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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Chá da horta, o remédio de todo dia

O povo usa como processo empírico de cura, um número imenso de vegetais sob a forma de chás (decocção), infusões, esfregaço, unguentos ... Homens se especializam na identificação das espécies medicinais. São os raizeiros, extratores de raízes curativas, coletores de folhas medicinais, sementes e cascas capazes de aliviar um mal, buscando no mato, pelos cerrados e florestas. Mas há também o hábito de plantar no quintal algumas espécies, por assim dizer domesticadas, tais como marcela, erva-cidreira, losna, pariparoba, confrei e outras.  Uma farmácia na horta. 

Este saber no país mescla influências das nossas grandes etnias formadoras e se transmite por várias gerações através da oralidade. Ainda achamos nos recônditos povoados senhoras que afirmam ter criado os filhos só com o chá da horta, as ervas do mato, sem tê-los levado ao médico. Certamente que não recomendamos semelhante prática, sempre temerosa, inclusive pelo risco de usar plantas desconhecidas, vegetais tóxicos ou confundir espécies. Não é aconselhado o uso das plantas aqui citadas guiando-se apenas pelas informações escritas ou fotografias pelos eventuais riscos à saúde. 

Contudo, o indicativo de uso popular deve ser coligido com atenção e merece cuidado e estudo pois já tem revelado para a ciência farmacológica importantes princípios ativos hoje usados na homeopatia e alopatia, com exploração industrial.

Em todas as regiões nacionais reside este costume tão arraigado. Esta página, além de citações eventuais, já dedicou duas postagens ao tema: Remédios de Macaia e Remédios do Zé Maria

Para exemplificar e prosseguir no registro desta tradição popular, segue uma breve lista de algumas receitas populares regionais, a título de registro etnográfico.

Chapéu de couro: infusão das folhas para problemas renais.

Língua de tucano: fervura com uma pitada de sal de cozinha, em gargarejo contra amigdalite.

Carqueja: chá ou esfregaço em água para combater má digestão. 

01- Expectorante (para aliviar peito cheio e tirar catarro sanguinolento): ferver junto cardo-santo, melão de São Caetano, chá-cravo (= alfavaca), um limão partido em cruz e 3 brotos de assa-peixe. Beber pouco a pouco, por vários dias [1].

02- Dor de dente: mastigar raiz do carapiá (caá-piá) sobre o dente afetado [2].

03- Para os rins (contra cistite, retenção urinária, dor no ato da micção): chá de folha de abacate [3].

04- Para abaixar pressão: tomar diariamente chá de folha de chuchu com broto de ameixa amarela (= nêspera).

05- Contra gripe: chá de folha de amora vermelha com limão rosa (= limão cravo ou limão capeta).

06- Contra sarampo e contra tosse: chá de flores de sabugueiro.

07- Contra tosse e falta de expectoração: fervura de flores de barbácia com leite, tomando bem quente.

08- Contra friagem de estômago: tomar morno chá de erva são joão (a planta inteira).

09- Contra dor de estômago e azias frequentes: macerar flores de capuchinho (= flor de chagas) e beber com leite.

10- Contra gripe: chás de elevante (= alevante; branco ou roxo) ou de erva-terrestre (= erva-pedestre)[4].

11- Contra cólicas digestivas e gases: chás de poejo (branco ou roxo), manjerona, funcho, erva-doce (= canelinha), manjericão (branco e roxo).

12- Contra problemas cardíacos e hipertensão: chás de milindro e manjericão roxo.

13- Inflamações uterinas e das vias urinárias: pedaços do caule de cervejinha do campo, em infusão num copo de água, bebendo-se por nove dias [5]. 

14- Contra resfriado: “leite queimado” – açúcar caramelado ao fogo num canecão, sobre o qual se despeja leite, deixando-se ferver, quando então se adiciona três folhas de alfavaca e uma pitada de canela em pó. Beber bem quente e não apanhar friagem de jeito nenhum senão “estopora” (sofre choque térmico) [6]. 

15- Contra feridas: chá com treze flores de capuchicho (= flor de chagas)

16- Para os rins: ferver raiz anil do campo (= conta roxa) [7].

17- Para curar feridas de pele: tomar com parcimônia e fervura de folhas de muchoco com caroba. O mesmo preparo serve para se banhar as feridas.

18- Contra contusões e torções: raiz de gelol ou vique em preparado alcóolico tem o mesmo valor da arnica e da cânfora nas dores musculares. (Leva o nome de produtos farmacêuticos comerciais, devido à semelhança do cheiro. Tem duas variedades, distinguíveis pela cor das flores, brancas ou rosas);

19- Anti-anêmico: quina-cruzeiro (= quina de barranco): por a raiz no vinho branco e curtir por três dias. Tomar um cálice por dia.

20- Contra malária: beber infusão de casca de quina rosa.

21- Para os rins: raiz de jurubeba do cupim (= velame do cupim ou velaminho). Usado da mesma forma que a quina-cruzeiro.

22- Dores de estômago: bardana. Cortar pedaços da folha e mergulhá-las em um copo de água – ir tomando aos poucos e completando o volume da água. 

23- Para os rins: bunda de mucama - comer as folhas em forma de salada.

24- Pneumonia: fumo bravo fervido, que também serve de expectorante.

25- Para gripe: fervura de geribão (ou gervão).

26- Para os rins: jurubeba de árvore – infusão em água da fruta é usada para problemas renais sob forma diluidíssima por ser tóxica.

27- Para doenças uterinas: artimijo (corruptela de artemísia), fervido.

28- Distúrbios menstruais e disenteria de animais: fervura de raiz preta.

29- Cólicas: ferve-se agoniada (toda a planta).

30- Problemas renais: chás de conta de lágrimas de Nossa Senhora e de cabelo de milho.

31- Assa-peixe: seu broto junto com a raiz do geribão, fervido e adoçado, serve para dor torácica;[8]

32- Goiaba: a folha fervida controla diarreia;

33- Sabão-gentio: lavar a cabeça com uma fervura de suas folhas combate a caspa (usar morno);

34- Uva do mato: tomada morna e sem açúcar tem função sobre os rins;

35- Jurubeba do cupim: abre apetite. Colocá-la de molho numa garrafa de vinho branco e depois de curtido tomar uma colher das de sopa antes das refeições;

36- Carne de vaca: suas folhas servem em banho morno para aliviar as varizes altas;

37- Insulina de folha: combate o diabetes, tomando-se frio, um pouco por vez, sempre pela manhã;

38- Cipó-sete-sangrias: regula pressão arterial tomado frio. Em alta dose é calmante;

39- Muchoco: sua casca usa-se em banho para curar feridas (uso morno);

40- Murici do campo: para urina solta e criança que urina na cama. Tomar frio e sem açúcar;

41- Garça do brejo: para reumatismo (flor e folhas). Após cozimento e acréscimo de sal, aplica-se como compressa quente sobre o local afetado;

42- Paliatária ou paretária: diurético (usado frio). Também serve para o fim da menstruação (frio e sem açúcar);

43- Congonha douradinha: diurético (fria e adoçada) e para resfriado fazendo suar (ingerida quente, estando o doente sob as cobertas);

44- Arnica: posta dentro da pinga ou de álcool, serve para aliviar contusões;

45- Cipó-prata / Cipó-cabeludo / Congonha-de-bugre (ou Congonha-bugre): ferver os três juntos, coar e tomar frio para problemas renais e de vias urinárias;

46- Cipó de São João: para dores musculares, fervido com sal. Banhar quente o local da mialgia.

Cânfora ou alcanfor ("arcanfô", pronuncia o povo): extrato alcoólico para esfregaço contra contusões. 

Alevante ou elevante: chás para gripes e prostrações. 

Cervejinha do campo: deixada de molho na água, é usada para inflamações urinárias. 

Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Informantes:

[1] - Dalvina Maria de Jesus (“Vina”), Santa Cruz de Minas, 2009. 
[2] - Maria José da Silva Nascimento, Brumado de Cima (São João del-Rei, 2012).
[3] - (receitas 03 a 09): Elvira Andrade de Salles (Santa Cruz de Minas, 21/09/1996).
[4] - (receitas 10 a 12): Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1996.
[5] - Carlos Lúcio Pereira, São João del-Rei, 2005.
[6] - (receitas 14 e 15): Aluísio dos Santos, Bairro Centro, São João del-Rei, 1991.
[7] - (receitas 16 a 30): Luís Pereira dos Santos, 2005, Povoado da Candonga (Tiradentes).
[8] - (receitas 31 a 46): Luís Antônio Sacramento Miranda, Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei, 2005. Por sua vez, colheu as informações de José Cipriano Neto. 

Este blog agradece a todos os informantes a gentileza deste conteúdo cedido. 

2 comentários:

  1. preciso da planta medicinal chamada cervejinha do campo, vocês vedem?
    como faço para encontrar?

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  2. como encontrar esta planta?
    cervejinha do campo?

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