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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 16 de janeiro de 2016

Alguns elementos tradicionais do antigo carnaval de São João del-Rei

Aspectos Folclóricos do Carnaval São-joanense [1]

Dentro da cultura popular, especificamente no chamado "folclore cíclico" é conhecido o CICLO CARNAVALESCO, com uma série de manifestações, costumes e aspectos que só são vistos nos dias de folia momesca (e nos que lhe antecedem imediatamente), inseridos num contexto bem mais amplo, popular não-folclórico. Ou seja: o carnaval é uma grande festa popular, com aspectos folclóricos e muitos não folclóricos.

Este artigo trata apenas do folclore carnavalesco com respeito a São João del-Rei, numa abordagem meramente descritiva: entrudo, zé pereira, índios, blocos de sujos, nêga maluca, boi, bonecas e caveiras.

1-Entrudo

Foi a expressão antiga do carnaval conhecida nesta cidade. Do latim, introito, entrada. Em 1879 “incumbiu-se de festejar este ano ao deus Momo (carnaval) a Sociedade Juvenil. A Rua Direita converteu-se em bosque e aí ao som da música, postada em palanque, se divertiram mascarados, distribuindo graças e flores”. Registro de Sebastião Cintra, com base no jornal “Arauto de Minas”, de fevereiro.

A expressão maior era a saudável batalha de água, perfumes, farinha e polvilho. Os foliões jogavam estes materiais entre si e nos transeuntes, com seringas de jogar água ou qualquer vasilhame, limões de cera contendo água perfumada e matéria feculosa, lambrecando os brincantes. A escola de samba carioca “Imperatriz Leopoldinense” lembrou-se do entrudo com versos assim:

“Oi, joga água, amor! Limão de cera!
Ôh, vale tudo nessa brincadeira!”

Herança portuguesa foi registrada no Brasil em começo do século XIX por Henry Koster em Pernambuco e Jean Baptiste Debret no Rio de Janeiro, mostrando ambos o trabalho dos servos carregando o material para servir aos senhores na sua lúdica, “nas senzalas e casas-grandes, nivelando amos e servos na alegria igualitária do entrudo”, segundo Câmara Cascudo, que opinou relembrar o carnaval as clássicas saturnálias, februálias, florais, festas orgiásticas assírias, medo-persas, babilônicas, dizendo que “nenhuma crônica grega superava essa explosão de vida dionísica, arrebatada, furiosa e brutal em sua espontaneidade.”

Debret descreveu a confecção do limão de cera ou de cheiro:

(...) simulação de laranja, frágil invólucro de cera de um quarto de linha de espessura e cuja transparência permite ver o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde. (...) A fabricação consiste simplesmente em pegar uma laranja verde de tamanho meio, cujo caule é substituído por um pedacinho de madeira de quatro a cinco polegadas que serve de cabo, e mergulhá-la na cera derretida. (...) mergulha-se na água fria, (...) Parte-se em seguida esse molde, ainda elástico, a fim de retirar a laranja e, aproximando-se as partes cortadas, solda-se o molde de novo com cera quente, tendo-se o cuidado de deixar a abertura formada pelo pedaço de madeira para a introdução da água perfumada com que deve ser enchido o limão de cheiro.”

O entrudo como era passou. Aqui e acolá, onde as mudanças sociais chegam mais vagarosamente alguns de seus elementos sobrevivem esmaecidos.

2-Zé pereira 

Conjunto formado por uma bateria baseada em percussão grave à custa de surdos, zabumbas, bombos treme-terra. Zé pereira seria o nome dado aos tambores do folguedo e por extensão ao grupo, processo conhecido no folclore coreográfico. O grupo inclui folgazões fantasiados e mascarados, de toda espécie.

Desfila pelas ruas com seus batidos firmes somados aos gritos compassados dos foliões de momo: “Pereira!” E a percussão ataca: “bum! Bum-bum-bum!”, “Zé Pereira! Bum! Bum –bum-bum! Pereira!”... etc., alternando repiques. Pode haver algum canto como este, tradicionalíssimo e divulgado:
“Viva o zé pereira! (3 vezes)
Que a ninguém faz mal!
Viva o zé pereira! (3 vezes)
Que hoje é carnaval!”

De costumeiro sai antes do carnaval, anunciando-o em ocasião de alegria, batucada, ensaio de marchinhas e sambas, como Dario Vale observou em Prados/MG: “(...) o tal de “Zé Pereira” que nada mais era que o ensaio de cantos, músicas, danças e folias, feito porém à vista de todos que estivessem pelas ruas e sem o aparato do carnaval propriamente dito.”

Sua origem é portuguesa. Espalhou-se no Brasil, notadamente no centro-sul. Parece ter sido introduzido no Rio de Janeiro, donde teria se espalhado. Luiz Edmundo dá como ano de sua introdução 1852, assim o descrevendo: “sete ou oito maganos vigorosos, tendo por sobre os ventres empinados satânicos tambores, caixas de rufos ou bombos, por entre alucinantes brados, passam pelas ruas, batendo, surrando, martelando, com estrondo e fúria, a retesada pele daqueles roucos e atroadores instrumentos.”

Consta que foi o sapateiro português José de Azevedo Paredes, natural do Porto e com loja na Rua São José, no Rio de Janeiro, o introdutor do folguedo. A novidade pegou e logo surgiram muitos outros. O autor supracitado informa que no Rio o zé pereira “acaba aí por 1906, 7 ou 8, como todas as coisas acabam, mas com esplendor e glória”.

Cascudo baseado em Armando Leça (Música Popular Portuguesa, 156, Porto, s.d.), dá como original do norte português e beiras, onde “barulham na arruada os gaiteiros e zé p’reiras”. Atesta-lhe J. Leite de Vasconcelos (Boletim de Etnografia, n.5, 27, Lisboa, 1938): “O zé pereira figura com frequência nos arraiais festivos do norte e beira”.

Professor Cintra registrou a presença deles em São João del-Rei/MG em 1901:

“Iniciam-se os festejos carnavalescos, promovendo a Sociedade Filarmônica S. Joanense baile à fantasia. O povo postou-se de frente da sede da entidade, situada à antiga Rua municipal, no local onde se construiu o edifício S. João del-Rei, para assistir à chegada dos foliões, alguns exibindo fantasias de elevado preço. As 22 horas a Orquestra Ribeiro Bastos executou a 1ª valsa. No dia anterior, sábado de carnaval, percorreram a cidade os barulhentos zé pereiras. Todas as noites num coreto armado à Rua Municipal, tocava  uma banda de música. No carnaval de 1901 não faltou o perigoso entrudo, com limões de cheiro, jarros e bacias d’água.”
            Havia vários destes conjuntos nesta cidade, em bairros, ocorrendo como consta por tradição oral, rivalidade entre eles. Não restou um só grupo nesta terra...

3-Índios

Era uma espécie de bloco formado por indivíduos trajados à imitação de indígenas, de cocar, saiote de penas, ráfia desfiada ou capim, tornozeleiras de penas, portando lanças ou flechas, pele com pinturas. Tinham impressionante realismo, quer na aparência quer na gesticulação ameaçadora, como se fora uma tribo em pé de guerra. Até meados do século XX e com mais força na primeira metade, havia desses grupos, hordas carnavalescas como nomes evocadores de velhas nações íncolas, até com rivalidades umas com as outras. 

Desapareceram. Vez por outra, até hoje, vemos indivíduos com tais trajes, machadinha à mão, de fingimento, isolados, perdidos na multidão como nossos índios de verdade, vivendo quase a esmo na terra que era (é) sua.

4-Blocos de Sujos (**)

Eram grupos caricatos de mascarados diversos, com trajes variados, alguns bem simples, quase maltrapilhos na fantasia, daí o nome. Valiam as posses e a criatividade, com a indispensável animação e senso carnavalesco. Acompanhados de charanga ou de batucada, percorriam animadamente as ruas, atirando confetes, serpentina, perfume de seus lança-perfume e alegria contagiante. Somavam-se outros fantasiados primorosos e sem outra regra senão a descontração: diabos, gatinhos, papangus, fantasmas, bruxas, árabes, mendigos, ciganas, piratas, vikings, pierrôs, colombinas, palhaços, dominós, polichinelos, arlequins e outros seres do passado, da criatividade e do subconsciente, surgiam e se misturavam, usando panos, cordas, fios, materiais brilhantes e outros, que serviam de matéria-prima. Alguns padrões tornaram-se tradicionais. 

5- Nêga Maluca

Brincadeira antiga centrada num personagem que leva este nome, carregando aos braços uma boneca a guisa de bebê, que, simulando não saber quem é o pai verdadeiro, oferece-o aos homens que passam, dizendo a clássica frase: “toma, que o filho é seu!”

O suposto pai oferta um dinheiro qualquer e lá vai a nêga maluca, após as pilhérias de praxe, com o filho nos braços à procura de outro pai, cuja espórtula garantirá a cachaça carnavalesca. Outros ofertam bebidas e lanches. Uma charanga a acompanha.

Os trajes representam uma mulher extravagante, com roupas de vivo estampado, cores berrantes, brincos e colares enormes, peruca despenteada, batom borrado na boca, adereços esquisitos e cacarecos pendurados. Seios postiços enormes. Ancas proeminentes por causa de dois travesseiros que amarra ao corpo sob o vestido, dando-lhe a aparência de uma mulher desajeitada, sem atrativos. No geral é um homem travestido.

É hoje rara esta folgança, aparecendo vez por outra, desgarrada no interior de uma farra qualquer, descaracterizada de seus elementos originais, convertida apenas em mais uma fantasia, aliás, bastante difundida.   

6- Boi

Não temos o folguedo do bumba-meu-boi em sua complexidade estrutural, mas seu personagem central aqui surge – já bastante rarefeito – fazendo as alegrias do carnaval de rua, com o nome de boi, boizinho e rancho do boi. Dança isolado, investindo com chifradas contra a meninada que lhe atiça sem parar. Dança aos volteios, descrevendo círculos e carreiras acompanhado por uma charanga ou batucada. Tocam ritmos do tempo, nada específico. Outras vezes surge em algum bloco, ao qual se mistura. Não há personagens senão o boi de fingimento, feito com uma armação coberta de pano, cabeça e rabo postiços. Um dançante movimenta o estafermo, oculto sobre ele.

Ficou afamado o Rancho do Boi de “seu Fausto” (Fausto de Almeida, falecido em 19/05/1953), no Bairro das Fábricas.

Das bandas do Tijuco – Alto das Águas Férreas, Rua de Santa Clara e Vila São Bento – por vezes sai um boi. Meu pai, David Passarelli, viu-o em Penedo, no município de Ritápolis/MG a trinta e tantos anos. Ainda se mantém em Prados/MG, onde é tradicionalíssimo, com o nome de boi mofado. Em Coronel Xavier Chaves/MG é chamado boi-de-caiado.

7- Bonecas 

Nossas bonecas são simples e parcas. Não as temos com a fartura pernambucana. Surgem, porém, com certa timidez, destacando com sua armação agigantada, vestido de chitão, adereços chamativos. Um indivíduo metido debaixo dela faz dançar aos rodopios e passos miúdos, girando os longos braços a bater a bolsa nos circunstantes, obrigando a abrir a roda de assistência. Faz salamaleques e mesuras. Insere-se no contexto dos blocos caricatos.

Outro tipo é uma boneca ou boneco menor, levado aos ombros por um folião, ou a ele abraçado, como uma companheira de dança, cujas pernas molengas são amarradas às do dançante.

Já os curiosos “Cabeções” que formavam um bloco específico, desapareceram. Os bonecos macrocéfalos ficaram no passado.

8- Caveiras

Bloco típico que prima pelo tétrico, o macabro, brincando com os valores da morte e da vida do além. É um cortejo ao som de música fúnebre, de foliões envoltos em mortalhas, "cáfitas" brancas, lençóis, como fantasmas, máscaras de caveiras em papel machê, já sendo comuns as industrializadas. Monstros, múmias, demônios, zumbis, viúvas em pranto, sangue fingido escorrendo de facadas falsas, caixão arrastado pelas ruas, velas, correntes, ossos bovinos. Vão em lento desfile, ameaçando atacar a assistência, atemorizando as crianças. A passagem do Bloco Os Caveiras é concorrida e esperada. As máscaras artesanais tem valor folclórico.


Bois, personagens do Bloco Recordar é Viver, em desfile pela
Rua Arthur Bernardes, São João del-Rei, 03/03/2014. 


Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. V.1, 326p. p.82 e 100.
DANGELO, Jota. De sambas e sambistas. Gazeta de São João del-Rei, Seção Opinião, Coluna Pelas Esquinas, ano 1, n.26, 16/01/1999.
_________  Noltalgia. Idem. n.27, 23/01/1999.
_________  Agostinho França. Ibidem. n.29, 06/02/1999.
_________  Escola de Samba. Ib. n.30, 13/02/1999.
_________  Flashes do Carnaval. Ib. n.31, 20/02/1999.
DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Martins, 1972. V.2, n.11, p.219-222.
EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu Tempo. 2.ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1987, v.4, p.767 e ss.
VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 344p. p.224-227.

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli
** Sobre o Bloco dos Sujos não deixe de ler no Blog de São João del-Rei, sob a coordenação do emérito pesquisador Francisco Braga: 

CHICO BRUGUDUM, TIPO PITORESCO DO CARNAVAL SÃO-JOANENSE




[1] - Este subtítulo é na verdade o título da publicação original, in: TRADIÇÃO. São João del-Rei: Subcomissão Vertentes de Folclore, n.5, fev.2000. Boletim Informativo, p.3-5. 
O texto foi adaptado para esta postagem. A versão original pode ser lida pelo link: 
A fotografia foi inserida especialmente para esta postagem. 

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