

Chamar sua mãe de sogra.
Dizem que o beijo
Lutei a vida inteira,
É um pecado horroroso,
Para ficar com meu bem,
Óh, meu Deus!
Mas depois fiquei sabendo,
Que pecado gostoso!
Que ele gostava de outro alguém.


A flor do mato cai,
Te amei no passado,
No frio e no calor,
Te amo no presente;
Eu também quero cair,
Se o futuro permitir,
Nos braços do teu amor.
Te amarei eternamente.


Não me dê flor amarela,
A cigarra quando canta
Que não estou desesperada,
É prenuncia de calor,
Me dê flor rosa,
Meu coração quando suspira
Que estou apaixonada. [10]
É falta de teu amor.


Quero te amar sinceramente,
A sete chave
Não pretendo te enganar,
Partia meu coração,
Só espero que não ponhas,
Mas um dia destravada,
Outra em meu lugar.
Deixei-a nas tuas mãos.


Não quero caneta,
Não quero mais amar,
Nem lápis de marfim;
Pois faz a gente sofrer.
Só quero saber mesmo,
Aquele que a gente ama
Se você gosta de mim.
Não sabe agradecer.


Só porque está resfriado
O coração é malvado,
Me recusa um beijinho,
Só faz aquilo que senti;
Vá, não seja malvado,
Só faz a gente gostar,
Me transmita um microbinho...
De quem não gosta da gente.


Entre as flores fui nascida,
Me dê a chave do seu coração,
Entre as folhas fui criada,
Quero abrir, quero entrar,
Numa noite iluminada,
Para ver se lá tem alguém,
Por seus lábios fui beijada.
Invadindo meu lugar...


Não quero falar contigo,
Na horta da minha sogra
Juro a todo momento;
Tem um pé de alecrim.
Mas quando chego perto de ti,
O alecrim nasceu pra ela,
Esqueço meu juramento.
O filho dela nasceu pra mim.


Eu queria ser um copo,
Palpei meu lado esquerdo
Um copo eu queria ser,
Não achei meu coração;
Para beijar sua boca,
De repente, me lembrei,
Quando água for beber.
Que estava em tuas mãos.


* Texto: Ulisses Passarelli
** Agradecimentos especiais pela inestimável ajuda na coleta a Cida Salles.
*** Veja também a primeira parte desta postagem: QUADRINHAS DE AMOR - parte 1 



[1] - Quadrinha na qual o enunciado parte de um homem, exceção nesta coleção.
[2] - Esta trova faz par com a seguinte, “o sol tá muito alto”. Versos paralelísticos.
[3] - Verso-feito, difundido.
[4] - Fundanga, ou fundenga: pólvora, na terminologia dos terreiros religiosos de matriz africana nesta região. Esta trova prende-se ao ritual de queimar um pouco de pólvora para tirar da pessoa males espirituais, tais como demandas com inimigos, inveja, mau-olhado. Registra fielmente o momento que o pedido desejado tem mais força.
[5] - Verso-feito.
[6] - Noção-feita. Os caxambuzeiros de Santo Antônio de Pádua/RJ, cantam este ponto: “O galo mais o pintinho, / dormiu junto no poleiro; / o galo facilitou, / o pinto piou primeiro.”, referência ao cantador novato, que se atreve a cantar antes do mestre.
[7] - Verso-feito. Exemplo, da mesma origem: “O marmelo é boa fruta, / que dá na ponta da vara / quem ama mulher casada / não tem vergonha na cara.”
[8] - Verso-feito. Exemplo, canto do congo de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei, déc.1990): “Cheguei na porta da igreja, / balancei pra lá, pra cá, / eu vi Nossa Senhora / em pezinha no altar.”
[9] - Verso-feito. Exemplo no congado, canto de catupé de São João del-Rei, Capitão Luís Santana, Bairro São Dimas, 1993: “Minha peneira que coa, que coa, / é peneirinha de indaiá, / ai, balança que pesa ouro, / não pode pesar metá...” (metal). Outro: “Ai, Joventina, / filha de seu Juvenal, / é hora de tirar leite, / que o bezerro quer mamar / balança que pesa ouro / não pesa qualquer metal...” (Boi de Reis, parte da toada do Baile da Masseira; São Gonçalo do Amarante/RN, 1997).
[10] - Interessante referência à simbologia das cores. 

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