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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Aldeia Africana

Ofereço a José Cláudio Henriques, incansável estudioso da história de Matosinhos
Agradeço a Arthur Cláudio da Costa Moreira, pelo apoio à pesquisa



Setenta e sete anos atrás um novo bloco desfilava em São João del-Rei, sob o enfático nome de "Aldeia Africana". Fora criado pelo folião de momo "Zé da Igrejinha", em Matosinhos e lamentavelmente a história não lhe registrou detalhes para a posteridade, tão pouco o próprio nome de batismo de nosso protagonista.

Seja como for, o Zé da Igrejinha já era um carnavalesco conhecido e antes tinha o Bloco do Tatu, de que este blog já se ocupou, e que se pode ver em foto abaixo, datada de 1937(*), na qual ele aparece bem ao centro, sentado, tocando sanfona.

Bloco do Tatu em 1937, na Vila Santa Teresinha. 

No ano de 1938, Zé da Igrejinha fundou uma nova agremiação carnavalesca que buscava valorizar valores da negritude no carnaval da cidade. Até o momento não veio a lume fotografia de época desse bloco ou maiores detalhes descritivos para avaliar o que de fato trouxe às ruas. Mas a modesta notícia jornalística abaixo, publicada nesta cidade, pode trazer algumas pistas:


"Aldeia Africana. É mais um rancho que se filia á galeria dos novos. Surgiu bem disposto na arena dos peleadores, trazido pelas mãos desse esforçado folião, o Zé da Igrejinha.
Ao aprecial-o é mister levar em conta o esforço de seu creador, que vencendo obices de toda sorte, veio do antigo 'Capão da Traição'  para mostrar que mesmo lá é sempre fiel aos seus impulsos carnavalescos, fazendo por isso questão de apresentar a sua parceirada em forma, empunhando cantaros e lanças precedidos de uma porta bandeira do barulho e escoltada por um chôro daquelle geito. 
Agradou." 

Notícia jornalística d'Aldeia Africana.

O jornalista previne o leitor para considerar as dificuldades enfrentadas para por o grupo à rua, mas diz que o desfile agradou. Na notícia, Matosinhos surge entre aspas com a alcunha de "antigo Capão da Traição", fruto da ideia equivocada mas então em voga, que o mais sangrento episódio da Guerra dos Emboabas, conhecido sob este nome, teria acontecido nesse bairro. 

A porta-bandeira era "do barulho" e um coro de vozes fazia acompanhamento, sob a forma de "um choro daquele jeito". Está aqui insinuada a musicalidade e a ginga que herdamos do africano, que tanto engrandece a cultura nacional. 

A citação específica à presença de cântaros e lanças evoca de imediato valores africanos. Os cântaros ou potes cerâmicos, são muito usados no cerimonial dos terreiros de religião de matriz africana, as quartinhas, contendo água perfumada com ervas votivas próprias de cada orixá, concentrando o axé; jarras cheias desse preparo perfumoso com que se lavam as escadarias de algumas igrejas, a mais clássica de todas, a do Bonfim na capital baiana. No passado houve mesmo, em Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e donde se trouxe também ao Rio de Janeiro, um préstito de mulheres afro-descendentes chamadas originalmente "talheiras", porque traziam à cabeça no ato do desfile, talhas ou potes de barro, com seus líquidos preparados. As talhas ao longo dos anos foram abandonadas. Logo o nome foi corrompido para "taieiras" e tiveram sua importância como matriz das agremiações do final do século XIX (**).

Quanto às lanças parece que Zé da Igrejinha quisesse simbolizar alegoricamente elementos tribais e não é possível resistir à tentação muito forte de rememorar o desfile carioca (embora os houvesse também em Salvador, donde possivelmente procedem) dos cucumbis ou quicumbis, espécie de congados, digamos assim por questão didática de mera assimilação. Eram grupos formados por negros que também difundiam valores culturais africanos no carnaval oitocentista e entre seus vários grupos no Rio de Janeiro à época da abolição, havia um cujo nome de batismo era "Lanceiros Cucumbis". Em São João del-Rei a terminologia não é desconhecida, tanto que no Bairro das Fábricas no final do século XIX havia a Chácara do Quicumbi, entrecortada por um diminuto córrego homônimo, hoje quase sem água e perdido no escuro das galerias urbanas. Esta chácara foi desapropriada para dar lugar ao Cemitério Municipal, ainda hoje conhecido popularmente por "Cemitério do Quicumbi". 

É mera cogitação, leviana até, mas tentadora, ou provocadora de novas pesquisas: o que foi realmente essa Aldeia Africana? Um bloco ou rancho que figurasse na medida das possibilidades uma reprodução dos quicumbis e talheiras cariocas que acaso o Zé da Igrejinha tivesse conhecido? Ou nada disso, apenas coincidência de alegorias... Seja como for ele teve a coragem de naquela época afirmar publicamente seus valores étnico-culturais, deixando consignado que o carnaval também é do negro, que muito contribuiu para o momo. É bastante arrojada sua iniciativa numa época que se buscava o luxo dos desfiles e o que se tentava era imitar o carnaval carioca através de seus famosos clubes e cordões e buscar inspirações no glamouroso carnaval europeu.

Está claro que o elemento cultural evocador do africano estava vivo no carnaval daquela época. A mesma fonte jornalística nos diz que no mesmo ano saiu também às ruas da cidade o Bloco Esperança do Amor, do qual disse expressamente: 

"É outro iniciante que vem de alcançar satisfactorio successo. Pequeno, porem bem ensaiado, com jogos e evoluções interessantes, fazendo recordar o vilão, dança de origem africana, como a cuíca, usada pelos congadeiros, e agora trazida para o carnaval. Mereceu palmas, que o povo não lhe regateou."

Pelas curtas notas acima fica consignada a homenagem ao negro, que seja nesta terra seja em muitas outras, deixou e deixa seu imenso legado cultural para contribuir amplamente com a construção da identidade brasileira. 

Referência Hemerográfica

O Correio, n.595, 06/03/1938, São João del-Rei


Referência na Web

BRASIL, Eric. Cucumbis Carnavalescos: Áfricas, carnaval e abolição (Rio de Janeiro, década de 1880). In: Afro-Asia. 

Notas e Créditos

* Fotografia cedida gentilmente para reprodução pelo sr. Luís Pereira dos Santos, cujo pai e avô dele participaram do grupo. Autor não identificado. 
** Um dos últimos ou talvez o último grupo remanescente de taieira resiste em Laranjeiras/SE, agregado à Festa de São Benedito e Santos Reis, a 6 de janeiro. 
*** Texto e fotomontagem da nota de jornal: Ulisses Passarelli

3 comentários:

  1. Mais uma vez parabéns Ulisses. Segundo Zé Rodrigues já falecido me disse que o Zé da Igrejinha nasceu no Bairro São Geraldo e posterior a 1940 mudou-se para Vila Nova (atual Vila Santa Terezinha), local onde fundou o Bloco. Zé da Igrejinha também participava do Clube dos Quarenta. Abraços e agradecimentos de José Claudio Henriques.

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    1. Cláudio, obrigado pela visita e colaboração. É sempre bem vindo. Abç.cordial, Ulisses.

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  2. Parabéns, meu amigo!
    Sempre presenteando a cidade, o estado e o Brasil com suas pesquisas e histórias muito bem escritas!
    Abraços e que Deus te proteja!
    Miranda.

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