Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

São João del-Rei: 304 anos de patrimônios

Ninguém o sabe ao certo. Documento exato não se apresentou. Cogita-se... estima-se... a data inicial. Mas é certo que essa única São João del-Rei ultrapassa os trezentos anos. Já no anoitecer da era dos seiscentos, bandeirantes aventureiros passavam para lá e para cá pelo vale do Rio das Mortes, perseguindo índios e caçando riquezas. Até que um resolveu ficar com família e escravos. Fez morada no Porto Real da Passagem e em 1701 se tornou a primeira autoridade, como guarda-mor. Tomé Portes del-Rei era seu nome. Nosso fundador e patrono. Tudo começou ali pras bandas de Matosinhos, que sempre foi e ainda é São João del-Rei. Mas o mérito não é tentação para essas linhas discorrerem. O foco é outro. 

O núcleo cresceu e se multiplicou, desdobrou; e em 08 de dezembro de 1713 um arraial miúdo e dourado, entre montanhas mineiras e mineradoras foi elevada a vila e batizada com o pomposo nome de São João del-Rei. Por isto hoje comemoramos seu aniversário: 304 anos que na verdade são mais. É como uma pessoa que depois de vários anos de nascida fosse então tirar a certidão de nascimento, sem data retroativa. Tal aconteceu com esta urbe. 

A cidade expandiu e hoje é reconhecida por sua cultura e patrimônio, inseparáveis. Tem uma cara, uma fisionomia, um modo de ser, de viver, uma identidade. E isto, em plenitude, compõe seu mais tenro patrimônio, o humano. São João del-Rei não é nada sem o são-joanense. O maior patrimônio é a pessoa e ponto final. Terra de personalidades eminentes, artistas, mestres, sábios, estudiosos, músicos, ferroviários, operários. Povo acolhedor. Gente simples e culta. Quem cultua sua cultura é culto. 

São João é uma cidade poética. Cada novo ano de sua história é um verso a mais em sua poesia em permanente construção. Ao se passear pelas ruas antigas ou pelas novas, pelo núcleo histórico ou pelos arrabaldes, em caminhada em qualquer bairro que seja, se observa a velha e a nova cidade, cada uma de per si com sua característica, que no todo é a mesma São João del-Rei multi-facetária. Não se pode equipar o todo só pela identidade do núcleo histórico. Ele é absolutamente fundamental, mas a cidade de fato palpita também além dele. Por toda parte tem seus problemas, mas ainda assim a amamos. 

O tão decantado patrimônio são-joanense pode ser entendido noutra dimensão, aquela que de fato vivifica as cidades. O valor do patrimônio imaterial ou intangível vem sendo alvo de atenções a bastante tempo; contudo, parece inegável que num grau bem menos intenso que o do material ou tangível. Quase que automaticamente, acostumamos a nos referir às edificações como patrimônio, mas às manifestações... não. A observação deve ir além das belas construções. 

O casario, o largo, as ruas e os templos formam o cenário; a paisagem, como a esplêndida Serra do Lenheiro, forma a moldura. Mas uns e outros seriam como uma bela vitrine se não houvesse o patrimônio imaterial. A cidade, por mais preservada que esteja ou que estivesse, sem sua vida cultural é como uma cidade cenográfica. Os cidadãos compõe o mosaico dessa cultura riquíssima. Nas lendas e mitos refletem suas crenças, medos e interpretações do mundo. Na sua fé, nos seus ritos e cerimônias se sintonizam com o sagrado. Nas simpatias e benzeduras buscam alívio. Nas diversões se confraternizam e socializam. É preciso andar por aí com todos os sentidos aguçados, e porque não dizer, até com o sexto sentido aflorado... naquela esquina contam que viram uma assombração. Se lembrar disso e passar por lá, pode até sentir um arrepio!  

A cultura perpassa desde a visão focal de um detalhe arquitetônico até a visão global da vida contida no lugar. Enfim, no todo, o que o bem contemplado proporciona para a identidade daquela comunidade. A partir dessa perspectiva a cultura e o patrimônio podem ser entendidos com o sentimento e este com os sentidos: 

Olfato: a contemplação das manifestações passa pelo aroma dos temperos típicos, da culinária tradicional; da identificação de ervas de tempero ou medicinais pelo odor característico; pelo fedor da pólvora queimada nos foguetórios das alvoradas e procissões; o ar olorífico dos templos de piso revestido de folhas de rosmaninho; das ervas de Oxalá de um amassi; das folhas de guiné e arruda que fervem num banho de descarrego; da madeira serrada pelo carapina que repara um telhado; um cheiro do rapé trazido numa latinha no bolso ou do fumo do cigarro de palha; das misturas de um garrafada para bronquite;  da cachaça que da roça veio à cidade ...

Tato: o devoto não se limita a orar diante de uma imagem; tem que passar a mão nela, tocar, beijar-lhe a fita atada ao seu corpo; esfregar a bandeira da folia de Reis sobre uma parte doente do corpo para Santos Reis trazer o alívio e a cura; passar a bandeira do congado em volta da cabeça para limpar a aura; é preciso bater a testa no mastro para buscar forças, ou o pé esquerdo na encruzilhada para afastar malefícios. A mão corre sobre a lápide como se assim o saudoso estivesse mais perto do ente querido sepultado. Um giz ou um pincel risca o chão para esquadrejar o jogo da amarelinha. Sentir a serragem correr entre os dedos na elaboração de um tapete de rua. Pessoas se cumprimentam, estendem a mão. Um abraço fraterno... um toque gentil no ombro... 

Paladar: a culinária típica e seus inúmeros desdobramentos _ o quentão da festa junina com seu sabor marcante de gengibre, o cafezinho que o cidadão comum toma no bar da esquina como parte de sua rotina urbana, o bolinho de feijão que ali mesmo abrevia o tempo de espera do almoço, o sabor da amêndoa encartuchuda ou o doce de leite mexido num velho tacho, segundo receita ancestral; as frutas típicas de cada estação, algumas incomuns, que o mercado  tem à venda, as peculiaridades de sabor dos queijos regionais (frescos, meia-cura e curados ou os saborizados com temperos), o almoço festivo da Festa do Divino, o delicioso café da manhã das Festas do Rosário entre os irmãos congadeiros; o torresmo, o coquinho que se quebra com pedra para extrair a amêndoa, a pipoca comprada no carrinho típico na porta do cinema ou do teatro, o algodão doce espetado numa haste, apregoado com o fon-fon de uma buzina ... 

Audição: cidade sonora! Veículos, cães vadios ladrando pela rua, bêbados proferindo impropérios, acordes de um piano extravasam por uma vidraça, pois lá dentro alguém executa uma peça que ouvimos ao passar pela calçada. Batucadas ensaiam um bloco. Foguetes anunciam a chegada da procissão; fiéis gritam "viva!"; a menininha pede a mãe para comprar um balão colorido; o pedinte implora um óbolo pelo amor de Deus; os sinos convocam os devotos à celebração; a sanfona harmoniza o canto do calangueiro; na folia de Reis a viola caipira geme louvores; no congado, tambores troam resistência. Nos coros, vozes e violinos saúdam ao Criador. Sobre velhos paralelepípedos, marcha a banda, soprando partituras. Matraca bate estrepitosa na quaresma. Maria fumaça, vai partir, o apito já anunciou; a sirene da fábrica de tecidos marca o horário dos trabalhadores e até por extensão dos afazeres domésticos. Passa um vendedor empurrando um carrinho: "ao picooooo...lééé!" Lá no morro zoa "atabaca": é seu Tranca-ruas que vai arriar!

Visão: pipas colorem o céu, bailam ao vento, se esquivam para lá e para cá; as árvores da praça se pintam de flores em cada estação própria. O telhado velho ondula curvas de barro. A imagem do santo aponta o dedinho para o céu. Torres sacras verticalizam a cidade. O anjinho barroco de bochecha gorda sorri para nós e nós com indiferença não sorrimos de volta o cumprimentando. Sô padre vem pela calçada, de sisuda batina preta... "_ a bênça! _ Deus te abençoe, meu filho!"  Na porta do bar se vê os mesmos de sempre, contando lorotas e xingando o juiz de futebol. Fitas esvoaçam no estandarte do cortejo imponente. A jovem passa fantasiada para compor uma ala de escola de samba. As fachadas se sequenciam, coladas como gêmeos siameses. Montanhas emolduram a urbe. Na aurora as ruas estão enevoadas, o casarões históricos se revestem de mistério, como se mergulhados em brumas de um passado inimaginável. A cidade é movimento: passa uma carroça; vai um ciclista;  talvez um cavaleiro, ou, quem sabe!, um anjo de procissão. Evangélicos seguem concentrados para o culto ao Senhor. Vem um trabalhador de volta da faina, carregando sacolas de compras. Tudo e todos compõe esta cidade. 

Páginas e páginas se encheriam de exemplos, cada qual mais poético que o outro. Nunca lembraríamos de tudo. Sempre alguém diria que isto ou aquilo é mais importante. O fato é que a cidade vive! Transborda vida! Renasce todo dia, recria seu modo de viver e reviver; o cidadão fornece identidade à cidade e é por ela também identificado. Uns e outros se completam.

Para entender isso é preciso sentir. Para sentir é preciso amar.

Parabéns, São João del-Rei, por seus três séculos bem vividos!

1- "O casario, o largo, as ruas e os templos formam o cenário".

2- "A esplêndida Serra do Lenheiro, forma a moldura".

3- "As árvores da praça se pintam de flores em cada estação própria."

4- "Lá no morro zoa "atabaca": é seu Tranca-ruas que vai arriar!"

5- "A culinária típica e seus inúmeros desdobramentos".

6- "O algodão doce espetado numa haste, apregoado com o fon-fon de uma buzina ... "

7- "Um giz ou um pincel risca o chão para esquadrejar o jogo da amarelinha"

8- "São João del-Rei não é nada sem o são-joanense" 

9- "É preciso bater a testa no mastro para buscar forças"

10- "Esfregar a bandeira da folia de Reis sobre uma parte doente do corpo para Santos Reis trazer o alívio e a cura"

11- "A observação deve ir além das belas construções."

12- "Para entender isso é preciso sentir. Para sentir é preciso amar".

13- "Quem cultua sua cultura é culto".

14- "É preciso andar por aí com todos os sentidos aguçados"

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 3, 5, 6, 7, 9, 10, 12 Ulisses Passarelli; demais fotos, Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Festa do Rosário, Rio das Mortes, 2017

É difícil descrever uma Festa do Rosário. Ao olhos leigos ou apenas desatentos são todas iguais a não ser por pequenos detalhes: novena ou tríduo preparatório, mastro, alvorada, congados pelas ruas - com seu colorido e batuque, cantorias e danças - missas, recolhimento de reinado, chamada de reis e rainhas, procissão, fogos de artifício e despedidas. 

Igreja de Santo Antônio de Pádua e cruzeiro em seu adro. 

De fato este é o arcabouço básicos desses festejos. Contudo, tal visão simplista obscurece a verdadeira riqueza do evento religioso e da cultura popular a ele conjugado, sincronizado, harmonizado. 

Detalhe do mastro de Nossa Senhora do Rosário. 

Em cada festa podemos perscrutar as nuances da tradição e no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, em São João del-Rei, a comemoração congadeira em honra ao rosário de Nossa Senhora está de tal forma entranhada, intrínseca na população, que se tornou um atrativo ímpar, uma marca identitária, quiçá a mais característica. 

Vista tomada do coro, vendo-se congadeiros cantando após a
celebração da missa, sob apreciação de muitos devotos e visitantes. 


Famoso por ser a terra da Beata Nhá Chica, a vila está a cerca de 10 km de sede municipal, junto à BR-265, ocupando a extensa várzea do Rio das Mortes Pequeno, afluente da margem esquerda do Rio das Mortes. A localidade outrora era formada de pequeno aglomerado de casas em estilo rural, ao redor de uma praça plana e gramada, hoje está em adiantado processo de urbanização e modernização do casario. Era típica a criação de galinhas e porcos no centro do distrito, em comum. Tal aspecto se diluiu com o tempo e uma primeira mudança significativa aconteceu na década de 1970 com a implantação do distrito industrial nas imediações. Na década seguinte foi impactante na vida social e econômica local a passagem da Ferrovia do Aço, trazendo para a área novos moradores e influências. Também merece destaque a passagem por dentro da vila da Estrada Real, especificamente do Caminho Velho, primitivo Caminho Geral do Sertão, que ainda possibilita uma pitoresca caminhada contemplativa da história, desde os bandeirantes aos dias atuais. 

Vista tomada do coro, vendo-se o congo saindo da igreja para a praça. 

Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno foi grande produtor de sabão de bola, o famoso sabão artesanal tão típico e de uso popular. Também se destaca em várias expressões do artesanato e na produção de queijo. Hoje boa parte da população é flutuante, deslocando-se diariamente à cidade para trabalhar. 

No final das filas de dançantes, crianças se esforçam em movimentos
ágeis e sincronizados. 


Outro aspecto da dança das crianças.  
No campo cultural merece destaque a atividade musical, tradicionalíssima, contando a centenária corporação musical do lugar com orquestra e banda, com registro em 1895, desde então em atividade ininterrupta. É a Lira do Oriente. Outrora eram tradicionais também a folia de Reis, as pastorinhas e a encomendação das almas. Ainda se reza e festeja nos cruzeiros, enfeitados fielmente no mês de maio. O carnaval é sempre muito animado, com agremiações locais fazendo concorrido desfile. 

Banda Lira do Oriente durante a posse dos reis e rainhas.  

Centenária Banda de Música Lira do Oriente, força cultural marcante
no distrito.  

A festa do padroeiro Santo Antônio de Pádua é um marco anual indelével, que mobiliza a devotada população. As comemorações de Nhá Chica também tomam vulto e o turismo religioso desponta como uma alternativa econômica muito importante, que decerto ainda tem muito que crescer. A capela dedicada à beata vai em adiantado estado de obra, junto às ruínas da Igreja Velha, local de grande importância arqueológica.

Marcha de rua durante o recolhimento do reinado.

Movimentação durante a marcha de rua.   
O povo acolhedor, munido de grande fé, cioso da preservação de suas tradições, se irmana nas ruas pelos festejos anuais do Rosário. A criançada acorre ao parque de diversões e atiça os mouros do congado com provocações, pelo simples prazer de deles correr temerosos da sua espada de madeira. A igreja, muito bem conservada, fica lotada de visitantes e gente em prece. Pelas barracas de comes e bebes também se avista muitas pessoas. A socialização é evidente. Por toda parte alegria, bate-papo, descontração e amizade.

Os mouros, "Pirata" e "Silo". 

Cercadores: impedem os mouros de tirar a coroa da reinado com a espada. 

A passagem do congo agita e logo muita gente os acompanha rua afora, observando as peripécias dos mouros e apreciando a cantoria afinada dos soldados do rosário. Capitão Pedro maneja a bengala enfeitada comandando a notável congada. Ele e seus irmãos, demais familiares, parentes e amigos, formam um grupo coeso, que bem caracteriza o sentido de irmandade. A muitas e muitas décadas mantém a congada, que já ultrapassou a contagem secular dos anos. 

Capitão Pedro: tradição, sabedoria e fé - atributos de um grande líder.

Reis e rainhas descem em cortejo até o adro, cingidos de coroa e trazendo espórtulas, recolhidas no momento da chamada, recebendo como mimo o costumeiro cartucho de amêndoas. A sineta bate e a quantia é anunciada de público. Sobre o coroado é aspergida água benta. A banda, posicionada adrede, irrompe num pequeno trecho de marcha festiva: posse de reis e rainhas. 

O reinado.  

Chamada e posse dos reis e rainhas.  
Opas, ciriais, turiferários, carregadores de andor... um perfume de incenso rescende no ar. Foguetes daqui e dali. O sino dobra. A Senhora balanceia no andor florido. O povo ora e se persigna. Viva o Rosário de Maria!

Andor de Nossa Senhora do Rosário durante a procissão. 

Caixeiros fazem vênia durante saudação aos reis e rainhas.  
Festa do Rosário precisa ser acompanhada com os cinco sentidos. Cada qual em seu momento e no todo se completam para caracterizar sua graciosidade, que nos faz esperar saudosos o ano que vem, para de novo participar, cada vez com mais encanto da mesma programação. 

A festa enseja alegria espontânea  e verdadeira.  

Por toda sua riqueza histórico-cultural e pela hospitalidade de seu povo, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno merece ser visitada. A título de encerramento o vídeo lincado a seguir revela alguns momentos flagrados durante o recolhimento do reinado pelas ruas do histórico distrito, berço de riquíssima cultura. 



Notas e Créditos

* Vídeo e fotografias: Iago C.S. Passarelli
** Texto, acervo e edição de vídeo: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Terço a Nossa Senhora do Rosário em São Gonçalo do Amarante

No distrito de São Gonçalo do Amarante, antigo Caburu, em São João del-Rei/MG, Brasil, prosseguem os preparativos para os festejos de Nossa Senhora do Rosário pela comunidade e sobretudo pelos congadeiros. 

No último domingo, dia 01 de outubro, antecedendo em uma semana ao dia maior, o terno de congo local marchou pelas ruas do distrito para recolher a imagem de Nossa Senhora do Rosário, que esteve em visita às casas dos congadeiros, entre 17 e 30 de setembro e a trouxe de volta à Gruta do Divino Espírito Santo, onde às 19 horas, congadeiros e comunidade se reuniram na reza do terço. 

As imagens abaixo revelam alguns instantes desse momento das comemorações do reinado. 

Os preparativos continuam amanhã, dia 05 de outubro com o início do tríduo a Nossa Senhora do Rosário, às 19 horas, logo após a celebração da missa dedicada a São Benedito. 










Notas e Créditos

* Fotografias: Dorival Caim de Paula, que gentilmente as ofertou para esta postagem. Registre-se a gratidão do Blog Tradições Populares das Vertentes. 
** Texto: UIisses Passarelli

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Reinado em Ritápolis

Transcorreu com grande animação mais uma vez o festejo do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito em Ritápolis/MG, Brasil, concluído com o dia maior no último domingo, dia 1º de outubro. 

Na Igreja do Rosário concentraram-se os congadeiros _ além dos dois ternos locais, um do distrito da Restinga, um de São João del-Rei (Bairro Matosinhos) e o Moçambique Santa Efigênia, que mescla componentes de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. Dois mastros estavam fincados no adro, um de cada lado, dedicados à Virgem do Rosário e a São Benedito. 

As celebrações foram primorosamente presididas pelo pároco, Padre Nélio José dos Santos, que trata aos participantes com notável respeito e carinho, sendo seu apoio fundamental ao êxito dos festejos. Além disto, a festa se constrói com o apoio da Prefeitura Municipal, da incansável comunidade e sobretudo dos congadeiros. 

Como de costume, houve grande fartura alimentar, ofertada aos irmãos do rosário dançantes nos ternos de congado _ café da manhã, almoço e lanche da tarde. 

O reinado foi recolhido a partir da Igreja de São Pedro e São Paulo, até a do Rosário, chamando em especial a atenção o esmero das vestimentas e a dignidade da corte. Destaque para a Rainha Conga Dona Sebastiana, uma verdadeira pérola, com seus sessenta anos de reinado segundo informações orais de congadeiros ritapolitanos. 

A procissão foi por demais concorrida e por longo trajeto transitou por ruas adornadas, ao troar de tambores, sob cânticos devotos e espoucar de fogos de artifício. 

Ritápolis se destaca nas tradições culturais com seus congados e folias, a banda de música, a tradição das queimas de judas na zona rural e um animado carnaval, que se encerra com chave de ouro com o Enterro do Zé Pereira. Situada no Campo das Vertentes, banhada pelo Rio das Mortes, é localidade surgida nas primeiras décadas do século XVIII, à margem da Picada de Goiás. Sob as bênçãos de sua padroeira, Santa Rita de Cássia, a cidade recebe anualmente uma multidão de devotos em seu jubileu de maio; preserva ainda parte significativa do casario antigo e com suas belas tradições e povo acolhedor, merece ser visitada. 

Fazemos votos que as festas congadeiras perserverem por anos ilimitados, mantendo firme a tradição dos antepassados. 

Igreja do Rosário de Ritápolis, vendo-se os dois mastros nas laterais do adro. 

Congadeiros da Restinga cantam agradecendo almoço. 

Capitãs Adelita e Juliana, do Congado Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário,
de Ritápolis, ladeando a Rainha Conga Dona Sebastiana. 

Moçambique Santa Efigênia, sob o comando dos Capitães Tadeu e Danilo.
 
Congado São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, de Ritápolis,
durante a procissão, adiante do Reinado. 

Andores de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito após a procissão. 

Prefeitura Municipal (imóvel à esquerda da foto), casario
e Santuário de Santa Rita de Cássia.

Igreja de São Pedro e São Paulo. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

sábado, 30 de setembro de 2017

Festa do Rosário em São Gonçalo do Amarante: visita da bandeira e levantamento do mastro


Nesta postagem são mostrados dois momentos, que antecedem em uma quinzena, ao dia maior dos festejos em honra a Nossa Senhora do Rosário, no distrito de São Gonçalo do Amarante, antigo Caburu e primitivo São Gonçalo do Brumado, no município de São João del-Rei/MG, Brasil, pelos congadeiros da comunidade. 

A Festa do Reinado é uma das tradições mais preservadas do lugar, ocasião que a centenária guarda de congo sai às ruas para suas tradicionais comemorações. O dia principal dos festejos sempre reúne a população local além de muitos visitantes, da sede do município, zona rural em derredor e mesmo turistas. Se destaca também pela presença de congados de outras localidades que vem participar à convite. 

Contudo, os eventos focados nesta postagem (visita da bandeira e levantamento do mastro) tem um alcance restrito à própria comunidade. Sua visibilidade é limitada, mas enquanto elementos culturais e devocionais tem grande expressão e importância e são tão merecedores de atenção e preservação quanto qualquer outro momento do dia maior. 

Desprovidos do apelo visual colorido dos uniformes dos congadeiros no domingo principal, a visita da bandeira e o levantamento do mastro, se prendem à autenticidade da fé dos dançantes do rosário _ soldados de Maria _ e dos demais devotos. A verdade da tradição se impõe à falta de um público externo, mostrando que aquilo que o congadeiro faz não é uma exibição para uma plateia, mas sim uma expressão de seus sentimentos e devoção legítima, pautada em forte tradição e identidade às características da comunidade. 

No primeiro vídeo, observa-se momentos da visita da bandeira de Nossa Senhora do Rosário à residência de congadeiros, ativos e inativos, levando a bênção para os lares em companhia dos caixeiros que batem um toque específico. Na oportunidade, recolhem ofertas para ajudar no custeio do evento. Esta visita protocolar acontece pela manhã. No mesmo dia, à tarde, o grupo sai à rua para levantar o mastro. 

O segundo vídeo mostra outro momento da abertura dos festejos em honra a Nossa Senhora do Rosário, no qual os congadeiros do distrito fazem o levantamento do mastro, a partir do interior da igreja, o que denota a fortíssima relação com o sagrado. Para os congadeiros o laço de união entre a fé e cultura é natural, essencial e indissolúvel. Na ocasião do levantamento do mastro é costume os congadeiros não estarem uniformizados, ao contrário do dia festivo principal, que se apresentam com a vestimenta típica. 

A festa se aproxima, ou melhor, já chegou porque estes eventos fazem parte dela. Outros desdobramentos haverão no decurso da semana e no dia 08 de outubro acontecerá o dia maior da Festa do Reinado da gloriosa Nossa Senhora do Rosário. 


Vídeo 1: visita da bandeira

Vídeo 2: levantamento de mastro

Cartaz 42 x 30 cm, papel couché
Festa do Rosário, 2017, São Gonçalo do Amarante


Notas e Créditos

- Capitão de Congo: Lourival Amâncio de Paula
- vídeo 1: Dorival Caim de Paula
- vídeo 2: Denilson Nonato Frade
- acervo, oferta e licença de postagem: Dorival Caim de Paula
- edição, texto e foto: Ulisses Passarelli - data: 24/09/2017
Agradecimentos
a Dorival Caim de Paula, festeiro e congadeiro do Rosário, pela gentileza da oferta do vídeo e permissão para esta postagem.

domingo, 10 de setembro de 2017

Alguns acessórios em carros de bois

Dando seguimento à exposição de fotografias de carros de bois, flagrados durante o primeiro encontro em São João del-Rei, seguem mais sete imagens referentes a alguns acessórios habitualmente usados pelos carreiros. 

1- Chave de apertar cocão.
                                                             
2- Azeiteiro feito de chifre bovino, com tampa metálica: 
depósito de azeite de mamona, lubrificante dos cocões. 

3- Varas de ferrão. 

4- Detalhe das argolas trespassadas no aguilhão.
5- Azeiteiro improvisado com garrafa pet; um pincel se presta a passar o azeite. 
6- Garrafa térmica: café para carreiros e candieiros. 

7- Cantil feito de cabaça, envolto por malha de cipó; arrolhamento por sabugo de milho; caneca de alumínio.

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Ulisses Passarelli (1-3) e Iago C.S. Passarelli (4-7); 20/08/2017