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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Jomba: outro tipo de moçambique

Um dos tipos mais conhecidos do congado mineiro é o moçambique, bastante divulgado no território estadual. Sua ocorrência é abundante desde a região do Triângulo, área central _ inclusive na zona metropolitana _ Campos das Vertentes, Oeste, Centro-oeste, Sul e Sudoeste de Minas Gerais. Eis a área principal. Fora esta, as ocorrências são mais pontuais. Mas o moçambique é também bastante conhecido em São Paulo, ou pelo menos sua modalidade "bate-paus", e o típico, em Goiás.

Mas assim como acontece com outros grupos da cultura popular de ampla ocorrência geográfica, o moçambique apresenta-se em diversas fisionomias conforme a região do estado. Então, quem assistir a um de Uberlândia e depois ver outro de Perdões, ou de Passos, ou de Ibertioga, se espantará com as diferenças. Conceitualmente, porém, todos são moçambiques.

O estudo da geografia dessas guardas é um trabalho de gigante, que demanda anos de pesquisas e viagens e que obviamente aqui está apenas tracejado.

Fato é que na Mesorregião Campos das Vertentes o tipo predominante é a "jomba", que relativamente tem bastante unidade estilística na área que ocorre, hoje mais reduzida, mas que já abrangeu a Microrregião de São João del-Rei e desta toma rumo oeste, até pelo menos arredores de Camacho. Rumores indicam que se esparramou em parte do sul mineiro, pelo menos aquelas mais influenciada pela cultura da zona contígua, mas não pude averiguar a veracidade. Informações verbais dão conta que no passado estes moçambiques já existiram em Lagoa Dourada, Resende Costa, Tiradentes, Ritápolis e Conceição da Barra de Minas, donde teriam desaparecido a várias décadas.

A jomba se diferencia do moçambique típico por alguns aspectos bem nítidos. O mais perceptível é o musical: ela não tem o vigor dos batidos firmes, pesados, típicos dos toques de serra-abaixo, serra-acima, marcha, angolano e indiano, ou o moçambique-liso do sudoeste mineiro, de repique contínuo, dentre outros, mas é uma marcação suave, de compasso mais lento, manhoso, quase arrastado, fazendo com que o dançante apenas balanceie o corpo em meneios cadenciados. Já por isto dizem, é "dança de negro velho": pouco acelerada, não se agita.

"Moçambiqueiro não pode correr,
não pode parar, não pode pular..."

E assim vão o dia todo. 

 Alguns grupos tem ritmo um pouco mais ligeiro, mas em geral há uma grande unidade musical. Outros, nos intervalos, introduzem toques de outros ritmos que chamam "moçambique-carijó", como com frequência vemos em São João del-Rei, ou marchas, à moda dos congos, como no grupo atual de Tiradentes. 

Outro diferencial são os instrumentos. Enquanto o moçambique típico se prende exclusivamente às caixas e pantagomes, além é claro das gungas (muitas...), na jomba, além destes, é permitida uma mescla: sanfona, puíta (cuíca) e urucungo (berimbau de barriga, mas sem percussão por varinha como na capoeira - um pano úmido é deslizado ritmadamente sobre a única corda, produzindo um gemido que faz par com o som da cuíca). Eventualmente violão e cavaquinho. O número de gungas é sempre menor que o moçambique típico e em algumas circunstâncias só o capitão usa; por vezes os guizos em jarreteiras substituem as gungas típicas. 

Em marcha pelas ruas a disposição espacial também muda. Não há a formação típica de duas filas de dançantes, ou, se há, ela vem desordenada. O grupo é adensado numa massa única, dançantes embolados, lado a lado e uns após os outros, o que gera a zombaria de outros congadeiros, que os grupos de jomba parecem enxame de abelha, tudo juntinho. Dançam assim mexendo os ombros, quase se esbarrando uns nos outros. 

A vestimenta é muito simples, quando muito a padronização da camiseta, ou um simples roupa branca. Alguns grupos usam casquetes, outros, chapéus. raramente turbantes ou lenços atados à cabeça, como é tão frequente ao moçambique típico. Outras vezes não tem qualquer tipo de cobertura na cabeça. É comum os capitães dançarem de paletó. 

A relação hierárquica com outros congados é mesma de prevalência dos moçambiques em geral, com a prerrogativa de levar a coroa e o andor. Mas observei diversas vezes que quando numa festa se encontram moçambiques típicos e jombas, os primeiros tem prioridade no cortejo. 

A cantoria da jomba é um eterno lamento. Chorosa, lembra bastante os cantos de trabalho, dos mutirões de capina de plantação e de roçada de pastos. Talvez por eles influenciada, tem um quê de mistério, ou antes de linguagem cifrada, sendo comum o capitão entoar versos pouco inteligíveis aos não iniciados ao universo do congado, muitas vezes querendo dizer algo, mas se fazendo entender por outra coisa. Daí um verso muito comum entre eles: "Eu falo jombê, você entende jombá..." A língua da jomba é quase um dialeto congadeiro: 

"Vovô pegou o machado
e foi no rio pescar;
vovó pegou o anzol
e foi a lenha cortar..."  

"Fala jombê!
Fala jombá!
Farinha na cuia,
nós vamos rezá..."

A cantoria perpassa os mesmos caminhos laudatórios dos outros congados, enaltecendo São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, além de relembrar fortemente os valores herdados do sofrimento do escravo e por fim, também recantando os valores espirituais da linha africana. 

"Que bom que acabou!
Que bom que acabou!
Dia treze de maio,
deu muito trabalho,
cativo acabou..."

"O vovô en'vém de Aruanda!
O vovô en'vém de Aruanda!"

"Nossa Senhora, 
mandou um recado,
festa do Rosário...
Me chamou! Me chamou! Me chamou!
Eu sou filho dela 
criado no congo, nhônhô,
eu vou! Eu vou! Eu vou!"

Uma peculiaridade é que os cantos, ou antes refrões são habitualmente compartilhados por vários grupos, variando apenas as estrofes improvisadas pelos capitães de acordo com o ditame da circunstância. 

"Puxa a serra, Maria!
Puxa a serra, Maria!
Que promessa pesada,
que a Maria fazia..."

"Vocês pensa que eu sou estrela,
estrela eu não sou não!
A estrela mora lá em cima
e eu moro aqui no chão...
eu vi ela caindo, 
ela me disse que não;
mais era a Nossa Senhora,
com seu rosário na mão!

Vou chegando, vou chegando, vou chegando..."

Uma outra peculiaridade é os capitães no ato de uma louvação tirarem o chapéu da cabeça e o trazerem junto ao peito, num gesto de humildade. De forma equivalente, dançante põe a mão espalmada sobre o peito. 

Na Mesorregião Oeste de Minas é comum os participantes das jombas serem trabalhadores das lavouras de café. Aliás, como observação prévia cuja confirmação demanda aprofundamento da pesquisa, evidencia-se uma forte ligação da cultura rural com o universo simbólico abordado pelas jombas, em suas cantorias moçambiqueiras. 


1- Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", Ibituruna/MG.
Participação na Festa do Rosário em Passa Tempo/MG, 18/10/2015. 

2- Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", Solar da Serra, São João del-Rei/MG.
Participação no 1º Encontro Congadeiros das Vertentes, São João del-Rei, 26/05/2013.

3- Moçambique "Kincongo", Nova Pedra Negra (Ijaci/MG).
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 08/06/2014.

4 - Moçambique "Nossa Senhora do Rosário", Santo Antônio do Amparo/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 08/06/2014. 

5- Moçambique "São Benedito e Santa Isabel", Santo Antônio do Amparo/MG.
Participação na Festa do Rosário em Passa Tempo/MG, 18/10/2015.  

6- Congado "Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia", Tiradentes/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes, 26/07/2015. 

7- Moçambique "Santa Efigênia", Santana do Jacaré/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes, 26/07/2015. 

8- Moçambique "Santa Efigênia", Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG.
Participação no 2º Encontro de Congados de Tiradentes, 26/07/2015.

9- Moçambique "Nossa Senhora do Rosário e São Benedito", Lavras/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 30/05/2004.   

10- Moçambique "São Benedito", Ribeirão Vermelho/MG.
Participação na Festa do Rosário em Ibituruna/MG, 30/06/2013.

11- Moçambique "Os Vergilhos", Bom Sucesso/MG.
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 24/05/2015.  
12- Moçambique "São Bernardo", Macaia (Bom Sucesso/MG).
Participação na Festa do Divino em São João del-Rei, 24/05/2015.   


Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Fotos: 1, 5 e 10, Ulisses Passarelli; 9, David Passarelli; demais fotografias, Iago C.S. Passarelli
*** Assista aos vídeos abaixo lincados: 

"Moçambique Santa Efigênia", Santa Cruz de Minas.

"Tradição de Congado Júlio Antônio e Cia.", Santo Antônio do Amparo.

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